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ESPERE - Escolas de Perdão e Reconciliação
Investir na “cultura do perdão”
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Proporcionar “uma experiência de perdão, a partir da vida de cada um” é o objetivo das ESPERE - Escolas de Perdão e Reconciliação. Em pleno Ano Jubilar da Misericórdia, o Jornal VOZ DA VERDADE dá a conhecer um projeto que nasceu na Colômbia, está presente em Portugal e pretende contribuir “para que um mundo de paz aconteça”.

 

Foi no Bairro do Zambujal, na Amadora – um bairro com muitas “tensões de relacionamento entre as várias comunidades” –, que o padre Albino Brás, missionário da Consolata, sentiu necessidade de pôr em prática o projeto ESPERE - Escolas de Perdão e Reconciliação. “Conheci as escolas ESPERE no final de 2003, no Brasil, onde estive como missionário durante oito anos, numa favela do Rio de Janeiro. O projeto tinha acabado de nascer na Colômbia e o fundador, padre Leonel Narvaez Gomez, também missionário da Consolata, deu no Brasil uma conferência sobre o tema da violência, onde falou das Escolas de Perdão e Reconciliação. Foi então que eu fiz o curso e, mais tarde, apliquei-o na paróquia onde estava, em São Cristóvão”, conta ao Jornal VOZ DA VERDADE este sacerdote de 50 anos, que chegou em 2012 a este bairro periférico de Lisboa e é o coordenador das ESPERE em Portugal.

 

Cultura do perdão

Apesar deste projeto ter ‘escola’ no nome não existe uma sala de aula para lecionar a ‘matéria’, até porque não se tratam apenas de exercícios teóricos. “São bastante práticos e presenciais. Procuram proporcionar uma experiência de perdão, a partir da vida de cada um”, revela. As ESPERE são constituídas por 11 módulos que podem ser aplicados de duas formas: o primeiro, numa ‘onda curta’ – um curso intensivo de dois fins-de-semana (não consecutivos) que pode ir de 40 a 70 horas, dependendo do público-alvo; o segundo, numa ‘onda larga’ – uma vez por semana, entre 3 a 4 horas. Depois, em cada módulo, existem também várias etapas. “Esta é uma metodologia que implica o pensar, o agir, o sentir. Todos os sentidos do ser humano”, conta o padre Albino, dando a conhecer a origem deste projeto: “Tudo surgiu a partir de uma experiência que o padre Leonel Narvaez teve quando fez uma pós-graduação na Universidade de Harvard, em Massachusetts, nos Estados Unidos da América. Ficou surpreendido porque havia vários investigadores que se reuniam semanalmente para debater sobre um tema que pouco habitual: o perdão. Para muita gente, o perdão é visto como um exclusivo da realidade cristã, dos sacramentos. Ele começou a participar neste grupo e, a partir da experiência que trazia da Colômbia onde trabalhou com os guerrilheiros das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), pediu aos participantes para o ajudarem a construir uma metodologia teórica e prática para ir ao encontro destas violências do ser humano. Foi a partir daí que se construiu esta metodologia”.

Trata-se de “criar uma cultura do perdão”, elucida o padre Albino Brás. “As ESPERE, ao investirem na criação de uma cultura e de uma justiça alimentada pelo perdão, estão menos interessadas na punição e na retaliação e mais na recuperação do culpado. O que acaba por ser um investimento numa cultura e numa justiça restaurativa, em detrimento de uma justiça meramente punitiva, do castigo pelo castigo, muito presente nas sociedades atuais”, refere. Por isso, “as ESPERE surgem na perspetiva de não apenas sonhar um mundo de paz mas trabalhar para que o mundo de paz aconteça”, esclarece.

 

Romper o ciclo

Apesar de esta metodologia ter nascido num contexto “limite” de violência, na Colômbia, o padre Albino Brás defende que este curso é também necessário para um país como Portugal que, apesar de não ter guerrilhas, tem “outras formas de violência”. “A violência familiar, no namoro, o bullying nas escolas, o assédio moral no mundo laboral - que às vezes até provoca suicídios. Temos também a violência da indiferença ou do abandono dos idosos”, aponta. “São formas de violência que são alimentadas pelos rancores e ressentimentos que as pessoas guardam. O caminho da convivência, da fraternidade e da comunhão é um caminho que todos devíamos trilhar, porque quando perdoamos estamos a fazer o bem a nós, antes de o fazer ao outro”, afirma este sacerdote.

Para o padre Albino Brás, os benefícios do perdão não se guardam apenas no interior de cada pessoa mas repercutem-se diretamente no estado físico de cada um. “O Papa Francisco diz que ‘o perdão é a fonte de alegria, de saúde. Quem não perdoa, adoece física e mentalmente’. Hoje sabe-se que as pessoas que não perdoam têm maior tendência para ficarem doentes. Quando alimentamos rancores e ressentimentos, estamos a passar uma informação ao nosso organismo de que ele deve fazer memória disto. É um ciclo negativo que é vicioso e é de violência. Quando perdoamos, rompemos esse ciclo”, explica.

