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O relato angustiado de dois bispos na República Centro-Africana
A coragem do amor
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Dois bispos, duas dioceses, um país: República Centro-africana. D. Cyr-Nestor Yapaupa e D. Juan José Aguirre. Duas vozes para um mesmo queixume. Nos últimos tempos, a violência apoderou-se das aldeias, vilas e cidades de Alindao e de Bangassou. Duas dioceses em que milhares de pessoas em lágrimas procuram a ajuda da Igreja. Muitos perderam tudo e não têm mais ninguém…


Que se diz quando alguém vê, com os próprios olhos, cenas de uma violência inimaginável? Que se diz quando alguém assiste à agonia de morte de um pai ou de um filho, de um amigo, um conhecido, um vizinho? Que se diz? Às vezes as palavras desaparecem. Tornam-se inoportunas, incapazes. Perante lágrimas de verdade, lágrimas de dor, que se pode dizer? Quase todos os dias, D. Cyr-Nestor Yapaupa e D. Juan José Aguirre ficam assim, sem palavras, perante histórias de sofrimento de pessoas, muitos delas cristãs, que foram apanhadas na armadilha da violência que tomou conta do país nos últimos tempos. No meio deste furacão estão grupos armados, os Seleka, muçulmanos, e os Anti-Balaka, constituídos, muitas vezes, como grupos de auto-defesa. Mas a radiografia deste desastre é muito complexa. D. Juan Aguirre, Bispo de Bangassou, explica o que se está a passar. “Todo o leste da República Centro-Africana corresponde à Diocese de Bangassou, onde vivo, e está ocupado em 25% pelos Seleka que colocam barreiras e nos complicam a vida por onde passamos. Mas nos restantes 75% da diocese até à fronteira com o Sudão está um grupo brutal fundado por um criminoso chamado Joseph Kony, a LRA (Lord's Resistance Army - Exército de Resistência do Senhor), e este grupo está a tornar-nos a vida muito difícil. Há dezoito anos que vivemos um calvário com muitos ataques, raptos, roubos, intimidações e inclusive a degolação de pessoas.”

 

País destroçado

É assim em Bangassou, uma diocese apoiada directamente pela Fundação AIS. Agora vamos até Alindao. Que diz o Bispo? “A violência teve início do dia 8 de Maio, em resposta aos raptos e assassinatos de vários jovens em Datoko pelos Seleka. Após a intervenção das tropas da ONU, a situação acalmou um pouco. Porém, ainda existem cerca de cinco mil refugiados, que estão actualmente a ser atendidos em vários centros da Igreja Católica.” Cinco mil pessoas em lágrimas só ali, na diocese de D. Cyr-Nestor Yapaupa. A República Centro-Africana é um país destroçado. Quando a violência irrompe assim nas ruas, não poupando nada nem ninguém, fica-se sem respostas. É quando as pessoas se sentem incapazes. É nestas ocasiões que um simples abraço apertado vale mais do que todas as palavras. Têm sido assim os dias neste país. Têm sido assim os dias dos Bispos de Alindao e de Bangassou.

 

Pessoas assustadas

Mas a violência e o medo só se combatem com a coragem inspirada pelo amor. O Bispo de Bangassou é espanhol, missionário comboniano e é, também, um homem de coragem. No passado dia 8 de Maio, quando a República Centro-Africana estava mergulhada no caos mais absoluto, com cidades e aldeias tomadas por grupos armados, graças a D. Juan José Aguirre – e à actuação pronta de militares portugueses ao serviço da ONU – não foram chacinadas centenas de pessoas. Eram quase todas muçulmanas. Podiam ser cristãs. Para o Bispo eram apenas pessoas assustadas que precisavam de ajuda. Como procurar caminhos de paz quando tanta violência está à solta? O Bispo espanhol responde. “Este é o momento de responder de forma activa à provocação dos violentos. Por exemplo, numa região da Diocese de Bangassou decidimos responder a estes ataques com projectos de desenvolvimento, como por exemplo a inauguração de uma escola. E, então, vemos todas as crianças a chegar, muçulmanas e não muçulmanas, e misturar-se na escola, e é como se fosse uma resposta à violência daqueles que querem erradicar esta zona ou torná-la um poço sem fundo.”

 

Milagres de amor

Um poço sem fundo. Nem mais. O Bispo de Alindao sabe bem o que é ter à sua frente gente ferida no corpo e na alma, estendendo-lhe as suas mãos vazias. Que dizer? Que fazer? “As pessoas na minha diocese vivem essencialmente dos produtos agrícolas locais. O produto da caça e da pesca tornou-se muito raro nos últimos tempos. Como resultado, existe o risco de uma crise alimentar, a que já estamos a assistir. As pessoas não são mais capazes de cultivar os seus campos de forma segura, e as reservas e lojas de alimentos desses países foram saqueadas, roubadas e até queimadas.” O bispo está a falar de fome. Está a falar de fome e de medo. Está a falar de lágrimas. Está a falar de pessoas que precisam de ajuda. Está a falar connosco. Está a falar consigo. No meio desta tragédia em que se tornou a República Centro-Africana, a Fundação AIS, através dos seus benfeitores e amigos, está a fazer todos os dias verdadeiros milagres. Milagres que só a coragem do amor pode fazer.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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