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Arménia: um país onde a fé renasce das cinzas
Memórias do exílio
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A Arménia, terra que o Papa Francisco está a visitar, é bem o testemunho da aridez provocada pelo regime comunista durante décadas. Ainda hoje, 25 anos depois de ter conquistado a independência, após o colapso da União Soviética, a memória desses tempos de medo sobressaltam os que o viveram, os que aprenderam a rezar clandestinamente, quando as igrejas foram confiscadas pelo poder soviético.

 

O Padre Anton nasceu em Jerusalém mas só regressou a casa quando pisou pela primeira vez o solo da Arménia em 1991. Nunca lá tinha estado, mas, na verdade, nunca de lá tinha saído verdadeiramente. A Arménia, terra dos seus pais e avós, era como que a sua pátria espiritual. Nesses dias, no já longínquo ano de 1991, quando o país decidia ser independente, pondo fim a décadas de regime comunista após o colapso da União Soviética, havia uma sensação de estranheza no ar que o invadiu de imediato. Mas a primeira memória que ainda guarda desses tempos, foi a sensação de pertença: “assim que cheguei, senti que pertencia aqui”.

Os cristãos arménios transportam consigo a certeza de uma fé que ultrapassou massacres, tempos de clandestinidade. Os pais de Anton Totonjian sobreviveram ao genocídio de 1915, tendo fugido para Jerusalém, onde se conheceram. Depois, com o eclodir da guerra dos israelitas com os árabes, mudaram-se para a Jordânia e mais tarde haveriam ainda de migrar para a Austrália. No entanto, na verdade nunca deixaram o seu país. Estavam apenas distantes fisicamente, pois os seus corações continuaram sempre por lá. E esse sentimento passou de pais para filho. Quando pisou pela primeira vez o solo da Arménia, o Padre Anton estava na verdade a regressar à sua verdadeira pátria. Estava a regressar a casa.

 

Falta de compaixão

Nesses primeiros dias de 1991, Anton Totonjian sentiu depressa como o regime comunista tinha esvaziado aquelas pessoas, tinha-as até corrompido. “Conseguia-se perceber que havia um vazio. O comunismo retirou a humanidade das pessoas”, diz. “Havia uma enorme falta de generosidade, de compaixão.” Pior do que tudo, a corrupção estava instalada nos costumes, nos hábitos do dia-a-dia. Nos gestos e nos costumes. “Tinha-se de pagar para tudo.” Ainda hoje é assim. “Ainda agora temos que pagar por tudo. Quando se vai ao hospital existe um preço oficial, mas o médico pede um valor muito superior…” Para muitas pessoas, os tempos em que a Arménia pertenceu à União Soviética foram um verdadeiro exílio. Quase tudo o que era mesmo delas foi confiscado. A começar pelo mais importante, a liberdade. A igreja de Arevik, que o Padre Anton bem conhece agora, foi transformada então em armazém. Quando foi devolvida, estava em ruínas. Precisava de obras urgentes, a começar pelo telhado. Foi essa a primeira ajuda da Fundação AIS. O telhado da igreja. Mas havia muito por fazer. O mais difícil nem eram as obras de construção civil, mas sim fazer regressar as pessoas a Deus, devolver-lhes humanidade, sentimentos de compaixão. “O comunismo retirou a humanidade dos homens”, afirma de novo o Padre Anton. “E aconteceu o mesmo com a fé…”

 

Rezar às escondidas
Foram setenta anos de um tempo em que o regime soviético decretou a morte de Deus. Os jovens são hoje a grande aposta do Padre Anton. “O que testemunhamos hoje, com as pessoas a regressar à fé, aplica-se principalmente aos jovens. Os idosos que vêm à Igreja são mais raros. Eles receberam uma educação soviética… No entanto, estou convencido - afirma o Padre Anton – de que os jovens de hoje, quando eles próprios se tornarem pais, irão certamente educar os seus filhos de maneira diferente…”Ainda hoje são muitos os que se sobressaltam quando revivem na memória os tempos do regime da União Soviética. Mas, apesar do medo, da violência das autoridades, a fé cristã não foi totalmente extinta durante esses anos duros do comunismo. Mesmo clandestinamente, mesmo com as igrejas encerradas ao culto, havia quem ousasse rezar, arriscando a sua liberdade, talvez até a própria vida. Em Arevik, depois do encerramento da igreja, havia quem teimosamente entrasse no edifício, queimando velas, rezando. Às vezes, até se rezava em grupo. “Claro que não era permitido, mas ninguém se importava com isso”, afirma o Padre Anton, comentando as muitas histórias que lhe foram contadas. Mesmo que fosse apenas de fugida, percebia-se pelo cheiro das velas quando alguém tinha estado por lá a rezar. Por lá, pela Igreja que o regime tinha desclassificado para simples armazém.

Obras de misericórdia

Desde 1991 que o Padre Anton tenta recuperar esse tempo perdido, esses muitos anos em que a fé foi confiscada aos arménios. Esses anos tristes e negros em que os cristãos foram perseguidos, as igrejas fechadas, os templos dessacralizados. Porém, aos poucos, desde o colapso da União Soviética, está a recuperar-se a vitalidade da Igreja. A visita, por estes dias, do Papa Francisco à Arménia ajuda a compreender melhor a história sofrida deste povo. Para o Padre Anton, há ainda um enorme trabalho pela frente. “O que necessitamos na Arménia, mais do que dinheiro, mais do que qualquer outra coisa, é alterar a compaixão entre as pessoas.” Depois de décadas de aridez provocada pelo regime comunista, na Arménia há ainda muitas pessoas, famílias inteiras, que não descobriram a importância da oração, a força da fé, a certeza de uma vida entregue a Deus. Eles são também a prioridade do Padre Anton. E é para eles que este sacerdote arménio que nasceu em Jerusalém pede a nossa ajuda. Como? Rezando, por exemplo. A Fundação AIS lançou, há cerca de uma semana, uma campanha muito especial em resposta a um desafio do Papa Francisco. Nessa campanha, “seja a misericórdia de Deus” (www.aismisericordia.org), somos todos convidados a fazer algo em favor dos mais necessitados, dos mais carentes, dos que estão tristes ou sós. Dos que estão também afastados do Céu. Rezar pelos paroquianos do Padre Anton é também uma obra de misericórdia, pois é levar a todos e a cada um deles a carícia de Deus com as nossas orações.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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