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Exortação apostólica pós-sinodal ‘Amoris laetitia’ (‘A alegria do amor’)
“Reforçar o amor e ajudar a curar as feridas”
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“A alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja”. É com esta frase que o Papa Francisco inicia a Exortação apostólica pós-sinodal “sobre o amor na família”. Publicada no passado dia 8 de abril, ‘Amoris laetitia’ (‘A alegria do amor’) revela a “tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias”.

 

É um documento que fala “a linguagem da experiência e da esperança”. Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, numa síntese da Exortação apostólica ‘Amoris laetitia’, o texto do Papa Francisco que resulta de dois Sínodos sobre a família, em 2014 e 2015, “pretende reafirmar com força não o “ideal” da família, mas a sua realidade rica e complexa”. “Há nas suas páginas um olhar aberto, profundamente positivo, que se nutre não de abstrações ou projeções ideais, mas de uma atenção pastoral à realidade. O documento é uma leitura densa de motivos espirituais e de sabedoria prática útil a cada casal ou a pessoas que desejam construir uma família. Nota-se sobretudo que foi fruto de uma experiência concreta com pessoas que sabem, a partir da experiência, o que é a família e o viver juntos durante muitos anos”, salienta o resumo do Vaticano.

A segunda Exortação apostólica do Papa Francisco – depois da publicação, em novembro de 2013, da ‘Evangelii Gaudium’, sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual – está dividida em nove capítulos e mais de 300 pontos, com o Papa a afirmar “de imediato e com clareza que é necessário sair da estéril contraposição entre a ânsia de mudança e a aplicação pura e simples de normas abstratas”, destaca a síntese da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Na introdução, o Papa não aconselha uma leitura “apressada” de ‘Amoris laetitia’: “Poderá ser de maior proveito, tanto para as famílias como para os agentes de pastoral familiar, aprofundar pacientemente uma parte de cada vez ou procurar nela aquilo de que precisam em cada circunstância concreta” (AL 7).

 

Capítulo I: ‘À luz da Palavra’

O Papa articula a sua reflexão a partir das Sagradas Escrituras, em particular com uma meditação acerca do Salmo 128, característico da liturgia nupcial hebraica, assim como da cristã. A Bíblia “aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares” (AL 8).

 

Capítulo II: ‘A realidade e os desafios das famílias’

O Papa considera, no segundo capítulo, a situação atual das famílias, mantendo “os pés assentes na terra” (AL 6). O matrimónio é “um caminho dinâmico de crescimento e realização”. Por isso, também não se pode julgar que se pode apoiar as famílias “com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça” (AL 37). Convidando a uma certa “autocrítica” de uma apresentação não adequada da realidade matrimonial e familiar, o Papa insiste na necessidade de dar espaço à formação da consciência dos fiéis: “Somos chamados a formar as consciências, não a pretender substituí-las” (AL 37). Jesus propunha um ideal exigente, mas “não perdia jamais a proximidade compassiva às pessoas frágeis como a samaritana ou a mulher adúltera” (AL 38).

 

Capítulo III: ‘O olhar fixo em Jesus: a vocação da família’

O terceiro capítulo é dedicado a alguns elementos essenciais do ensinamento da Igreja acerca do matrimónio e da família. Ilustra a vocação à família de acordo com o Evangelho, assim como ela foi recebida pela Igreja ao longo do tempo, sobretudo quanto ao tema da indissolubilidade, da sacramentalidade do matrimónio, da transmissão da vida e da educação dos filhos. São feitas diversas citações da ‘Gaudium et spes’ do Vaticano II, da ‘Humanae vitae’ de Paulo VI, da ‘Familiaris consortio’ de João Paulo II. O olhar é amplo e inclui também as “situações imperfeitas”.

 

Capítulo IV: ‘O amor no matrimónio’

Este capítulo desenvolve o carácter quotidiano do amor que se opõe a todos os idealismos, terminando com uma reflexão acerca da “transformação do amor” uma vez que “o alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha” (AL 163). “Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade” (AL 163).

 

Capítulo V: ‘O amor que se torna fecundo’

O quinto capítulo centra-se na fecundidade e no carácter gerador do amor. Fala-se de uma maneira espiritual e psicologicamente profunda do acolher uma nova vida, da espera própria da gravidez, do amor de mãe e de pai. Mas também da fecundidade alargada, da adoção, do acolhimento, do contributo das famílias para a promoção de uma “cultura do encontro”, da vida na família em sentido amplo, com a presença de tios, primos, parentes dos parentes, amigos.

 

Capítulo VI: ‘Algumas perspetivas pastorais’

O Papa aborda algumas vias pastorais que orientam para a edificação de famílias sólidas e fecundas de acordo com o plano de Deus. A Exortação recorre aos dois Sínodos e às catequeses do Papa Francisco e de João Paulo II. Volta a sublinhar que as famílias são sujeito e não apenas objeto de evangelização. O Papa observa que “os ministros ordenados carecem, habitualmente, de formação adequada para tratar dos complexos problemas atuais das famílias” (AL 202). Francisco desenvolve ainda o tema da orientação dos noivos no caminho de preparação para o matrimónio, do acompanhamento dos esposos nos primeiros anos da vida matrimonial (incluindo o tema da paternidade responsável), mas também em algumas situações complexas e, em particular, nas crises. Fala também do acompanhamento das pessoas abandonadas, separadas ou divorciadas e sublinha a importância da recente reforma dos procedimentos para o reconhecimento dos casos de nulidade matrimonial. “O divórcio é um mal, e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo” (AL 246).

