Lisboa |
Livro “Um ‘Santo’ Surfista”, do padre Ricardo Figueiredo
Na onda de Cristo
<<
1/
>>
Imagem

“Era impossível não pensar em Deus depois de estar com o Guido”, recordam os amigos de Guido Schäffer, jovem brasileiro que faleceu em 2009, aos 34 anos.  A vida do médico, seminarista e surfista é contada no livro “Um ‘Santo’ Surfista - O Servo de Deus Guido Schäffer”, da autoria do padre Ricardo Figueiredo, coadjutor de Peniche.

“É possível estar no mundo, é possível estudar, surfar, ir à praia, fazer caminhadas, jogar à bola, ter amigos e ser santo. É possível!”, garante o padre Ricardo Figueiredo, autor do livro “Um ‘Santo’ Surfista - O Servo de Deus Guido Schäffer”, que ficou impressionado com o testemunho de vida do jovem brasileiro que faleceu em 2009, aos 34 anos. “Leiam a vida dele, vejam as lutas, vejam a lista de pecados que ele faz… o Guido era jovem como nós somos, ou éramos, jovens e nunca desistiu de lutar. Ele disse uma vez na rádio: ‘Deus cumpre a sua promessa. Se no dia do nosso batismo Deus prometeu que nos dá a santidade, vai cumprir e só espera de nós a nossa disponibilidade’”, recorda o sacerdote de Lisboa, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Médico, seminarista, surfista, Guido Schäffer era um jovem como outro qualquer. “O Guido nasceu em 22 de maio de 1974, em Copacabana, no Rio de Janeiro, viveu com os pais, tinha uma irmã quatro anos mais velha, a Ângela, e um irmão mais novo um ano e pouco, o Maurício, e era um jovem como os outros: jogou na equipa de futebol de praia, fazia surf, tinha amigos, fez a catequese que os nossos jovens na maioria das paróquias também fazem; portanto, um percurso normalíssimo e essa foi uma das coisas que me chamou à atenção”, conta, exemplificando: “Um dos rapazes que eu acompanho espiritualmente perguntava-me se não havia exemplos de santos ‘normais’, porque os santos costumam ser pessoas ‘muito más’, que se convertem e passam a ser ‘muito boas’… mas o Guido, de facto, era uma pessoa normalíssima”.

Guido formou-se para ser médico, escolhendo Medicina Geral como especialidade, “porque era onde podia acompanhar melhor a pessoa no seu todo”. “Foi aqui que Jesus se ‘meteu’ com ele”. O jovem brasileiro tinha então pouco mais de vinte anos. “Ao preparar-se para fazer o exame final de Medicina, o padre Jorjão, seu pároco, pergunta-lhe se ele não queria fundar um grupo de oração para jovens, na paróquia. Guido fica num impasse, mas decide arriscar e aceita o desafio, confiado de que iria ser o que Deus quisesse. O grupo começa com 15 pessoas e rapidamente chega às 200! Entretanto, Guido faz o exame e tem uma belíssima nota, mas começa a falar sobre a Palavra de Deus, a pregar, a dar catequese, a orientar tempos de oração, e toda a gente à sua volta via que Deus falava através de Guido. E é numa meditação da Palavra que ele ‘esbarra’ com a passagem do Evangelho: «Jovem rico, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e depois segue-Me». Guido era de famílias abastadas e esta Palavra mexeu com ele”, frisa o sacerdote português.

 

Lisboa

Guido “não tinha nada em seu nome, era tudo dos pais”, mas é nesse momento que ele “vê o seu diploma de médico e pensa: ‘Tenho uma coisa para dar aos pobres: a Medicina’”. “Guido trabalhava no hospital da Santa Casa da Misericórdia e, certo dia, passa por uma irmã Missionária da Caridade, da Madre Teresa de Calcutá, a quem ele pergunta se precisam de um médico na missão das religiosas. É aqui que ele começa a dar consultas gratuitas, a acompanhar os sem-abrigo, os pobres, e faz um trabalho impressionante”, relata o padre Ricardo, lembrando “a ajuda que outros médicos seus colegas e também jovens da paróquia começam a prestar”. “Certo dia era preciso vacinar os sem-abrigo e ele consegue vacinar 200! Uma das coisas impressionantes da vida do Guido é que ele arrastava multidões. Como dizia uma rapariga do grupo de jovens, num vídeo que vi recentemente, ‘era impossível não pensar em Deus depois de estar com o Guido’. E isso vinha da forma como ele falava e como testemunhava”, aponta. Uma médica sua amiga dá a Guido um livro sobre São Francisco de Assis, de Frei Ignacio Larrañaga, dizendo ao jovem brasileiro que o que ele estava a fazer era semelhante com o que aconteceu a São Francisco. “Ele lê o livro, que o impressiona, e começa a querer aquela liberdade da pobreza de São Francisco. Ele estava noivo, de casamento marcado e cancelou tudo”.

