Domingo |
À procura da Palavra
Os nove (ou nove mil) frutos
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DOMINGO DE PENTECOSTES Ano C
“Soprou sobre eles e disse-lhes:
«Recebei o Espírito Santo».”
Jo 20, 22

 

Ando há dias à procura de palavras para falar do Espírito Santo que festejamos no Pentecostes deste domingo. E tudo me parece um balbuciar incoerente ou a repetição de “lugares comuns”. Faltam palavras para dizer a abundância de vida que Ele faz acontecer em tudo, e basta estar um pouco atento para descobrir os seus frutos. Desses frutos S. Paulo apresenta nove na sua Carta aos Gálatas: “amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e auto-domínio”. É verdade que o Catecismo apresenta uma lista tradicional de doze, e não poderíamos aumentar quase infinitamente esses frutos, como infinito é o dom de Deus a cada um?

Há uma frase atribuída a Jesus, dita por S. Paulo e recolhida por S. Lucas nos Actos dos Apóstolos, que não aparece nos Evangelhos: “Há mais felicidade em dar do que em receber.” Até parece um título publicitário e podemos questioná-la pois a alegria de receber produz um efeito imediato poderoso. Nos frutos do Espírito Santo que S. Paulo refere há uma força que irradia, uma dádiva que alastra, um dinamismo que contagia. A cada um deles poderíamos chamar “felicidade”, talvez o maior desejo do ser humano, que dificilmente se experimenta quando vivemos centrados no nosso “umbigo”. Todo o fruto é algo novo e gratuito, que não serve simplesmente para quem o produz, e precisa ser partilhado. Por isso a maior da riqueza de qualquer dádiva não é o retorno mas a multiplicação. Quem não viu o filme “Favores em cadeia” e aquela “ideia para mudar o mundo” tão simples e eficaz: “Faz um grande favor a três pessoas; e se te vierem agradecer ou querer retribuir, desafia-as a fazerem o mesmo que tu, e ajudarem outras três pessoas, e assim por diante”?! 

Dos nove frutos bíblicos aos nove mil (?) que poderíamos reconhecer em tantas situações do mundo, como andamos atentos ao que o Espírito inspira e suspira? Gastamo-nos mais em lamentar o que está mal ou em criar e promover o que eleva e compromete as pessoas? Universalizamos a desgraça ou concretizamos a esperança? Talvez valesse a pena melhorar a atenção e a disponibilidade de espírito aos pequenos grandes frutos que estão, quotidianamente, a ser oferecidos. E “dar o corpo ao manifesto”, que o próprio Espírito Santo precisa que cada pessoa não se demita, nem desvalorize os dons que lhe deu!

Por entre muitos frutos que desafio a descobrir e partilhar, veio-me parar às mãos na “Magazine Notícias” de domingo passado um projecto original. Falamos muito da importância de ler, de como os mais novos estão presos aos ecrãs e às imagens, do que fazer aos mais idosos ou doentes, e a iniciativa “Voluntários da Leitura” é uma proposta de ajuda a crianças que não gostam de ler, e à leitura em espaços educativos e de saúde. Uma hora por semana é o que é pedido a quem se inscreva em www.voluntariosdaleitura.org. Os frutos podem parecer insignificantes, mas essa é uma qualificação que não nos pertence, e quem o diz é a mãe da Rafaela, “uma rapariga que não queria saber das letras”: “Com este gosto que ela está a desenvolver pela leitura, está também a tornar-se uma criança muito mais curiosa. E isso é o que vai fazê-la ir mais longe na vida.”

Ah, Espírito Santo, se aprendêssemos contigo como Deus gosta de nos fazer ir mais longe na vida, ir mais longe no amor, ir mais longe com os outros, quantos frutos Teus não espalharíamos à nossa volta?!           

P. Vítor Gonçalves
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