Lisboa |
Irmãzinhas de Jesus celebram centenário da morte do beato Carlos de Foucauld
Viver aqui Nazaré
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Viver Nazaré num bairro social de Lisboa. É esta a missão das Irmãzinhas de Jesus, que estão presentes há seis anos no bairro da Quinta da Fonte, em Loures, e celebram no dia 1 de dezembro o primeiro centenário da morte do beato Carlos de Foucauld.

 

Não vestem hábito – sendo identificadas apenas por uma pequena cruz de madeira ao peito –, mas no bairro da Quinta da Fonte, na Apelação, Loures, todos as conhecem. São as Irmãzinhas de Jesus, presentes neste bairro da periferia de Lisboa desde 2010. Moram no rés-do-chão do número 17 da Rua Ary dos Santos, a avenida de entrada no bairro, e procuram viver o que Jesus Cristo viveu há dois mil anos, na Nazaré da Galileia. “A nossa missão no bairro da Quinta da Fonte é seguir aquilo que o irmão Carlos viveu e que foi o que Jesus viveu. No fundo, a nossa missão é viver aqui Nazaré: olharmos para Jesus como Ele viveu trinta anos em Nazaré, este mistério da Encarnação que nos transcende muitíssimo e que nos fala tanto da bondade, da ternura, da proximidade de Deus com a humanidade, sobretudo com os mais pobres”, refere a irmã Maria do Carmo de Jesus, uma das três Irmãzinhas de Jesus que vive neste bairro social às portas de Lisboa. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, esta religiosa lembra que “Jesus é imagem de Deus”. “Os trinta anos que Ele viveu tiveram uma importância extraordinária para a salvação do mundo. Mas quando se fala da salvação, fala-se da paixão, da morte e da ressurreição, evidentemente, mas fala-se muito pouco desses trinta anos… mas a paixão, morte e ressurreição de Cristo foi o culminar daquilo que Ele viveu em Nazaré e dos seus ensinamentos durante três anos”, aponta.

A chegada desta congregação religiosa feminina à Quinta da Fonte, há seis anos atrás, aconteceu no contexto do desmantelamento do bairro da Quinta da Serra, no Prior Velho, onde as Irmãzinhas de Jesus tinham uma fraternidade, por altura da Expo 98. “O bairro estava muito próximo da autoestrada, o que era uma vergonha, e começaram a fazer o realojamento da população. Quando começaram a realojar, as pessoas da câmara queriam que as irmãzinhas que lá estavam fossem das primeiras realojadas, mas elas recusaram e disseram que queriam sair só no fim, com os últimos”, recorda a irmã Maria do Carmo, destacando que as Irmãzinhas de Jesus foram depois para o bairro da Quinta da Fonte por terem lá “vários vizinhos, muitos conhecidos e muitos amigos”.

 

Apostolado da proximidade

Fundada pela irmã Madalena de Jesus, em 1939, na Argélia, a Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus nasceu a partir do exemplo de vida do beato Carlos de Foucauld (1858-1916), um sacerdote francês que “se apaixonou por Jesus de Nazaré” e foi beatificado a 13 de novembro de 2005, pelo Papa Bento XVI. “O irmão Carlos dizia: ‘A minha missão é dar a conhecer Jesus, não pela palavra mas pela minha vida’. E vida como? Vida como a das pessoas com quem convivemos. A nossa é uma opção de vida. Mesmo sendo diferente, temos a mesma condição de vida”, aponta a irmã Maria do Carmo, referindo que as religiosas estão reformadas e vivem das suas pensões: “Antes, tínhamos o mesmo tipo de trabalho dos residentes, nas fábricas, no campo ou como mulheres-a-dias, tal como as nossas vizinhas”.

A missão das Irmãzinha de Jesus na Quinta da Fonte – um bairro constituído sobretudo por imigrantes africanos, de diferentes países de antigas colónias, e por ciganos – procura ser de proximidade, junto das pessoas.“O irmão Carlos dizia: ‘O meu apostolado é o da bondade’. É o apostolado da proximidade, direi eu, agora. É vivermos um respeito muito grande pelos nossos vizinhos, é reconhecer o rosto de Jesus em cada um deles. E depois é estarmos disponíveis para ajudarmos aqueles que mais precisam”, garante esta religiosa, dando exemplos concretos: “Fazemos visitas aos que estão doentes, vamos aos hospitais acompanhar as pessoas do bairro que estão internadas, fazemos trabalho voluntário com os sem-abrigo, através da Comunidade Vida e Paz, e somos também voluntárias num lar de idosos perto do bairro, na Apelação, a Casa de Santa Tecla”.

 

Relações de amizade

Além desta fraternidade na Apelação, as Irmãzinhas de Jesus têm ainda, no Patriarcado de Lisboa, uma outra casa também com três religiosas: é em Chelas, onde estão presentes as irmãs Aida Maria, portuguesa, Viviana Maria, italiana, e Madelene Sofie, francesa de origem polaca. Em Portugal, a congregação tem ainda uma terceira casa, em Fátima, com cinco religiosas.