Portugal entraria também na história da vocação deste jovem brasileiro. “No ano 2000, Guido vai a Roma com a família, para a beatificação dos primeiros mártires do Brasil e, no regresso, vem ao Santuário de Fátima e é em Lisboa, curiosamente, que ele diz aos pais que quer ser padre. Eu falei com a irmã, que me diz que terá sido em Fátima, mas em todos os livros está Lisboa. O pai aceitou logo, a mãe colocou algumas reticências, alegando que os padres sofrem muito. Ao que Guido respondeu: ‘E os outros não? Jesus sofreu imensamente mais por nós’”, conta o padre Ricardo.

 

Morrer no mar

Terminado o namoro, Guido faz um ano de discernimento, continua a dar consultas, a orientar a pastoral da saúde da Santa Casa e inicia depois a formação teológica como aluno externo. “Guido entra no seminário diocesano e é acompanhado por D. Romer, Bispo Auxiliar responsável pelas vocações na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Primeiro a formação filosófica, no Mosteiro de São Bento, e depois os dois anos de Teologia. Entre a Filosofia e a Teologia, faz um interregno de um ano em que se junta, em Queluz, no Brasil, a uma comunidade Canção Nova, mas regressa e depois entra, em regime interno, no Seminário de São José para fazer os dois anos finais, entre 2007 e 2009”, relata.

A 1 de maio de 2009, quando se estava a preparar para ser ordenado sacerdote, Guido Schäffer morre a fazer surf. “Foi inesperado. O Guido começou no surf aos 13 anos e, naquele dia, estava a surfar com os amigos na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando sofreu um acidente e bateu com a cabeça na prancha. A contusão na nuca fez com que desmaiasse e se afogasse. A mãe conta que há um momento em que ele diz que gostava que Nosso Senhor lhe desse a graça de morrer no mar… e a verdade é que aconteceu”, frisa o padre Ricardo. Guido é conhecido por ser o ‘santo surfista’ também pelo trabalho que realizou com os surfistas. “Ele chamou muitos surfistas para fazer voluntariado, rezava com eles antes de irem para o mar”, destaca.

 

História com Deus

Foi no ano passado, na Universidade Católica, onde está a terminar a tese de segundo grau, que o padre Ricardo conheceu um sacerdote francês que lhe ‘apresentou’ a história de vida de Guido Schäffer. “Em fevereiro-março de 2016, o padre Arnaud de Malartic veio a Peniche falar aos jovens e antes, durante o jantar, eu falei-lhe que a paróquia tinha muitos surfistas e ele pergunta-me se conhecia ‘santo surfista’. Eu respondi que não e ele aconselhou-me a procurar na internet ‘Guido Schäffer’. É então que me dou conta desta incrível vida jovem!”, recorda o sacerdote. O padre Ricardo Figueiredo encomenda, desde logo, o livro ‘Guido Schäffer - Apóstolo da Palavra e da Paz’, de D. Justino Bueno que foi professor do jovem brasileiro, no Rio de Janeiro. O jovem sacerdote de Lisboa prossegue a sua pesquisa sobre Guido, vê filmes no YouTube, até que surge o convite da editora. “Na colaboração com a Paulus noutros projetos, nomeadamente nos livros do D. João Marcos, o padre José Carlos Nunes pergunta-me quando publicamos uma coisa minha. E eu respondi que tinha uma ideia, de escrever sobre um ‘santo surfista’, um rapaz brasileiro que está em processo de beatificação… e o resultado é este livro”, conta. “Durante a minha investigação, o que me dou conta, a partir dos escritos do Guido no diário, é que há uma linha de continuidade que não está exposta em nenhum dos livros anteriores sobre ele. A partir dos quatro pilares de vida do Guido – a Palavra de Deus, a Santa Missa, a confissão e, como base disto tudo, a oração – há uma construção que se vai fazendo, nesta linha de continuidade. A vida de Guido não é apenas um acontecimento, é uma história completa que Deus faz com ele”, sublinha.

 

Uma vida que tocou muito longe

Sobre o que mais o tocou na escrita deste livro, o padre Ricardo destaca dois aspetos, a profundidade espiritual e a caridade. “O modo como Guido se relaciona com a Palavra de Deus, que é de uma grande profundidade e de um ‘tu cá, tu lá’ com Deus. Olha-se para o Guido como um exemplo de santidade perfeito – deixe-me dizer assim – daquilo que é a santidade proposta pelo Concílio Vaticano II. Depois dos Concílios, quando olhamos para a história, há santos que vivem aquilo que o Concílio propunha… nós estamos nos 50 anos do Vaticano II e estão a surgir os santos, que nascem e crescem na espiritualidade estritamente do Concílio. Por outro lado, a caridade. Guido era de uma abnegação, de nada guardar para si. Há muitos episódios, por exemplo em Roma, em 1997, em que a mãe de Guido tinha oferecido aos filhos uns casacos muito bons e um dia ele chega a casa sem o casaco porque o deu a um sem-abrigo”, conta.

