Na Tua Palavra |
D. Nuno Brás
Anorexia do humano?
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A anorexia é uma doença grave: uma pessoa, não gostando da sua imagem e do que vê quando se olha ao espelho, ganha um receio constante e contínuo que a leva a ingerir o mínimo de alimentação. Julgando ser essa a solução para o seu problema, o anoréxico vai perdendo cada vez mais peso, impondo-se severas restrições alimentares. As pessoas olham para si próprias e não gostam de si; acham-se deselegantes. Ingerem poucos alimentos e não raras vezes causam vómitos a si mesmas, para que os poucos alimentos que comem não tenham efeito. É uma das doenças em moda neste nosso mundo contemporâneo, tão afetado pela estética e pela aparência, e onde ter um aspecto fraco e frágil é admirado.

Em última análise, sem alimentação séria, o doente pode mesmo morrer. O problema diz respeito a não poucas pessoas, e está presente em vários noticiários televisivos que o denunciam, até porque afecta com frequência modelos famosos do mundo da moda.

Contudo, a interrogação que aqui quero deixar é se este modo de pensar e de ser (o emagrecimento doentio, não devido a uma qualquer doença física mas psicológica) não estará apenas a afectar aqueles rapazes e raparigas, mais ou menos adolescentes, que não gostam da sua imagem, mas toda a nossa cultura ocidental. Ou seja: não estaremos nós a detestar tudo o que é humano, e a infligir a nós mesmos uma forçada e doentia “dieta de humanidade”?

Que é o aborto senão um “emagrecimento em humanidade”? Que é a eutanásia senão um “emagrecimento em humanidade”? Que é a legalização das “barrigas de aluguer” senão um “emagrecimento em humanidade”? Que é a liberalização do divórcio senão um “emagrecimento em humanidade”? Que são as chamadas “questões fracturantes” senão um “emagrecimento em humanidade”? Que é a guerra e o desrespeito pelos direitos humanos senão um “emagrecimento em humanidade”?

Até há pouco, este “emagrecimento em humanidade” marcava apenas alguns homens ou mulheres “emagreciam em humanidade”, dávamo-nos conta disso, procurávamos ajudá-los a resolver o problema, por muito difícil que fosse. A questão é que a “anorexia em humanidade” parece ter-se apoderado do nosso modo de ser. Quase não damos por ela. Mais: tornou-se o modo habitual de viver. Magros, esqueléticos em humanidade – este é o nosso mundo, pelo menos o ocidental. Habituámo-nos a viver desse modo, e corremos o risco de emagrecer tanto que não nos encontramos.

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