O bairro da Quinta da Fonte é considerado um dos bairros sociais mais problemáticos e perigosos de Lisboa, em especial após o tiroteio entre membros das comunidades cigana e africana, em 2008, que fez vários feridos. “O bairro é uma periferia mais periférica”, refere a irmã Maria do Carmo, assegurando que as religiosas mantêm “uma relação muito grande com todo o bairro”. “Quer com vizinhos, quer com as diferentes associações que aqui estão presentes, como a AMUA, Associação de Moradores Unidos da Apelação, o gabinete da Pastoral Diocesana dos Ciganos, o Ibisco – Teatro Inter Bairros para a Inclusão e Cultura do Otimismo, ou a Associação Recreativa Apelaçonense, dirigida ao desporto. Fazemos ainda parte de um encontro comunitário – que ultimamente se tem realizado bastantes vezes –, onde participam representantes das diferentes escolas e creches, da câmara, da união de freguesias. Há pessoas que se dedicam a este bairro de uma maneira extraordinária! Há um horizonte bastante largo de comunicação e de relação com as pessoas do bairro. Uma relação de amizade, de respeito”, salienta a religiosa.

 

Testemunhas diárias do bem

As Irmãzinhas de Jesus, presentes neste bairro social, colaboram também com a paróquia de Nossa Senhora da Encarnação da Apelação. “Eu gosto muito de cantar e faço parte do grupo coral da paróquia e a irmã Mercè é leitora e vai levar a comunhão, não na igreja mas a pessoas que estão doentes. Estamos sempre disponíveis para a paróquia e para o pároco, o padre Alexandre, dos Missionários Combonianos”, conta esta Irmãzinha de Jesus, realçando a caminhada sinodal feita pelas pessoas do bairro: “Os encontros do Sínodo já terminaram, mas as pessoas querem continuar”.

Quando o bairro da Quinta da Fonte é notícia pelos piores motivos, as Irmãzinhas de Jesus procuram “colaborar justamente no encontro comunitário”. “Onde está o povo, estamos nós. Estamos sempre nas festas, nas alegrias, mas também nos momentos difíceis, como as mortes. Sobretudo com os africanos, eles têm a sua cultura própria, e quando morre alguém fazem um altar e, durante vários dias, rezam o terço. Por vezes chamam-nos para ir, outras vezes somos nós que aparecemos. As pessoas não sabem todo o bem que aqui acontece. As pessoas só sabem os tiros que houve e as prisões, mas nós somos testemunhas do bem que aqui acontece diariamente. Há no bairro da Quinta da Fonte muita bondade, muitas qualidades das pessoas”, asseguram as Irmãzinhas de Jesus.

 

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Irmãzinhas de Jesus da Apelação em testemunho

 

“Deus agarrou-me de surpresa! Rapidamente percebi que queria dar-me a Ele numa família religiosa que me deixasse muito tempo para ficar com a pessoa de Jesus e não me afastasse daqueles com os quais eu tinha aprendido tanto: o mundo dos trabalhadores. Após algumas pesquisas, seduziu-me o carisma das Irmãzinhas de Jesus (do Padre de Foucauld). Acabava de fazer 21 anos quando me aventurei neste caminho, seguindo Jesus de Nazaré, Modelo Único, descobrindo cada vez mais a sua Presença nos mais pequenos dos seus irmãos.”

Irmãzinha Mónica de Jesus, francesa

 

“Esta é a minha vida contemplativa, ou seja, o transbordar da intimidade com Jesus que tem a sua fonte na Eucaristia, na oração pessoal e comunitária, na adoração diária do Santíssimo exposto na nossa capela, a leitura e meditação da Palavra... É o que me ajuda a aprofundar e a viver melhor o nosso Carisma, acreditando na fecundidade da minha vida, mesmo com as minhas fraquezas e fragilidades.”

Irmãzinha Maria do Carmo, portuguesa

 

“Vivo em comunidade com duas irmãzinhas: uma portuguesa e outra francesa, num andar alugado à Câmara e vivemos das nossas reformas pelo trabalho realizado no passado. Somos mulheres felizes! Na habitação temos uma capela onde adoramos o Senhor e rezamos pelos nossos vizinhos. Estamos abertas ao mundo sem perder a esperança e rezando por um mundo melhor, mais humano e mais solidário. E, com os nossos vizinhos, lutamos por uma vida mais digna nesta sociedade tão difícil e na qual os jovens não veem claro o seu futuro, os operários perderam os seus direitos e os pobres são marginalizados sem piedade. Não, a esperança ninguém no-la pode tirar: e sabemos em Quem a pusemos!”

Irmãzinha Mercè de Jesùs, espanhola

 

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Beato Carlos de Foucauld: o “irmão universal”

Carlos de Foucauld nasceu a 15 de setembro de 1858, em Estrasburgo. Órfão de pai e mãe teve uma adolescência difícil e acaba por perder a fé aos 16 anos. Oficial aos 22 anos, é enviado para a Argélia. De regresso a França, converte-se aos 28 anos. Uma peregrinação à Terra Santa revela-lhe o rosto de Jesus de Nazaré que o fascina. Vive sete anos como monge num mosteiro muito pobre da Síria e três anos como eremita em Nazaré. Em 1901 é ordenado sacerdote e parte para o Saara, tornando-se próximo e irmão dos nómadas do deserto. Permanecendo fiel à sua amizade com o povo Tuaregue, é assassinado no dia 1 de dezembro de 1916, morrendo aquele que se dizia o “irmão universal”.

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por Filipe Teixeira
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