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Guilherme d’Oliveira Martins
Setenta vezes sete…
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Pedro perguntou: «Quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?» Respondeu Jesus: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt,18, 21-22). O que está dito é que o nosso próximo é aquele que nos interpela diretamente, que precisa de nós e a quem não podemos ser indiferentes e, relativamente a ele, não devemos medir o limite da nossa resposta. Sete é o número que significa a perfeição, e devemos multiplicar essa totalidade, sem regatearmos a medida da nossa dádiva. Mas como descobrir uma medida? Importa encontrar um sentido de comunidade e de entreajuda. S. João lembra-nos que «ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo, 15, 13) – e a Exortação Apostólica «Amoris Laetitia» (AL) lembra que frutos do amor são também a misericórdia e o perdão. Falar hoje de família é compreender as luzes e as sombras, a complexidade das relações sociais – o stresse, a organização social e laboral e, nos países desenvolvidos, o facto de haver défice de nascimentos e de estarmos a envelhecer mal. Tudo isto põe em causa opções permanentes. A singularidade obriga a um sentido de comunidade, e a comunidade deve respeitar cada um. É a família que articula esses fatores. Mas a fidelidade, elo que tece as famílias, obriga à compreensão das forças e fraquezas, da conflitualidade e do sentido das relações entre as pessoas. E «a liberdade de escolher permite projetar a própria vida e cultivar o melhor de si mesmo, mas se não tiver objetivos nobres e disciplina pessoal, degenera numa incapacidade de se dar generosamente» (AL, 33). A cultura do provisório, o risco de simplificar, os egoísmos e a indiferença, o medo do outro, a recusa das diferenças – tudo nos leva a pôr na ordem do dia a capacidade de nos abrirmos à compreensão dos outros. Precisamos de preservar o espaço próprio e insubstituível da família, não podendo esquecer: (a) que não estamos perante uma abstração; (b) que a sociedade do passado deu lugar a uma realidade multifacetada e complexa a que não podemos fugir; (c) que urge criar e preservar um lugar de amor, de atenção, de cuidado, de serviço e de entendimento; (d) que temos de articular o âmbito da geração com o acolhimento da vida; (e) que devemos assumir uma noção de fecundidade alargada – que envolva não só a procriação, mas também o enriquecimento das relações pessoais. E a Exortação Apostólica assume não a perspetiva de uma família idealizada, mas o apelo à compreensão dos desafios concretos e difíceis que encontramos hoje, em nome de uma fidelidade madura e verdadeira. Em «O Amor e o Ocidente» Denis de Rougemont privilegia, por isso, a fidelidade por contraponto à paixão.

Heinrich Böll falou-nos da «teologia da ternura», e é a esta que nos devemos reportar quando falamos da singularidade e do sentido de comunidade. Quando na escola encontramos crianças que só aí têm oportunidade de uma refeição completa ou que só aí têm sossego para aprender, temos de nos perguntar como podemos preservar o lugar adequado e fecundo para a família. E não podemos esquecer a atualidade do Salmo: «Não me rejeites no tempo da velhice; não me abandones quando já não tiver forças». Não falando de uma realidade idílica, mas de um ponto de encontro de cuidado, de respeito mútuo, de reconhecimento das diferenças e de salvaguarda da liberdade e da responsabilidade, temos de dizer que anunciar o Evangelho da Família é ir ao encontro das pessoas concretas, dos seus problemas, das suas dúvidas e das suas angústias. «É preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas» (AL, 201). Daí a insistência nos valores da autonomia e da solidariedade. Não podemos deixar de cuidar da preparação e da prevenção na vida familiar. A fidelidade exige verdade, compreensão da complementaridade entre eu e o outro, «capacidade de colocar a felicidade do outro acima das necessidades próprias» e a «alegria de ver o próprio matrimónio como um bem para a sociedade» (AL, 220). A rigidez, a cegueira, a intolerância, a idolatria e o fanatismo põem em causa o amor. O bezerro de ouro está sempre a regressar. E «quanto melhor vivermos nesta terra, tanto maior felicidade poderemos partilhar com os nossos entes queridos no céu» (AL, 258). É importante valorizar a singularidade de cada pessoa – mas esta estará incompleta se não incluirmos os outros. «A família não pode renunciar a ser lugar de apoio, empenhamento e guia, embora tenha de reinventar os seus métodos e encontrar novos recursos» (AL, 260). Para o Papa Francisco, trata-se de «acompanhar, discernir e integrar as fragilidades», colocando-as no coração dos desafios humanos. É a imperfeição e a perfectibilidade humanas que estão em causa, Daí a tónica na fragilidade – para não sermos surpreendidos por qualquer tentação de esquecer o nosso irmão e o nosso próximo…