Lisboa |
Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos
“Somos todos pessoas”
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“O estigma das pessoas em relação à etnia cigana só pode ser combatido com a proximidade”. A opinião é de Fernanda Reis que, durante 40 anos, foi o rosto da Pastoral dos Ciganos na diocese. Voluntária desta pastoral desde 1968, garante ainda que a necessidade maior dos ciganos é “a escolarização e a formação”.

 

Com quase 50 anos de dedicação à etnia cigana, Fernanda Reis apela à proximidade para combater o estigma em relação a este povo. “Eu só passo do preconceito ao conhecimento se me aproximar. A partir do conhecimento, posso gostar ou não, e então passar para uma relação mais próxima. Se eu nunca der o passo de aproximação, nunca vou conhecer”, frisa ao Jornal VOZ DA VERDADE esta leiga que, entre 1977 e 2017, foi secretária diocesana do Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos.

Na semana em que é celebrado, em Portugal, o Dia Nacional do Cigano (24 de junho), Fernanda garante ser necessária uma “uma verdadeira escolarização” deste povo. “Estando mais informados, eles depois podiam escolher profissões e não deixarão, por isso, de ser boas pessoas, não deixarão por isso de ser bons ciganos e boas ciganas. Estarem escolarizados é uma condição para serem independentes, para exercerem cidadania e, também, para serem respeitados”, assegura. É com conhecimento de causa que salienta que “o panorama atual dos ciganos, em relação à escola, não é animador”. “O problema da escola, ainda hoje, não está resolvido. Parece impossível”, lamenta. “Naturalizou-se a matrícula das crianças no pré-escolar, mas todos os anos temos de os lembrar, assim como se naturalizou a frequência do 1º Ciclo. A partir do 2º Ciclo, o caso complica-se, devido a dois fatores: as escolas do 2º Ciclo, habitualmente, são um pouco mais longe de casa, o que exige uma deslocação maior; além disso, fruto de uma mentalidade mais antiga, os meninos e as meninas ciganas começam a casar cedo. Os reis e as rainhas também faziam isso e era natural, mas o povo cigano, chegando a essa idade, tem a ideia fixa de começar a preparar o casamento”, frisa esta leiga, lembrando que a etnia cigana “vê a escola como uma atividade de crianças”. “Enquanto na sociedade moderna há esta adolescência muito prolongada, e as pessoas aos 30 anos ainda estão a pensar se hão de casar, numa sociedade como a dos ciganos, que ficou com características antigas, tudo se passa muito rapidamente. Vive-se mais depressa, morre-se mais cedo”, salienta, lamentando: “São muito poucos os que chegam a fazer uma escolarização completa, muito poucos mesmo os que chegam a ter um curso e muito poucos, pouquíssimos, os que chegam a ter uma licenciatura”.

Sublinhando que o Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos devia “ser mais ouvido pelo Ministério da Educação”, porque “está no terreno”, Fernanda Reis refere que esta falta de escolaridade traz depois, consigo, “os problemas de habitação e do mercado de trabalho”.

 

‘Pode cá voltar?’

Nascida em Alcobaça, em 1934, Fernanda Eugénia Nunes dos Reis recorda que durante a sua infância e adolescência passavam pela sua terra “diversos grupos de ciganos” – “havia até aquela graça de pedir para ler a sina” –, mas o seu contacto com este povo “resumia-se a isso”. “Foi então que, em 1968, viva na zona da Amadora e comecei a ver crianças ciganas a brincar na rua, à hora a que deviam estar na escola. Como era professora, talvez estivesse mais desperta para os problemas da escolaridade e, de facto, fez-me uma grande interrogação”, conta. Esta observação fez com que Fernanda, certo dia, se aproximasse daquelas crianças que moravam num bairro de barracas, numa colina na Falagueira, e parasse para conversar. “Parei e comecei a ser rodeada pelas crianças que queriam conversar. As famílias começaram as ver as crianças a rodearem uma estranha e desceram da colina. Conversámos e fui então esclarecida de uma realidade que as pessoas não tinham posto, nem tinham pensado nisso. Percebi que havia crianças, e também alguns adultos, que não estavam registadas; haviam registos que se tinham perdido e comecei a entrar numa realidade para mim desconhecida”, relata. Deste primeiro contacto com o povo cigano, Fernanda Reis recorda ainda a rapariga que lhe disse: ‘O meu pai pede para depois, quando puder, cá voltar’. “E foi assim que, passados uns dias, eu voltei a esta colina onde estava o bairro de barracas. Assumo que não foi fácil, porque era entrar no desconhecido”, resume. “Mas fui muito bem recebida”, reconhece ainda. “No fundo, somos todos pessoas e é natural que se um estranho aparece haja algum receio de parte a parte. Mas eles viram que eu não ia lá para os acusar, nem para cobrar nada, e a relação naturalizou-se”, frisa.