 

Mediação

As Escolas de Perdão e Reconciliação estão abertas a qualquer um, com ou sem crença. “As ESPERE não são confessionais. O perdão é trabalhado como elemento da espiritualidade humana, muito mais do que apenas espiritualidade cristã”, refere o padre Albino, sublinhando que “a pessoa cresce e torna-se mais madura quando perdoa. É uma expressão da sabedoria, da espiritualidade”.

Deixar de “ferver em pouca água” foi algo que o padre Albino refere como uma das mudanças operadas em si pelas ESPERE, ainda no Brasil, quando as conheceu. No entanto, este sacerdote missionário destaca duas outras histórias onde o perdão venceu. “No ano passado, na Colômbia, durante o encontro internacional de coordenadores das ESPERE, estive numa mesa redonda para preparar o acordo de paz entre os guerrilheiros das FARC e o Governo colombiano. Houve muitos guerrilheiros que foram reintegrados na sociedade, através da mediação das Escolas de Perdão e Reconciliação”, aponta, recordando o episódio que testemunhou nesse encontro: “Ali deram testemunho uma senhora, vítima das FARC, a quem mataram o marido, e um ex-guerrilheiro das FARC. Os dois estavam à frente de um centro de reconciliação, precisamente para ajudar as pessoas a reintegrarem-se na sociedade. Pensei: ‘Como é possível colocar a vítima e o ofensor a trabalharem juntos? Isto é construir futuro!’ Depois a senhora levanta-se e abraça, de forma muito convincente, o ex-guerrilheiro e diz-lhe: ‘Não te quero mal’”.

Outro dos exemplos que marcou o padre Albino Brás deu-se após os atentados de Paris, em novembro do ano passado. “Um jornalista, a quem os terroristas mataram a mulher, ficou sozinho com o filho de poucos meses. Numa carta aberta que dirigiu aos terroristas, escreveu: ‘Não terão o meu ódio’. Isso é o contrário do que dizemos diariamente quando nos chateamos com alguém. Isto é interessante porque é precisamente o que trabalhamos nas ESPERE: ajudar as pessoas a não se deixarem levar pela lógica da violência, do ódio, da retaliação. Quando se entra neste ciclo é difícil sair. A única forma de o conseguir é usar esta ‘tesoura’ que se chama perdão”, aponta.

  

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Saiba mais sobre as ESPERE

Em Portugal, as ESPERE já realizaram quatro cursos: três em Lisboa e um no Porto. O próximo curso vai acontecer no mês de outubro, em Lisboa, na modalidade ‘intensivo’, nos dias 14 (19h-21h30), 15 e 16 (9h-18h), 29 e 30, em local a definir. “Pretendemos fazer mais cursos. Como funcionamos em regime de voluntariado, temos um núcleo de Lisboa e outro no Porto, ainda um pouco reduzidos, mas procuramos dar resposta às solicitações que nos chegam. Já tivemos pedidos dos Açores e até de Espanha! Há uma grande vontade de aplicar os cursos, em especial em ambientes carcerários”, assegura o padre Albino Brás.


Facebook: www.facebook.com/PerdaoeReconciliacaoESPERE

Fundación para la Reconciliación: www.fundacionparalareconciliacion.org

 

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Padre Albino Brás, 50 anos

Missionário da Consolata

Natural da aldeia de Loureira, na freguesia de Pussos, concelho de Alvaiázere, distrito de Leiria, Diocese de Coimbra, o padre Albino foi ordenado sacerdote há 20 anos. Foi depois em missão para o Brasil, onde trabalhou durante oito anos, em favelas da zona norte do Rio de Janeiro. Regressado a Portugal, viveu oito anos em Fátima, onde trabalhou na ação missionária e pastoral juvenil da congregação a que pertence. Em 2012, foi enviado para viver no Bairro do Zambujal, na Amadora, com o objetivo de, ali, iniciar uma comunidade. É atualmente o coordenador das ESPERE – Escolas de Perdão e Reconciliação, em Portugal.

  

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“É um caminho longo, lento e difícil, mas nós já estamos a andar. É urgente tornar o perdão viral. Perdoar é sentir no coração a imensidão do mar.”

Isabel Pacheco

 

“Se aprofundamos o perdão, percebemos que se ele tem potencial pode mudar o mundo, pode também mudar o nosso pequeno mundo, as nossas pequenas guerras e rancores.”

Andreia Carvalho

 

“O curso de perdão e reconciliação, mais do que transmitir conceitos ou teorias, foi-nos mostrando caminhos para irmos vivendo estas palavras a partir de dentro das nossas vidas.”

Marta Rebelo

 

“Ao contrário do que sempre julguei, o perdão de que aqui se trata tem de passar por ‘dentro’ de nós, envolve-nos ativamente como seres humanos, na nossa própria vida e na vida do outro que me ofendeu, ou a quem ofendi.”

Ana Sotto-Mayor Pinto

texto por Filipe Teixeira; fotos por ESPERE e Filipe Teixeira
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