Lisboa |
O quarto na Estrela onde Jacinta ficou antes do internamento na Estefânia
O lugar onde Nossa Senhora se revelou como Mãe
<<
1/
>>
Imagem

Foi num pequeno quarto, numa casa na Rua da Estrela, em Lisboa, que Jacinta ficou 12 dias antes do internamento no Hospital de Dona Estefânia. “É o lugar onde Nossa Senhora se revelou como Mãe”, salienta a irmã Rita Maria de Assis, Clarissa, que diariamente recebe as pessoas que vão rezar aos espaços onde a pastorinha de Fátima esteve e Nossa Senhora (também) apareceu.

 

“Este foi um lugar onde Jacinta esteve muito frágil, muito debilitada e muito sozinha. Mas foi um lugar onde Nossa Senhora se revelou como Mãe, junto dela, acompanhando-a como uma mãe que acompanha e cuida. Por vezes, temos ideia de Nossa Senhora como alguém distante, que está lá no Céu, mas esta Senhora do Céu é também Senhora da terra, porque aqui, neste lugar, e em Fátima, os pastorinhos perceberam Nossa Senhora como uma Mãe, uma Mãe que os acolhe e os ama”, refere ao Jornal VOZ DA VERDADE a irmã Rita Maria de Assis. Fica situado no número 17 da Rua da Estrela, em Lisboa, o quarto onde Jacinta ficou 12 dias, antes do internamento hospitalar. A casa, o Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, pertence às Irmãs Clarissas e está aberta para acolher quem queira visitar os espaços por onde Jacinta andou e recebeu a visita de Nossa Senhora. “Sabemos que Nossa Senhora apareceu várias vezes a Jacinta aqui, no quarto. A própria Jacinta contou à madre Maria da Purificação Godinho, fundadora da casa, estas aparições”, salienta a religiosa. Para Jacinta, “era a coisa mais natural e mais óbvia Nossa Senhora aparecer em Lisboa”, frisa a irmã Rita. “Nossa Senhora promete em Fátima que vai levá-la para o Céu, mas que irá acompanhá-la até esse dia. Nossa Senhora disse em Fátima que Jacinta ia passar por dois hospitais e que iria morrer sozinha no segundo hospital. Não lhe disse que era em Lisboa, mas Jacinta já tinha passado pelo hospital de Ourém e portanto entendeu a vinda para o Hospital da Estefânia como uma passagem. Toda a família esperava a cura e o regresso da pastorinha – foi por isso que a mandaram para Lisboa – mas ela sabia que a vinda para Lisboa era uma passagem para o Céu”, observa a irmã Rita.

 

Obediência e abandono

Jacinta Marto, a pastorinha de Fátima que se encontrava doente com pleurisia purulenta, chegou ao então Orfanato à Estrela no dia 21 de janeiro de 1920. “A vinda de Jacinta para Lisboa revela uma grande obediência e um grande abandono nas mãos de Nossa Senhora. Sabemos que ela pede aos pais e à família para não a mandarem para Lisboa, porque queria ficar em Fátima. Nossa Senhora já tinha dito a Jacinta que a levava para o Céu, para junto do seu irmão Francisco, e Lisboa, para ela, era um lugar tão longe… fazia-lhe muita confusão ter de ir para um sítio tão longe da família se o caminho dela era ir para o Céu”, conta a religiosa, salientando, contudo, o acompanhamento que Jacinta teve em Lisboa. “Jacinta dá este testemunho de obediência e de abandono, que tem como fruto a contemplação. Ela vem para Lisboa e, aqui, Nossa Senhora, a Mãe, continua a acompanhá-la, continua a marcar presença junto de Jacinta. Ela vê tudo com olhos espirituais, seguindo o exemplo da Virgem Mãe, e centra a sua vida em Deus, o Único necessário. Todos os acontecimentos, os interrogatórios, a prisão, a doença, a solidão em Lisboa, Jacinta viu com olhos espirituais. Por isso, todos estes acontecimentos e vicissitudes da vida lhe servem de escada para chegar até Deus”, garante a irmã Rita Maria de Assis.