 

Conhecer a realidade

Foi a partir destes encontros, que tiveram lugar em maio, que nasceu a paixão de Fernanda pelo povo cigano. “Fui conhecendo melhor a realidade, fui observando e, a partir dali, começámos a trabalhar no sentido de matricular as crianças. Na altura, o registo civil – que ao início não me levou muito a sério! – era em Oeiras e foi possível fazer todo esse processo que era complicado e envolvia testemunhas e viagens de camioneta”, lembra. O problema seguinte era o das vacinas. “Tivemos de ir ao posto de vacinação e mais uma vez não fomos muito bem recebidos, porque enquanto uma mãe levava um filho, eu levava aos oito de cada vez”, refere. Nessa época, no final dos anos 60, as aulas começavam em outubro e Fernanda conseguiu inscrever 28 crianças ciganas para irem à escola. “Na altura ainda havia batas e arranjámos as batas!”, lembra.

Já no início dos anos 70, Fernanda começa a conhecer, em Lisboa e em Évora, outras pessoas que também se dedicavam ao povo cigano. “Queria conhecer, ver como as pessoas faziam noutros sítios e trocar impressões”, salienta, destacando ainda “o trabalho de muitas congregações religiosas, no Pote de Água, perto do Relógio, em Lisboa, no Estoril e noutras zonas”.

 

Uma história com sete séculos

Em 1972, a Conferência Episcopal Portuguesa cria a Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, “uma pastoral que estava também a dar os primeiros passos na Europa”. “Houve depois, nesses anos, uma peregrinação internacional de ciganos a Fátima”, conta Fernanda, sublinhando que “nos anos 80 foi criado um comité católico internacional a que Portugal pertence desde o início”.

A 12 de junho de 1973, foi organizada uma peregrinação nacional de ciganos a Fátima. “De Lisboa foram seis camionetas e as pessoas pagaram todas o seu bilhete. Não pagaram de uma vez, porque eram famílias numerosas, mas semanalmente iam pagando e lá fomos”, recorda. Estávamos em 1977 quando o cardeal Ribeiro, então Patriarca de Lisboa, cria o Secretariado Diocesano de Lisboa dedicado a esta pastoral, nomeando Fernanda Reis secretária diocesana. “As prioridades de então continuaram a ser o conhecimento da realidade e o tentar perceber a mentalidade, porque este é um povo com um percurso complicado, difícil. Este grupo minoritário chega ao nosso país no século XIV, na altura da expansão e domínio turco”, frisa, lamentando “as leis contra os ciganos, que chegaram a existir no nosso país”. “No século XVI, em 1525, surge a primeira pragmática contra os muitos ciganos que havia: que não entrem mais em Portugal e que saiam os que cá estão”, conta. “Isto é importante perceber, porque há muitas câmaras municipais que pensam que esta gente chegou ‘ontem’, que não são de cá, que se pode dar um ‘pontapé’ e mandar embora”, manifesta. Com o liberalismo, “uma lei refere que os ciganos não podiam ser condenados só por serem ciganos” e que “os que nascessem em Portugal eram portugueses”. “A partir daí parecia que estava tudo resolvido, mas não estava. E ainda hoje não está”, lamenta Fernanda Reis, lembrando ainda a “imigração interna dos anos 60, que trouxe também o povo cigano para as cidades, à procura de uma vida melhor”. “Foi então que começaram a vender roupa, calçado e enxovais”, conta.

 

Os sete centros

Anos mais tarde, na sequência das atividades desenvolvidas, o Secretariado Diocesano de Lisboa constituiu-se como IPSS. Estávamos no ano de 1985. “Isso permitiu-nos ter pessoal técnico”, aponta a antiga secretária diocesana da Pastoral dos Ciganos. Nestes anos, e de forma a poderem “estar com as pessoas”, foram criados sete centros de trabalho. “Ao criarmos estes espaços, vamos para bairros, bairros sociais, e quando nos pedem para ir a qualquer sítio nunca dizemos que não e vamos”, garante Fernanda.

