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Guilherme d’Oliveira Martins
A visão cristã de Fátima…
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Em Fátima, o Papa Francisco acaba de lembrar que, “sob a proteção de Maria”, devemos ser, “no mundo, sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa”. E assim poderemos descobrir “o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”. Eis-nos perante a força da fé, como vivência de humanidade. “Se Deus nunca ninguém o viu, o crente aceita a debilidade das mediações para alimentar a sua fé com sinais, que nunca atingem Deus, mas aproximam e ajudam a entrar em relação: gestos, ritos, memórias. Neste processo de humanização e encarnação, os videntes e profetas põem-se ao serviço das mensagens de Deus e a Igreja assume a missão de supervisão entre a religiosidade natural e popular e estes frágeis intérpretes da vontade de Deus”. Quem o diz é Carlos A. Moreira Azevedo em Fátima – Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã (Esfera dos Livros, 2017), obra fundamental para a compreensão séria e serena de um fenómeno muito complexo, que deve ser analisado como rigor histórico e prudência, à luz de uma reflexão teológica, histórica e sociológica, que previna simplificações redutoras e especulativas. Não esquecemos a afirmação de Paul Claudel: “Fátima é uma irrupção violenta e escandalosa do mundo sobrenatural neste agitado mundo material”. Eis por que razão temos de lidar com o fenómeno com especial atenção – até para que o mesmo seja respeitado e considerado como uma manifestação de fé. Cabe à Teologia integrar as devoções, ligando-as à globalidade da Revelação e à comunhão eclesial. Nada pior do que os monólogos sobranceiros e ignorantes, que apenas favorecem a irracionalidade e a intolerância.

Uma visão cristã do fenómeno de Fátima obriga a partir de Jesus Cristo e a considerar o arreigado culto mariano a essa luz, enquanto riquíssimo fator de mediação. E o caso português tem um especial significado – falamos da Terra de Santa Maria, as dioceses estão consagradas à Mãe de Deus, numa das suas designações antigas a cidade de Faro invoca expressamente Santa Maria, os reis de Portugal entregaram a sua coroa à Padroeira na Restauração. E sem procurarmos muito, encontramos nas origens da nacionalidade a visão da Senhora da Nazaré do Almirante das Armadas D. Fuas Roupinho.

A conjuntura de 1917 é um caldo de cultura rico em acontecimentos, num período marcado pela questão religiosa portuguesa, coincidente com o anticlericalismo que acompanhou a implantação da I República. Apesar dos apelos de católicos como Abúndio da Silva no sentido de uma renovação da Igreja e de uma maior independência do poder político, a verdade é que a orientação laicista e os excessos na hostilização religiosa prevalecem (como a faculdade legal de dissolução das mesas administrativas das irmandades e confrarias e sua substituição ou a posse pelo Estado dos bens das extintas ordens religiosas), num ambiente de grande tensão social, sobretudo fora de Lisboa e dos grandes centros urbanos. A entrada de Portugal na Grande Guerra viria, porém, a dar lugar à necessidade de um apoio de teor religioso. “Afinal, a função da religião para a vivência pessoal e social ia além do racionalismo e da instituição clerical”. A defesa dos interesses marítimos e coloniais levaram à entrada no conflito, com número assinalável de baixas. Em janeiro de 1917 começam a chegar a França os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português e o executivo chefiado por António José de Almeida permite a presença de 15 capelães para 50 mil homens, embora sem vencimento. Este serviço revelar-se-á da maior importância, com forte apoio da sociedade. O ano de 1917 foi denso de factos: os bispos portugueses assinam uma Instrução Pastoral Coletiva na qual se diz que os católicos não devem eximir-se de funções ou cargos públicos, o que levará à constituição do Centro Católico (onde se destacará António Lino Neto); em dezembro ocorre o golpe militar de Sidónio Pais, assassinado um ano depois. O certo é que se inicia um período de atenuação da crise religiosa. O centro do fenómeno de Fátima encontra-se na mensagem – ligada ao amor, à oração, à conversão e à paz. Estamos perante “diálogos interiores, com a ajuda do Espírito Santo”. É a tensão complexa entre a religiosidade popular e a visão cristã da relação entre Deus e os homens que, no fundo, aqui está bem presente.


foto por Arlindo Homem