Doutrina social |
Visita do Papa aos refugiados da Ilha de Lesbos
Entre o medo e o acolhimento
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Foi no passado 16 de Abril que o Papa, na visita aos refugiados da Ilha de Lesbos, falou do medo das populações perante os problemas ligados às fronteiras comunitárias. Mostrou compreensão, mas insistiu com toda a determinação no acolhimento.

 

Colossal crise

Face à complexa problemática em causa, como que se revê o filme já passado nas últimas duas décadas, quando a Europa foi obrigada a ir aprendendo a equilibrar-se no meio das dinâmicas provocadas pelos imigrantes que ali acorriam, a maior parte das vezes por razões económicas e menos como refugiados. Só que hoje a situação apresenta-se com uma gravidade tal que ninguém pode alhear-se dela, a quem o Papa Francisco, o Patriarca Bartolomeu e o Arcebispo Jerónimo II, se referiram em comunicado conjunto como uma “colossal crise humana”, “crise da humanidade”, “situação trágica” e que os levaram a apelar a “uma resposta corajosa da comunidade internacional que trate das pessoas e das causas subjacentes a esta tragédia”. Não há meias palavras nem discursos eloquentes encobrindo a realidade para ver o que vai acontecer; das suas palavras só se pode concluir que já basta do inadmissível; é preciso agir; é preciso colocar em primeiro lugar as pessoas.

 

Ajudar os que chegam e ajudar os que acolhem

Uma semana antes da visita do Papa, realizou-se na cidade de Fafe a segunda edição de “Terra Justa”, um Encontro Internacional de Causas e Valores, inteiramente dedicado aos refugiados, contando com figuras ligadas à sua causa, como o ex-Alto Comissário da ONU para os Refugiados António Guterres, ou o Fr. Missieh Zarai, eritreu que também foi refugiado e que hoje como padre trabalha com eles na Agência Habeshia. Foi um evento que, nas palavras de Fr. Fernando Ventura, “não quis colocar Fafe no centro do mundo, mas sim colocar o mundo no centro de Fafe”. Um louvável esforço para ultrapassar a mera oferta de “panem et circenses”, provocando análises e constatações como esta: a dedicação aos outros encontra habitualmente como obstáculo uma certa ideia de injustiça e sobretudo o medo que conduz ao fechamento e à rendição ao preconceito e ao estereótipo, a porta aberta para a xenofobia e para o racismo. Logo que a sociedade civil começou a organizar-se para o acolhimento, a Plataforma de Apoio aos Refugiados publicou a revista “Refugiados – queremos ser uma Europa que deixa morrer ou que salva?”, na qual de uma forma simples e clara se explica o fenómeno e se procura desfazer os medos e os mitos. Sem este trabalho prévio de exorcização do medo e de erradicação de preconceitos fracassará qualquer acolhimento.

 

O medo é mau conselheiro

Outra cena do tal filme é a referente à vinda dos migrantes para França nessa época e que parece agora repetir-se. O medo gerou inquietação à qual se contrapôs uma firme contestação por alguns setores da sociedade e das Igrejas cristãs. Ficou-me na mente a expressão do Bispo D. Joattan, Presidente da Comissão Episcopal para os Refugiados, que afirmava: “O medo é mau conselheiro e pode conduzir às piores ditaduras”. E adiantava dirigindo-se aos que chegavam: “Nós temos necessidade de vós para preparar, aqui em França e para além das nossas fronteiras, um futuro de paz e de fraternidade no respeito pela dignidade e pela liberdade de todas as pessoas”. Esta clareza de atitude foi retomada pelo Bispo Gaillot, o qual, na linha da doutrina da Igreja, repetia as palavras de João Paulo II numa Mensagem para o Dia Mundial dos Migrantes: “É dever do Estado oferecer aos imigrantes o que assegura aos outros cidadãos”. E aos cristãos recordava: “Os crentes são chamados de forma particular a colaborar nesta obra de elevado valor civil e espiritual”. Obviamente que tal não agradou a muitos e especialmente ao Ministro do Interior Pasqua que detestava ser contrariado e que sugeria aos Bispos que eles deveriam remeter-se às sacristias. Mas Gaillot não desistia e afirmava: “Os cristãos desempenham completamente o seu papel quando se preocupam com a sorte do estrangeiro”; e repetia as palavras de João Paulo II: “A Igreja é a casa e a família de todos, especialmente daqueles que sofrem ou estão curvados sob o fardo da vida”.

É o mesmo que acaba de repetir o Papa Francisco e os irmãos Bartolomeu e Jerónimo II, durante uma “viagem triste e que dá vontade de chorar”, mas durante a qual manifestaram por gestos simples que os refugiados não estão sozinhos e que não podem perder a esperança.

texto por P. Valentim Gonçalves, CJP-CIRP
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