Os sete centros do Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, todos eles com nomes derivados da língua cigana, estão espalhados um pouco por toda a cidade: Chaborrilho (Criança Cigana), no Areeiro, com pré-escolar, que acolhe 46 crianças; Mestipen (Liberdade), também no Areeiro, com centro comunitário e atividades de tempos livres, para 36 crianças, e que é a sede do secretariado; Panióli (Fonte), nos Olivais, com centro comunitário e pré-escolar, que recebe 50 crianças; Olipandó (Sol), na Quinta das Laranjeiras, no Parque das Nações, com centro comunitário e atividades de tempos livres, para 95 crianças e jovens; Verdine (Caravana), na Quinta da Fonte, na Apelação, com centro comunitário e atividades de tempos livres, que tem 50 crianças; Majari (Nossa Senhora), em Santa Clara, na zona do Olival Basto, com centro comunitário, atividades de tempos livres e pré-escolar, dirigido a 126 crianças e jovens; e Siruga (Canção), no Bairro do Zambujal, na Amadora, com centro comunitário e atividades de tempos livres e que recebe 85 crianças e jovens. “Temos 48 funcionários, não voluntários. São sete educadoras, três técnicas de serviço social – o que para sete centros é muito pouco –, 15 monitores de ATL, motoristas, ajudantes, pessoal de cozinha, pessoal de limpeza”, descreve, lembrando ainda “o grupo reduzido de voluntários, de cerca de uma dúzia”. “A direção é também toda voluntária e integra um religioso, o irmão José Manuel Salvador, dos Combonianos, que está na Apelação e tem prática de estar com as comunidades”.

 

Estar no meio das pessoas

Em todas estas casas, foram organizados centros de atividades de tempos livres. “O objetivo era mantermo-nos em contacto com as crianças e jovens, ao longo do percurso escolar, e para nos relacionarmos com as famílias. A pedido dos pais, criámos três jardins-de-infância. Como já tinham confiança em nós, queriam que tomássemos conta dos filhos. Ao mesmo tempo, criou-se outra valência, em todos os sete centros, a que chamámos ‘Família e comunidade’, mas que recentemente a Segurança Social mudou o nome para ‘Centro comunitário’ – apesar de eu entender que esse nome não corresponde muito à realidade. Fazemos atendimento de todas as pessoas que nos queiram colocar qualquer tipo de problema. É um acesso livre, em que não colocamos restrições, e é a partir deste atendimento que muita coisa acontece, porque há coisas simples, como o interpretar de um documento, o escrever uma carta ou fazer um telefonema, mas há também coisas muito complicadas, que temos de articular com outras entidades”, descreve.

Da missão do secretariado, destaca ainda os “cursos de alfabetização e escolarização”, realizados ao abrigo do protocolo do Patriarcado de Lisboa com a Fundação Aga Khan, e “a colaboração em duas grandes festas religiosas de bairro, na Apelação e nos Olivais, em que toda a população, e não somente a cigana, adere”.

Nos dias de hoje, “o secretariado diocesano relaciona-se, no atendimento e nas atividades com os miúdos e com os adultos, com 1324 pessoas, de 363 famílias”. Os colaboradores dos sete centros sabem também que “deve ser natural a ida ao bairro, às casas das pessoas, o estar, o conversar”. “Isso é que gera proximidade”, garante. “Não sei se temos muito êxito, mas o que lhe posso dizer é que estamos no meio das pessoas e estamos com as pessoas e temos descoberto casos tão tremendos, e sofrimentos tão grandes, que damos por bem empregado estarmos com as pessoas”, sublinha Fernanda Reis, uma leiga que no próximo ano cumpre 50 anos de dedicação ao povo cigano.

 

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Pastoral dos Ciganos tem nova secretária diocesana

Em decreto publicado em 3 de abril, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, nomeou Manuela Rosa Coelho Mendonça Matos Fernandes secretária diocesana do Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional para a Pastoral dos Ciganos.

 

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Em julho de 2011, Fernanda Reis, então secretária diocesana da Pastoral dos Ciganos de Lisboa, foi condecorada pela Câmara Municipal de Loures, com a Medalha de Mérito e Dedicação do Concelho, pelo trabalho na Quinta da Fonte.

 

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Secretariado Diocesano de Lisboa da Obra Nacional para a Pastoral dos Ciganos

Sede: Rua Al Berto, Lote C

1900-147 Lisboa

Telefone: 218406698

 Site: www.pastoraldosciganos.pt

Email: geral@pastoraldosciganos.pt

 

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Na foto: Fernanda Reis com ‘Verinha’, uma cigana que conheceu há quase 50 anos, na Amadora, e que recentemente reencontrou na sede do Secretariado Diocesano de Lisboa, nas Olaias.

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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