 

Amiga da santa pobreza e do silêncio

Na casa na Estrela, Jacinta passava o dia em três locais: o pequeno quarto, o oratório no coro alto da capela de Nossa Senhora dos Milagres e a janela da sala. “A oração na Jacinta era respiração, era algo muito natural. Ela rezava como respirava. Para ela, rezar era estar unida a Deus, que acontecia em tudo o que fazia, em todos os lugares onde estava. Era uma oração contínua”, destaca a irmã Rita, sublinhando “ser provável” que houvesse Missa diária na capela. “Há registo de que Jacinta participava na Eucaristia e o sacerdote vinha cá acima trazer-lhe a comunhão. Enquanto aqui esteve, sabemos que Jacinta confessou-se e comungou”, afirma.

Nesta casa na cidade de Lisboa, Jacinta passava também longas horas à janela de uma sala, a contemplar o Jardim da Estrela. “Ela tinha necessidade do campo. Jacinta veio do campo e, de repente, vê-se fechada num quarto na cidade, em que não podia sair do edifício… portanto, ela passava mesmo muito tempo à janela desta sala”, refere a irmã, enquanto mostra o espaço.

A irmã Rita Maria de Assis destaca ainda a relação da pastorinha com a fundadora do orfanato, então com 42 anos. “Assim que chegou, Jacinta teve uma grande familiaridade com a madre Godinho e começa a chamá-la de madrinha. Elas tiveram uma relação muito próxima, de mãe e filha. Como a doença era contagiosa, Jacinta estava num quarto sozinha e era visitada regularmente por madre Godinho”, frisa. Esta religiosa Clarissa lembra também “os conselhos” que Jacinta deu a madre Godinho. “Seja muito amiga da santa pobreza e do silêncio. Interessante, uma criança com 9 anos a exortar uma adulta, consagrada a Deus, a ser amiga da santa pobreza e do silêncio, deste silêncio que ela experimentou em Fátima e que experimentou muito aqui, também”, conta, assegurando que “o silêncio nesta casa foi intimidade com Deus”.

 

Sem medo do Céu

Nos dias em que esteve nesta casa na cidade de Lisboa, Jacinta falava muito do seu desejo de ir para o Céu. “Certo dia, madre Godinho, que era Irmã Franciscana mas morreu como Clarissa, perguntou-lhe: ‘Jacinta, não te queres curar? Os teus pais e os teus irmãos teriam tanta alegria pela tua cura e o teu regresso a Fátima… tu vais mesmo morrer?’. Jacinta apenas encolhia os ombros e respondia: ‘Está nas mãos de Nossa Senhora, o viver ou o morrer, o voltar a Fátima ficando curada ou o não ficar curada e morrer aqui… tudo está nas mãos de Nossa Senhora’. Estas palavras mostram um abandono confiante. Ela não tinha medo do Céu, o que é característico de uma criança que vive de forma pura, de forma santa”, observa a irmã Rita, lembrando que a pastorinha de Fátima falava muito do Céu: “Um dia, em jeito de desabafo, Jacinta partilhava com madre Godinho: ‘Se os homens soubessem o que é a eternidade, fariam tudo para mudar de vida’. É impressionante como isto aconteceu mesmo na vida dos pastorinhos. Eles mudaram de vida e isso mostra, também, a veracidade das aparições. Na vida deles aconteceu esta transformação radical que não era comum em crianças da sua idade. Eles foram capazes de se entregar a uma vida espiritual intensa, passando longas horas a fazer companhia a ‘Jesus escondido’, como ela dizia. Nesta casa, Jacinta passava longas horas fazendo companhia a Jesus no sacrário, a partir do coro alto da capela de Nossa Senhora dos Milagres, ou simplesmente a pensar em Deus e na Senhora cheia de luz. Eles fazem da sua vida um dom total a Deus e aos outros”.

 

Alegria e gratidão

As Irmãs Clarissas de Lisboa receberam “através de vários telefonemas” a notícia da aprovação pelo Papa do milagre dos pastorinhos, que vai permitir a canonização de Francisco e Jacinta Marto. “O telefone começou a tocar ininterruptamente! Vêm cá bastantes pessoas rezar ao quartinho da Jacinta e todos queriam ser os primeiros a dar a novidade às irmãs. Esta já era uma notícia muito esperada e ansiada pelas irmãs e também por toda a gente”, refere, sorridente, a irmã Rita Maria de Assis, sublinhando “a alegria e a gratidão” com que as Clarissas acolheram a notícia da canonização dos pastorinhos. “A presença de uma comunidade contemplativa nesta casa é um convite a sermos chamadas a ser sinal do Céu que a Jacinta apelou e onde agora habita”, observa esta jovem Clarissa.

