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António Bagão Félix
A Missa não é um espectáculo
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Na Audiência Geral de 8 de Novembro, na Praça de São Pedro, o Papa Francisco reflectiu sobre as exigências catequéticas tendo por base o “coração da Igreja”, a Eucaristia. Sem adornos de correcção política ou religiosa, Francisco chamou a atenção para o carácter leve, para não dizer leviano, com que alguns cristãos nela participam. Nas suas palavras “muitas vezes vamos até lá, olhamos em volta, conversamos entre nós enquanto o sacerdote celebra a Eucaristia...”.

Atentemos em mais algumas considerações de Francisco, sobre a superficialidade, desrespeito com que, muitas vezes, pretensos cristãos participam na missa: “se hoje viesse aqui o Presidente da República ou qualquer pessoa muito importante do mundo, certamente todos estaríamos próximos dele, gostaríamos de o saudar. Mas pensa: quando vais à Missa, o Senhor está lá! E tu distrais-te”. Mais à frente, em tom coloquial, mas incisivo, criticou o mau hábito – até de “alguns sacerdotes e bispos” – de usar os telemóveis durante as celebrações: “O sacerdote diz ´Corações ao alto´, não diz ´telemóveis ao alto para tirar fotografias’”. E acrescentou: “A Missa não é um espectáculo: é ir ao encontro da paixão e ressurreição do Senhor”. 

E continua: “a Eucaristia é um acontecimento maravilhoso no qual Jesus Cristo, nossa vida, se faz presente”. Com efeito, “se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 53-54).

Como católico, não posso estar mais de acordo com as palavras do Santo Padre. O mundanismo secularista ameaça a espiritualidade ínsita na liturgia. Infelizmente, são comuns actos religiosos vividos (?) como se de um qualquer acontecimento ou espectáculo se tratasse. Tenho assistido a missas com certos momentos em que o templo quase parece uma central telefónica e o silêncio uma miragem no deserto.

Neste século, as religiões em geral, e a católica em particular, precisam de se adaptar aos novos tempos e novas formas de comunicação e de relacionamento, de saberem conviver com realidades geracionais e sociais distintas, de saberem operar as reformas litúrgicas que sinais profundos dos tempos (mas não opiniões de momento) exigem. Mas também de não abdicarem de simbolismos atinentes à fé, à oração, à contemplação e ao aprofundamento da ligação entre o religioso e o espiritual.

Para quem se auto-obriga, em liberdade e sem qualquer tipo de sujeição ou de coacção, jamais a religião deve ser um espectáculo, um devaneio de opinião ou uma contrafacção.

Um símbolo pode ser para uns, com a consciência de que não é para outros. Ligado a uma pertença, deve ser um operador de reunião para uns, como será de indiferença ou separação, para outros. Na reunião, com autenticidade e testemunho. Na separação, com equilíbrio e respeito.

Custa-me ver, amiúde, matrimónios em Igrejas transformados em meros acontecimentos sociais, sem um pingo de religiosidade, com vaidades, solipsismos e tecno-expressões selfies, ignorando a ideia do templo. Custa-me ver funerais religiosos com uma impensável quebra de silêncios e do silêncio, ao menos por respeito dos vivos diante da pessoa morta.

Ainda que o canto tenha sido uma das primeiras formas de “telecomunicação” dos homens com Deus, não gosto de assistir a missas demasiado “light” sinalizadas por cantilenas musicalmente quase “pimba” com muitas pandeiretas e ferrinhos, seguidas de palminhas, e tudo para tornar menos penosa a eternidade de meia-hora da liturgia.

Como disse um dia e a propósito do mundo da Igreja de hoje, o antigo Arcebispo de Paris, Cardeal Pierre Veuillot, “tudo tem de ser puro, puro, puro. Do que precisamos é de uma verdadeira revolução espiritual”. Onde haja uma confluência exigente e não indigente de fé, espiritualidade, ética e estética. Para aqueles que acreditam ou que querem acreditar.

 

(Texto escrito de acordo com a ortografia anterior ao AO, por vontade expressa do autor)