 

Capítulo VII: ‘Reforçar a educação dos filhos’

O sétimo capítulo é totalmente dedicado à educação dos filhos: a sua formação ética, o valor da sanção como estímulo, o realismo paciente, a educação sexual, a transmissão da fé e, mais em geral, a vida familiar como contexto educativo. “Se um progenitor está obcecado com saber onde está o seu filho e controlar todos os seus movimentos, procurará apenas dominar o seu espaço. Mas, desta forma, não o educará, não o reforçará, não o preparará para enfrentar os desafios. O que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia” (AL 261).

 

Capítulo VIII: ‘Acompanhar, discernir e integrar a fragilidade’

O capítulo oitavo representa um convite à misericórdia e ao discernimento pastoral diante de situações que não correspondem plenamente ao que Deus propõe. O Papa utiliza três verbos: “acompanhar, discernir e integrar”, os quais são fundamentais para responder a situações de fragilidade, complexas ou irregulares. Em seguida, apresenta a necessária gradualidade na pastoral, a importância do discernimento, as normas e circunstâncias atenuantes no discernimento pastoral e, por fim, aquela que é por ele definida como a “lógica da misericórdia pastoral”.

No que respeita ao “discernimento” acerca das situações “irregulares”, o Papa observa: “Trata-se de integrar a todos, deve-se ajudar cada um a encontrar a sua própria maneira de participar na comunidade eclesial, para que se sinta objeto duma misericórdia “imerecida, incondicional e gratuita”” (AL 297). E ainda: “Os divorciados que vivem numa nova união, por exemplo, podem encontrar-se em situações muito diferentes, que não devem ser catalogadas ou encerradas em afirmações demasiado rígidas, sem deixar espaço para um adequado discernimento pessoal e pastoral” (AL 298).

Nesta linha, acolhendo as observações de muitos Padres sinodais, o Papa afirma que “os batizados que se divorciaram e voltaram a casar civilmente devem ser mais integrados na comunidade cristã sob as diferentes formas possíveis, evitando toda a ocasião de escândalo”. “A sua participação pode exprimir-se em diferentes serviços eclesiais (…). Não devem sentir-se excomungados, mas podem viver e maturar como membros vivos da Igreja (…). Esta integração é necessária também para o cuidado e a educação cristã dos seus filhos” (AL 299).

Segundo a Sala de Imprensa da Santa Sé, neste capítulo oitavo “o Papa profere uma afirmação extremamente importante para que se compreenda a orientação e o sentido da Exortação”: “Se se tiver em conta a variedade inumerável de situações concretas (…) é compreensível que não se devia esperar do Sínodo ou desta Exortação uma nova normativa geral de tipo canónico, aplicável a todos os casos. É possível apenas um novo encorajamento a um responsável discernimento pessoal e pastoral dos casos particulares, que deveria reconhecer: uma vez que “o grau de responsabilidade não é igual em todos os casos”, as consequências ou efeitos duma norma não devem necessariamente ser sempre os mesmos” (AL 300).

Na última secção do capítulo, ‘A lógica da misericórdia pastoral’, o Papa Francisco reafirma: “A compreensão pelas situações excecionais não implica jamais esconder a luz do ideal mais pleno, nem propor menos de quanto Jesus oferece ao ser humano. Hoje, mais importante do que uma pastoral dos falimentos é o esforço pastoral para consolidar os matrimónios e assim evitar as ruturas” (AL 307). E ainda: “Às vezes custa-nos muito dar lugar, na pastoral, ao amor incondicional de Deus. Pomos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e real significado, e esta é a pior maneira de aguar o Evangelho” (AL 311).

 

Capítulo IX: ‘Espiritualidade conjugal e familiar’

O nono capítulo é dedicado à espiritualidade conjugal e familiar, “feita de milhares de gestos reais e concretos” (AL 315). “Nenhuma família é uma realidade perfeita e confecionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. (…). Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! (…). Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

A Exortação apostólica ‘Amoris laetitia’ conclui com uma Oração à Sagrada Família.

 

* com base na síntese publicada pela Sala de Imprensa da Santa Sé

 

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Amor, acompanhamento e discernimento

Presente na apresentação pública da Exortação apostólica pós-sinodal ‘Amoris laetitia’, no Vaticano, o Cardeal Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena, destacou três palavras: amor, acompanhamento e discernimento. “A palavra-chave é ‘amor’: Amoris Laetitia. É significativo que o Papa não fale da caridade, mas do amor. Toda a plenitude dos sentimentos, das atitudes no casal e na família, de facto toda esta riqueza encontra-se no centro”, referiu o Cardeal austríaco. “A outra palavra-chave do documento é ‘acompanhamento’: o acompanhamento que fazem os pais com os seus filhos, que fazem os pastores com os fiéis, que faz o Papa com a Igreja. Acompanhamento numa estrada em que estão todos. E eu, que venho de uma família muito ferida, sofri, quando era jovem, desta quase separação que se faz, muitas vezes, na Igreja: aqui estão aqueles ‘em ordem’, que se comportam bem, e aqui estão os outros que são irregulares: os bons, aqueles em regra, e os outros, que são um problema. O Papa Francisco, na linha de Jesus, da Bíblia e do Novo Testamento, mostra-nos que todos nós estamos em caminho”. Na Sala de Imprensa da Santa Sé, no passado dia 8 de abril, o Cardeal Christoph Schönborn sublinhou que a “terceira e última palavra-chave é ‘discernimento’”. “O discernimento é aquilo que cada um de nós deve fazer: o que Deus quer de mim na vida quotidiana, nas grandes escolhas da vida, etc. Discernimento também nas situações difíceis”, afirmou.

 

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Exortação apostólica ‘Amoris laetitia’

Leia na íntegra, a partir do site do Vaticano, o documento do Papa Francisco: http://goo.gl/GLpkOG (link direto)

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