 

______________ 

 

A visita de um grupo polaco da Irlanda

Na manhã em que o Jornal VOZ DA VERDADE foi conhecer o quarto de Jacinta em Lisboa, o local foi também visitado por um grupo de peregrinos polacos residentes na Irlanda. “Viemos a Portugal devido ao Centenário das Aparições de Nossa Senhora de Fátima. Organizámos esta peregrinação a Fátima para ver e rezar nesse local sagrado”, salienta ao Jornal VOZ DA VERDADE o padre Marek Cul, OP, capelão da comunidade polaca em Galway, na Irlanda, onde vivem mais de quatro mil polacos. Chegados a Lisboa nessa manhã de sexta-feira, dia 31 de março, este grupo de 11 peregrinos polacos estava a caminho de Fátima, onde iria ficar até segunda-feira. “Quisemos começar esta peregrinação aqui, no quarto da Jacinta, em Lisboa. Já tivemos Missa na capela e agora vamos para Fátima”, frisa.

Este sacerdote Dominicano, de 53 anos, sublinha que “o mistério de Fátima está muito ligado ao Papa João Paulo II”, também ele polaco, e destaca a importância da mensagem de Nossa Senhora de Fátima para a comunidade polaca na Irlanda. “A oração e a penitência são muito importantes para a conversão. As aparições em Fátima estão muito relacionadas com a história da Europa e Nossa Senhora pediu para rezarmos pelos outros e pela paz”, lembra o padre Marek.

As visitas ao quarto de Jacinta em Lisboa acontecem diariamente, segundo a irmã Rita Maria de Assis. “Todos os dias, a campainha da casa é tocada por alguém que pede para vir rezar. Sejam pessoas que já conhecem e pedem simplesmente para estar; sejam pessoas que souberam da presença aqui da Jacinta e pedem a alguma das cinco irmãs Clarissas que lhes explique e mostre os espaços; sejam até grupos organizados de peregrinações, de Portugal e sobretudo do estrangeiro, em especial da Irlanda, dos Estados Unidos, de Itália e da Polónia”, salienta esta religiosa Clarissa, convidando “quem queira visitar a telefonar [213974328], a enviar email [irmasclarissas.lisboa@gmail.com] ou simplesmente a aparecer”.

 

______________ 

 

Alguns objetos pessoais de Jacinta em exposição no mosteiro das Clarissas, em Lisboa

- O vestido com que a pastorinha chegou de Fátima

- O terço com que Jacinta rezava diariamente

- A sacola da merenda trazida por 

- Os cobertores e mantas da cama da pastorinha

- A chávena de Jacinta na casa da Estrela

 

______________


Perfil

Natural de Lisboa, a irmã Rita Maria de Assis, de 24 anos, pertence às Irmãs da Ordem de Santa Clara de Assis (Clarissas). Fez a caminhada cristã na Paróquia de São João de Deus, até à Primeira Comunhão, e com 12 anos mudou-se com a família para Torres Vedras, para a Paróquia de São Mamede da Ventosa, onde fez a Profissão de Fé e o Crisma. Tem dois irmãos mais novos e conheceu as Clarissas através do Convento de Santo António de Varatojo, dos Franciscanos, tendo entrado no Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, na Estrela, em Lisboa, há quatro anos. “Conheci este mosteiro há sete anos, durante o meu percurso da universidade. Estava no 1º ano, a estudar Economia numa faculdade perto do mosteiro, quando conheci a capela e procurei saber os horários em que estava aberta, em que o Santíssimo estava exposto”, recorda. “Jacinta também conduziu o meu caminho, a decisão de entrar neste mosteiro e dar continuidade a este pedido que ela fez à cidade de Lisboa, para que a cidade pudesse ter um lugar de oração, de reparação e penitência para que todos se convertessem”, frisa.

Noviça há dois anos, a irmã Rita fará este ano, no mês de junho, os primeiros votos com as Clarissas.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
Na Tua Palavra
Não nos separemos d’Ele!
por D. Nuno Brás
A OPINIÃO DE
P. Nuno Amador
Joker, de Todd Phillips, é um filme sublime e perturbador. Sublime na lentidão certa com que nos dá...
ver [+]

Isilda Pegado
1. Na Universidade diziam-nos que quando entra a Justiça, já não há Família. E por isso, o chamado...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES