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Patriarcado de Lisboa - Conselho Presbiteral
A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo
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Durante o recente Conselho Presbiteral da diocese, nos dias 12 e 13 de janeiro, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, dirigiu-se aos sacerdotes com a comunicação ‘Como levar à prática, nas nossas comunidades, as propostas pastorais do Sínodo dos Bispos: A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo? (seis pontos para a partilha)’, que o Jornal VOZ DA VERDADE publica na íntegra.

 

1) No Relatório da assembleia sinodal de outubro último lê-se o seguinte, num trecho de grande unanimidade: «Seio de alegrias e provações, a família é a primeira e fundamental “escola de humanidade” (cf. GS 52). Apesar dos sinais de crise da instituição familiar nos vários contextos, o desejo de família mantém-se vivo nas jovens gerações. A Igreja, perita em humanidade e fiel à sua missão anuncia com profunda convicção o “Evangelho da família”: recebido com a Revelação de Jesus Cristo e ininterruptamente ensinado pelos Padres, pelos Mestres de espiritualidade e pelo Magistério da Igreja. A família assume, para o caminho da Igreja, uma importância especial: “[…] Deus entrou no mundo numa família. E pôde fazê-lo porque essa família era uma família que tinha um coração aberto ao amor, que tinha as portas abertas” (Papa Francisco, Discurso na Vigília de Oração com as Famílias, Filadélfia, 26 de setembro de 2015). As famílias de hoje são enviadas como “discípulos missionários” (cf. EG 120). Nesse sentido, é necessário que a família se redescubra como sujeito imprescindível para a evangelização» (Relatório, nº 2). Este número sintetiza bem a reflexão sinodal no que teve de mais definido e programático. Podemos detalhá-lo assim:

a) A “humanidade”, enquanto sentimento e prática, aprende-se basicamente em família - exatamente por esta conter “alegrias e provações” e ensinar a viver entre umas e outras. Com novos e velhos, espontâneos ou prudentes, saudáveis ou enfermos, a família pode proporcionar a aprendizagem mais essencial de todas, que é precisamente a de ser “pessoa” entre pessoas.

b) Fiel ao ensinamento de Cristo, a Igreja propõe um autêntico “Evangelho da família”. Quando Jesus remonta ao próprio Deus, como “princípio” criativo (verdade e graça), a unidade e a indissolubilidade do matrimónio – e o faz em contraste com a prática pagã e até judaica do seu tempo –, apresenta algo de fundamental, de que não podemos nem queremos dispensar-nos, enquanto seus discípulos (cf. Mc 10, 1-12).

c) O caminho da Igreja passa pela família, porque pela família o próprio Deus veio ao nosso encontro. O Sínodo não deixou de lembrar a dimensão familiar da vida de Jesus, da família em que nasceu e cresceu à “família” em que nos incluiu a todos como seus irmãos e filhos de Deus (cf. Relatório, nº 41).

d) Se a missão de Cristo progrediu da família de Nazaré à família dos filhos de Deus, a evangelização deve retomar as famílias como seu objetivo, mas também “sujeito imprescindível”. No Sínodo lembrou-se concretamente a colaboração primitiva entre os Apóstolos e alguns casais, como Áquila e Priscila, de que falam os Atos dos Apóstolos e as cartas paulinas.

- No ponto em que estamos, como apresentamos e como promovemos pastoralmente o “Evangelho da família”, enquanto verdade e missão?  

 

2) Depois duma primeira parte intitulada “A Igreja à escuta da família” (visão sociocultural), e uma segunda sobre “A família no desígnio de Deus” (Bíblia e magistério), o Relatório dedica a sua terceira parte à “Missão da família”, com propostas concretas e operativas.

Serão várias, essas propostas, nos números finais do documento. Sendo verdade que só uma família autenticamente cristã poderá ajudar outras a sê-lo também. É um trabalho grande, que nem sempre conta com o apoio do meio sociocultural envolvente. O Sínodo insistiu muito nos percursos formativos e no testemunho da comunidade eclesial, que tem de ser especialmente profética neste campo. E retomou a Familiaris consortio (nº 66) com as suas “três etapas”: a preparação remota, em que a própria família transmite a fé e os valores cristãos; a preparação próxima, com as iniciativas formativas da comunidade cristã; e a preparação imediata, que inclui a dimensão vocacional – pois a família cristã nasce duma escolha mútua que responde ao próprio Deus que escolhe, une e envia (cf. Relatório, nº 57).

Da família de origem, sendo realmente cristã, à comunidade digna deste nome, assim cresce, se constitui e afirma o caminho matrimonial cristão, no melhor dos casos. E, uma vez que nem sempre contamos com boas bases familiares, tivéssemos nós uma vida comunitária propriamente dita, com percursos pessoais compartilhados, antes e depois da celebração matrimonial. Como sabemos, este é talvez o nosso maior problema “pastoral” propriamente dito. Já não temos comunidades “garantidas” pela fixação territorial e sociocultural e havemos de procurar outro modo de sociabilidade e integração familiar-eclesial (da Igreja doméstica à Igreja de todos e vice-versa), ainda difícil de divisar.

