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Isilda Pegado*
“Perfume de mulher”. Um filme
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1 - “Perfume de mulher” é o filme que conta a história de um americano, mutilado de guerra, onde perdeu totalmente a visão (soberbamente interpretado por Al Pacino). Tal facto, torna-o uma pessoa amarga, solitária e determinado em pôr fim à própria vida.

Até que, um estudante pobre de um colégio interno de meninos ricos, com o objectivo de ganhar dinheiro para poder ir a casa no Natal, aceita acompanhar o velho Coronel num fim-de-semana. É notório o contraste entre, por um lado, a acomodação ao luxo e à rotina, o desleixo e os preconceitos (“é isto a vida?”) do velho Coronel e, por outro lado, apesar de não ter dinheiro, a frescura, a audácia e a esperança do jovem Charlie.

2 - Durante esses três dias de fim-de-semana, vão para Nova Iorque e o velho Coronel prepara tudo com muito luxo, para o seu suicídio. Nada mais lhe resta fazer.

O jovem estudante, não se conforma e tudo faz para o demover.

3 - Nesses três dias acontecem três coisas. O velho Coronel cego dança o tango, com uma elegância e beleza ímpares, tendo como par uma mulher linda. Segundo, encontra-se com o irmão com quem estava incompatibilizado, e percebe a sua violência pessoal. E, terceiro, anda de Ferrari.

O velho Coronel identifica em cada mulher, o cheiro dos perfumantes que estas usam – descrevendo-os primorosamente (faltando um dos sentidos, os outros ficam mais apurados).

4 - O jovem Charlie vai perguntando as razões do suicídio programado, e simultaneamente vai mostrando o valor das coisas simples e belas que existem na vida do velho Coronel. Até que, em último recurso lhe pergunta – O que deseja? Que espera da vida? – E tem a insondável resposta – uma mulher que me abrace todos os dias, alguém que se deite e acorde a meu lado, diariamente.

5 - Isto é, o que cada um de nós procura, o Amor. O encontro com um amor que me complete e me torne mais doce, amigo e alegre. A insatisfação do coração do velho veterano de guerra afinal não lhe advém da cegueira física, mas de uma ferida de coração.

6 - No filme, a par desta história, há ainda o dilema do jovem estudante pobre e abandonado pelo pai, que se confronta com uma questão de carácter – denunciar, ou não, os colegas que fizeram uma “patifaria”, a troco de acesso rápido a Harvard. O velho Coronel, sem nunca lhe dizer o que fazer, mostra-lhe a nobreza de carácter com pequenos gestos. Charlie – repudia o suborno.

7 - À saída do colégio de Charlie, e já depois de um brilhante discurso do velho veterano de guerra, este encontra uma mulher… O encontro com uma mulher, que ele identifica pelos perfumes que esta usa, enche-lhe o coração. Modifica-o. O Amor gera Amor.

8 - É comovente ver o irrascível Coronel, regressar a casa, onde estão os sobrinhos com quem este só falava aos gritos e de “maus modos”, ter agora, para com eles gestos de carinho e cumplicidade. O sobrinho de 4 anos adere imediatamente, mas a de 6 anos (idades que se presumem) é ainda reticente…

O velho, cego, auto-excluído, agressivo, mergulhado na solidão, encontra a Esperança. Encontra o Amor.

9 - O Amor é mesmo o maior Mandamento. Em tempo de celebrações do maior Amor – a Páscoaé preciso descobrir “os ovos” da nossa vida. As coisas simples que estão escondidas e que nem ousamos dizer.

Descobrindo “o perfume” encontramos o Amor.

 

* Presidente da Federação Portuguesa pela Vida