Lisboa |
400 anos da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade
Nunca desviar o olhar dos que clamam por proximidade
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É uma fraternidade que celebrou 400 anos mas que existe, provavelmente, desde o tempo de D. Sancho II, no século XIII. A Ordem Terceira de São Francisco da Cidade já teve mais de 12500 irmãos, hoje tem cerca de 50, e tem no Hospital da Ordem Terceira, na Baixa de Lisboa, a concretização maior da sua ação apostólica.

 

“As fraternidades franciscanas em Portugal são fraternidades de leigos que resolveram juntar-se para ter uma caminhada orientada pelos princípios de São Francisco de Assis e têm uma preocupação, por um lado, de fortalecimento espiritual das pessoas que a compõem, mas também, como somos franciscanos e temos uma exigência para com terceiros, temos uma ação apostólica”. Luís Alvito é, desde há dois anos, o ministro da fraternidade da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade – o mesmo é dizer que dirige o conselho da fraternidade –, à qual pertence o Hospital da Ordem Terceira, na Baixa de Lisboa. Este responsável salienta, ao Jornal VOZ DA VERDADE, que “na maioria das fraternidades franciscanas os irmãos expressam a ação apostólica nas suas paróquias”. “Algumas, poucas, fraternidades optaram por ter um trabalho diferente, e portanto têm obras sociais próprias e é através delas que tentam exercer essa proximidade aos outros. É o caso da fraternidade de São Francisco da Cidade, que tem duas obras sociais: o Hospital da Ordem Terceira e a Casa de São Francisco, de apoio a pessoas idosas, próximo daquilo a que podemos designar como lar, que ocupa dois meios andares – portanto, equivalente a um andar – do hospital”.

Durante 12 anos, Luís Alvito trabalhou na Renascença, nas antigas instalações do Chiado, bem perto do Hospital da Ordem Terceira, e foi muitas vezes desafiado por dois colegas de curso a integrar a fraternidade à qual pertenciam. “Eles iam-me convidando e acabei por entrar na fraternidade da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade há quatro anos. De facto, foi para mim uma surpresa ser ministro da fraternidade tão cedo”, frisa. São cerca 50 os irmãos que integram esta fraternidade franciscana. “Muitos destes irmãos são pessoas já com alguma idade e estão na fraternidade pelo principal motivo dela: juntarem-se na caminhada, com preocupações espirituais”, aponta, sublinhando “as reuniões mensais da fraternidade, de oração, Missa e debate de temas, que visam o fortalecimento espiritual dos seus membros”.

 

Proximidade

Situado no número 7 da Rua Serpa Pinto, no Chiado, em Lisboa, o Hospital da Ordem Terceira é, “hoje em dia, a obra social por excelência” da fraternidade da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade e tem “somente menos algumas décadas, poucas, do que a fraternidade”. É um hospital que, atualmente, “não tem serviço de Urgências” possuindo outro tipo de especialidades. “Designadamente, é um hospital de referência para a Oftalmologia, temos os melhores médicos da cidade de Lisboa e temos os melhores equipamentos do país nesta área, que está certificada em qualidade”, garante Luís Alvito.

O Hospital da Ordem Terceira, com 57 quartos, tem ainda “todas as especialidades, das quais se destacam a Ortopedia, a Gastrenterologia e a Otorrinolaringologia”. “Temos cinco blocos operatórios a apoiar toda a atividade que é feita pelas especialidades”, descreve. “Temos consultas, exames de diagnóstico, análises clínicas, internamentos. Temos um hospital completo, de média dimensão, onde trabalham 150 médicos e mais de 200 colaboradores, que pretende servir as pessoas. Nós queremos servir todos e, nesse sentido, temos contratos com todas as seguradoras, mas também com a ADSE, o Sistema Nacional de Saúde, a PSP, a GNR, as Forças Armadas, entre outros. Somos um hospital que pretende que toda a pessoa possa servir-se dos seus serviços”, assegura o ministro da fraternidade a que pertence o Hospital da Ordem Terceira. Luís Alvito acredita que este hospital de matriz cristã se distingue “pela proximidade”. “Aquilo que nos faz ser um hospital diferente é a proximidade que temos quer com o doente, quer com o próprio médico”, garante.

 

Uma capelania central

O padre José da Costa Santos, de 89 anos, é o capelão do Hospital da Ordem Terceira. Natural de Arrabal, terra situada entre Leiria e Fátima, foi ordenado em 1952 e chegou a esta unidade de saúde da cidade de Lisboa em 1984. “A capelania do Hospital da Ordem Terceira está situada num ponto central do hospital – tem dois andares em cima e outros dois em baixo –, e foi para este espaço na última metade do século XIX. Não sabemos onde estava situada a primitiva capela do hospital, porque o terramoto de 1755 destruiu tudo”, explica ao Jornal VOZ DA VERDADE. O padre Costa Santos, que durante muitos anos foi secretário da Província Franciscana, salienta que, nos dias de hoje, a capelania deste hospital “tem como única função a assistência espiritual e o acompanhamento dos doentes”, observando ainda que a capelania “já teve mais voluntários”. “Nos dias de hoje, quase todas as pessoas que cá vêm é para a Cirurgia e Ambulatório, mas já cá tivemos um serviço de Medicina, com muitos doentes, e então a capelania era mais trabalhosa”, refere. “Na Cirurgia, os médicos operam num dia e no dia seguinte mandam o doente embora. Mesmo estes sistemas de saúde, hoje, dão pouco espaço para o doente estar no hospital”, acrescenta. Atualmente, a capela tem Missa diária, “onde participam os doentes e familiares das pessoas internadas. Ao Domingo, costuma vir mais gente de fora para a Missa”, conta.

Para o capelão do Hospital da Ordem Terceira, “o doente que entra num hospital vem sempre em crise”. Em seu entender, o acolhimento deve, por isso, ser marcante nos hospitais. “As pessoas necessitam sentir que são bem acolhidas. Se é acolhida com um sorriso, quer pelo porteiro, quer por qualquer elemento da receção, quer por uma enfermeira – e digo isto por experiência, porque já aqui estive internado várias vezes – nota-se logo uma grande diferença”, frisa o padre José da Costa Santos.

O capelão lembra “o carisma de São Francisco de Assis”, para garantir que “o irmão doente é o irmão preferido da fraternidade”. “Foi este carisma que deu origem ao hospital. Se uma mãe ama com tanto amor o seu filho carnal, com quanto mais amor não deve amar cada um o seu irmão espiritual. Este carisma é marcante no início desta obra”.

 

Impulsos

Sobre a história da fraternidade em Portugal, este sacerdote conta que “no tempo de São Francisco de Assis, em 1216, rumou a Portugal um grupo de irmãos, franciscanos, que se dividiram em grupos”. “Os que chegaram a Alenquer, a caminho de Lisboa, foram parados por D. Sancho II que lhes pediu para ali fazerem primeiro uma fundação. Só no ano seguinte, em 1217, os franciscanos chegaram a Lisboa, para fundar um ermitério”. Ao tempo, “os franciscanos não se fixavam nas cidades, mas nos arrabaldes das cidades, para terem um pouco de silêncio e meditação”. Segundo o padre Costa Santos, foi então cedido um vasto terreno, chamado Monte Fragoso, que era o nome que tinha a colina onde hoje está o Chiado, e foi construída a Ermida de Nossa Senhora dos Mártires. “O ermitério teve um tal prestígio, assim como os franciscanos que para cá vieram, pela sua maneira de ser, a sua maneira de pregar, a sua simplicidade, que criaram um movimento religioso muito grande tendo sido criado um grande convento. O rei D. Sancho II professou então na Ordem Terceira Franciscana”, refere.

Em 1606, no início do século XVII, “depois de um certo abrandamento de vida espiritual”, a Ordem Franciscana “tratou de revigorar o ramo laical dos franciscanos”, enviando para Lisboa, em 1615, um frade espanhol, vindo de Maiorca. “Data daqui a data oficial da fundação da Ordem Terceira Franciscana”, salienta. A Ordem Terceira de S. Francisco da Cidade foi então fundada no início do século XVII (1615), tendo o Rei D. João IV ingressado na mesma durante o seu reinado. Em 1672, frei Domingos da Cruz decidiu fundar três Enfermarias, que, mais tarde, deram origem ao Hospital da Ordem Terceira.

Apontando que “a fraternidade chegou a ter mais de 12500 membros”, o padre Costa Santos considera que os tempos atuais são propícios a um novo impulso da fraternidade e explica porquê: “Desejava que a fraternidade tivesse a projeção que teve no tempo passado e que as vicissitudes do tempo atual dessem ânimo, como deram no passado, com um incêndio e um terramoto que destruíram tudo, uma revolução de 1834 que espoliou tudo, a República que pôs os ‘frades a andar’, apesar de aqui se terem mantido, além das dificuldades após o 25 de abril”.

 

Olhar para os outros

Foi com a celebração da Eucaristia na Basílica dos Mártires, em Lisboa, presidida pelo Bispo Auxiliar D. Nuno Brás, que terminaram as comemorações dos 400 anos desta fraternidade. “Ao encerrarmos este ano de celebrações do IV centenário da instituição da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Cidade não podemos deixar de olhar igualmente o que tem sido também a sua missão, em tantos campos da vida cristã, assumindo com decisão o papel de Bom Samaritano nesta nossa cidade de Lisboa, seguindo os passos e o exemplo de São Francisco de Assis, no cuidado pelos pobres e, em particular, no cuidado hospitalar pelos doentes”, começou por destacar o prelado, na sua homilia.

Lembrando que o “encontro com doentes marginalizados e esquecidos por todos fez de Francisco de Assis um homem novo”, D. Nuno Brás sublinhou a atitude que permite a conversão: “É este olhar para os outros, este usar de misericórdia, este tornarmo-nos próximos que nos permite a conversão – que nos permite sair do mundo para nos procurarmos e encontrarmos mais semelhantes ao próprio Jesus, o Bom Samaritano da humanidade”.

Nesta celebração na tarde do passado dia 9 de julho, na Baixa de Lisboa, onde foi oferecido um terço do Ano da Misericórdia aos membros com mais anos de pertença à fraternidade, o Bispo Auxiliar de Lisboa convidou ainda a “nunca” desviar o “olhar de todos aqueles que, ao nosso lado, clamam pela nossa proximidade”.

  

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Uma porta histórica

O incêndio de 1741 e o terramoto de 1755 reduziram o Convento de São Francisco e o Hospital da Ordem Terceira à ruina. A reconstrução do convento começou em 1757 e durou até 1768. O hospital demorou um pouco mais de anos, tendo sido concluído em 1779. A porta principal do edifício foi praticamente a única coisa que restou do terramoto, tendo sido colocado, aquando das obras, uma inscrição em latim numa pedra, por cima da porta:

Esta casa, que o zelo renova,

fundamenta-se no amor!

Tu dirás que ela é um céu

Em que os Serafins costumam habitar

Ano do Senhor de 1779

  

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‘A Fraternidade da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade de Lisboa e suas obras sociais’

O livro ‘A Fraternidade da Ordem Terceira de São Francisco da Cidade de Lisboa e suas obras sociais’, da autoria conjunta dos padres franciscanos Henrique Pinto Rema, investigador e membro da Academia Portuguesa da História, e José da Costa Santos, foi apresentado em Lisboa, no passado dia 7 de julho. “Pedi ao meu colega franciscano Henrique Pinto Rema para fazer a investigação de toda a documentação antiga que nós temos. Eu ajudei a fazer o livro no estilo memorial, comemorativo deste acontecimento dos 400 anos, colocando alguns elementos que me pareceram importantes e que não estão registados nas atas”, começa por explicar o padre Costa Santos. Esta obra editada pela Lucerna, uma chancela da Principia Editora, pode ajudar ao conhecimento da história do Hospital da Ordem Terceira, “que pouca gente conhece”. “Mesmo os que trabalham cá e até alguns elementos da fraternidade conhecem pouco a história deste hospital”, refere este autor.

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por Filipe Teixeira
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