– Como corresponder ao que o Sínodo nos pede, com inegável premência: «A comunidade cristã, através de uma participação cordial e festiva, acolherá no seu seio a nova família para que, como Igreja doméstica, se sinta parte da mais vasta família eclesial» (Relatório, nº 50)?         

       

3) Se atingirmos este tão desejável envolvimento comunitário, mais fácil será acompanhar paroquial e comunitariamente a vida familiar. Afirma o Sínodo que «os primeiros anos de matrimónio são um período vital e delicado, durante o qual os casais crescem na consciência da sua vocação e missão» (Relatório, nº 60). Todos desejamos que assim seja de facto. Mas o mesmo número acrescenta as condições: encorajar os esposos para acolherem o dom dos filhos; sublinhar a importância da espiritualidade familiar, da oração e da Eucaristia, bem como das reuniões entre casais que se ajudem mutuamente na oração e na vida; o encontro pessoal com Cristo através da palavra de Deus e da lectio divina; ou a prática devocional e litúrgica, incluindo a celebração dos aniversários…

- Que boas práticas podemos já apurar e incentivar neste sentido?

  

4) Como em qualquer outra concretização cristã da vida, não faltam no matrimónio e nas famílias momentos de provação, por várias causas e às vezes graves. O Sínodo não o ignorou, antes viu aqui mais um motivo para reforçar o necessário acompanhamento eclesial: «Quando os esposos têm problemas nas suas relações deverão poder contar com o apoio e o acompanhamento da Igreja». Este ponto constitui mesmo uma prioridade pastoral, tanto mais que, como se acentua a seguir, com ajuda adequada e a graça reconciliadora do Espírito, «uma grande percentagem de crises matrimoniais são superadas de modo satisfatório» (Relatório, nº 81).

- Assim sendo – como poderemos corroborar com a nossa própria experiência pastoral -, que devemos fazer, a nível concomunitário e intercomunitário, para prevenir ou ultrapassar positivamente as crises conjugais e familiares?

 

5) O Sínodo teve bem presente o caso dos batizados “divorciados e recasados civilmente”. E insistiu em dois pontos: integração e discernimento. Quanto à integração – retomando indicações de João Paulo II (Familiaris consortio) e Bento XVI (Sacramentum caritatis) –, adiantou o seguinte: «A lógica da integração é a chave do seu acompanhamento pastoral, para que não só saibam que pertencem ao Corpo de Cristo, que é a Igreja, mas disso possam ter uma experiência feliz e fecunda. São batizados, são irmãs e irmãs, o Espírito Santo infunde neles dons e carismas para o bem de todos. A sua participação pode exprimir-se em diversos serviços eclesiais: há que discernir quais das diversas formas de exclusão atualmente praticadas, no âmbito litúrgico, pastoral, educativo e institucional, podem ser superadas» (Relatório, nº 84).

Quanto ao discernimento, depois de no número 85 lembrar com João Paulo II que as situações e as responsabilidades podem ser muito diversas (cf. Familiaris consortio, 84), o Relatório adianta: «O percurso de acompanhamento e discernimento orienta esses fiéis para a tomada de consciência da sua situação perante Deus. O colóquio com o sacerdote, no foro interno, concorre para a formação de um juízo correto do que impede a possibilidade de uma mais plena participação na vida da Igreja e dos passos que a podem favorecer e fazê-la crescer» (Relatório, nº 86). Sobre este ponto, o Sínodo não deixou ainda de lembrar que «para tantos fiéis que viveram uma experiência matrimonial infeliz, a verificação da nulidade do matrimónio é um caminho a percorrer» (Relatório, nº 82).

- Como se efetivam a integração e o discernimento na nossa prática sacerdotal e comunitária, em relação a estes casos?

 

6) Em termos de “vocação e missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, a reflexão sinodal propõe-nos quase um critério familiar de realização comunitária: «Toda a comunidade cristã deve tornar-se o lugar onde as famílias nascem, se encontram e se confrontam juntas, caminhando na fé e partilhando percursos de crescimento e de recíproco intercâmbio» (Relatório, nº 89). Assim para o maior protagonismo familiar na catequese e na evangelização; e assim também para servir o bem comum da sociedade ou participar na missão, mesmo ad gentes (cf. Relatório, nº 90). Quer na Igreja quer na sociedade, o critério familiar é fundamental para refazer a solidariedade na sua própria raiz. Possivelmente foi mesmo esta a razão que levou o Papa Francisco a escolher de novo a temática familiar para a reflexão sinodal, e do modo reforçado com que o fez.

- Que podemos partilhar desde já sobre a (re)composição familiar da nossa vida comunitária, transformando cada comunidade em “família de famílias”, como propunha São João Paulo II?     

 

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

12 de janeiro de 2016   

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