O padre Ricardo observa ainda que o trabalho missionário de Guido era feito no silêncio. “Ele agia, fazia, mas não se percebia a dimensão. Só no seu funeral, a família vai rezar à cripta e quando chega estão duas mil pessoas. Dias depois, na campa dele, começam a aparecer mensagens a agradecer graças recebidas por intercessão do Guido. A vida do Guido Schäffer tocou muito longe”.

O final do livro ‘Um “Santo” Surfista: o Servo de Deus Guido Schäffer’ tem publicadas diversas fotografias do jovem brasileiro, que foram cedidas pela família, “após lerem o manuscrito do livro”. “A família do Guido aprovou o livro e ficou entusiasmada com a publicação”, frisa o sacerdote português.

Sobre o processo de beatificação, o padre Ricardo refere que “segue os tramites normais”, ou seja, “cinco anos após a morte de Guido foi aberto o processo, iniciado pela Arquidiocese do Rio de Janeiro”. “Se Deus quiser, no próximo mês de outubro o processo de beatificação, com vinte mil páginas, vai ser enviado para Roma. Há vários milagres, o último que tive conhecimento é excecional, é com um padre brasileiro que teve um acidente de carro, ficou em muito mau estado e iria ficar em estado vegetativo, ou perto disso. Quando chega ao hospital, as enfermeiras, que conheciam o Guido, põem uma pagela do Guido no peito do padre acidentado, pedindo a intercessão… em três dias, o padre sai do hospital a cantar”, revela. No próximo ano tem lugar o Sínodo da Juventude, em Roma, e o padre Ricardo convida todos, “em particular os jovens, a rezar pela beatificação de Guido Schäffer”.

http://guidoschaffer.com.br

 

 

_____

 

“É impossível ficar indiferente à história de vida de Guido”

A praia do Baleal acolheu, no passado dia 25 de agosto, o lançamento do livro “Um ‘Santo’ Surfista - O Servo de Deus Guido Schäffer”, da Paulus Editora (http://paulus.pt/um-santo-surfista). Dezenas de pessoas, entre as quais alguns surfistas e os Bispos Auxiliares de Lisboa D. Nuno Brás e D. José Traquina, estiveram presentes na apresentação da obra que conta a vida deste jovem surfista brasileiro, médico e seminarista, cujo processo de beatificação será entregue no Vaticano, em outubro.

Miguel Cardoso tem 19 anos e prefaciou o livro. No lançamento, com o mar e a praia mesmo atrás, confessou que “é impossível ficar indiferente à história de vida de Guido”. “Jesus passou na vida de Guido e ele não lhe ficou indiferente”, salientou. Miguel já conhecia a biografia do jovem brasileiro, mas nesta obra agora lançada conheceu também a sua intensa vida de oração e pensamentos. “É uma grande força saber que há jovens que conseguem dar a vida toda a Deus. Percebi que a santidade está perto”.

O padre Ricardo Figueiredo, autor, salienta o que se pode aprender com Guido Schäffer: “Ele queria sempre a onda maior. Conhecer o Guido tem de ser este desejo e luta por querer viver além do básico, mas respirar este ar que é oferecido por Deus”. Para escrever o livro “Um ‘Santo’ Surfista”, o padre Ricardo contactou com a família de Guido. A mãe do jovem brasileiro, Nazareth Schäffer, enviou uma mensagem, mostrada no lançamento da obra, onde reforçou o papel da oração. “O que o susteve muito na vida foi a disciplina na oração. A vida de oração intensa ajudou o Guido a caminhar na direção do próximo e de Deus”. Dirigindo-se aos jovens portugueses, a mãe de Guido deixou um desafio: “Jovem: levante-se, deixe-se encontrar por Deus e terá uma vida feliz como foi a do Guido”.

texto e fotos por Paulus Editora

 

____

 

Perfil

Nascido em 1990, em Belas (Sintra), o padre Ricardo Figueiredo, autor do livro “Um ‘Santo’ Surfista - O Servo de Deus Guido Schäffer”, foi ordenado sacerdote em 2015 e exerceu os seus dois primeiros anos de ministério nas paróquias de Peniche, Atouguia da Baleia e Serra d’El Rei, tendo convivido com muitos surfistas. Recentemente, foi nomeado pároco das paróquias de A-dos-Negros, Amoreira, Gaeiras, Óbidos, Olho Marinho, Sobral da Lagoa e Vau.

Diogo Paiva Brandão
Na Tua Palavra
Não nos separemos d’Ele!
por D. Nuno Brás
A OPINIÃO DE
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Outubro ficará na história da Igreja em Portugal por dois principais motivos: a entrada, para o colégio cardinalício, de D.
ver [+]

Guilherme d'Oliveira Martins
Se houve nas últimas décadas uma cristã militante social da maior relevância, exemplo do compromisso...
ver [+]

Visite a página online
do Patriarcado de Lisboa
Galeria de Vídeos
Voz da Verdade
EDIÇÕES ANTERIORES