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P. Duarte da Cunha
A continência como acto de amor é possível
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A nota do Senhor Patriarca sobre o capítulo VIII da Amoris Laetitia gerou muita perplexidade ao dizer que, às pessoas casadas pela Igreja e que depois de uma separação se juntam a outra em casamento civil, se deve propor a continência. A meu ver, o valor desta proposta não está tanto, ou só, na apresentação de uma norma justa, mas no facto de testemunhar a convicção de que a graça de Deus não é um sonho, mas uma ajuda real.

Para se perceber de que se está a falar, lembremos que a continência está ligada à virtude da castidade e que, como recordava o Papa Francisco na Amoris Laetitia, a Igreja está ciente de que “é necessário lembrar a importância das virtudes. Dentre elas –  continua o Papa – resulta ser condição preciosa para o crescimento genuíno do amor interpessoal a castidade.” (AL 206) Neste contexto, a palavra continência, longe de ser uma violência à natureza, apresenta-se como uma proposta positiva que ajuda a viver bem o amor.

É essa a experiência de quem se consagra. Os padres e religiosos(as) não são continentes porque há uma regra que os impede de seguir os instintos, mas porque respondem a um chamamento de amor e para o amor que a graça de Deus torna possível e belo seguir. A Igreja, remando contra a maré, também propõe a continência antes do casamento, não para preservar uma imagem, mas porque está certa do grande valor da comunhão de vida que uma relação sexual pressupõe e gera e que só é completa dentro do casamento.

Além disso, muitos casais, no âmbito da regulação da fertilidade, aceitam viver períodos de continência. Quando se seguem os métodos naturais como a Igreja ensina, e se o casal considera naquele momento não ser conveniente ficar à espera de um filho, há dias em que é necessário abster-se de ter relações sexuais. Também aqui a continência tem um valor positivo. É uma proposta que une a sexualidade ao diálogo e ao amor, e leva os dois a sentirem-se protagonistas de um projecto de vida totalizante, capaz de vencer os egoísmos que ainda estejam presentes. É isso que faz com que não ter relações sexuais nesses dias seja um sim de amor ao outro e à comunhão dos dois.

É neste contexto que se pode perceber que, numa situação em que duas pessoas recasadas, cuja separação poderia ter consequências complicadas para si e para outros – especialmente para filhos que tenham nascido desta segunda união – mas em que há um desejo real de viver na fidelidade a Deus se deve propor que vivam como irmãos.

Sim, é verdade que a Igreja sabe que está a propor algo de exigente a pessoas frágeis. Somos todos frágeis! Mas a Igreja não propõe aos seus filhos coisas estranhas! Ela faz propostas que têm em vista o bem maior de todos. Ela vê através da fé que o amor aprendido em Jesus Cristo e tornado possível com a Sua Páscoa renova a pessoa e torna-a mais feliz.

O Senhor Patriarca, além disso, explica justamente que, porque nem sempre conseguimos ser fiéis ao que sabemos ser bom e que decidimos sinceramente seguir, se depois desta decisão se cai na tentação e se têm relações sexuais, é possível pedir perdão através do sacramento da confissão. A mim isso parece completamente correcto, e não tem nada a ver com hipocrisia. Tem a ver com a certeza que o ideal cristão é bom para todos e liga-se à consciência da fragilidade da pessoa. Um paradoxo que só a misericórdia de Deus consegue resolver.

Acontece o mesmo quando num casal um dos esposos cai na tentação do adultério; ou um padre é infiel ao celibato; ou um namorado tem relações sexuais com a namorada. Quando alguém tem fé na misericórdia de Deus, sabe e acredita que depois de realizar um acto errado, se se dá conta do mal feito a si e aos outros e se arrepende, não está condenado porque olha para Deus como um Pai. Confiar no perdão não conduz ao relativismo que tudo desculpa, mas abre ao horizonte da reconciliação e da santidade.

Pela fé, não se vive a continência como uma castração ou uma distração do instinto, mas como um sinal concreto do amor e da vida em Cristo. A proposta da continência, por isso, parecerá sempre impossível a quem só raciocina com o intelecto ou se limita a seguir a mentalidade dominante e não se dá conta da potência da graça de Deus. Mas quem vive com Deus e, mais ainda, vive em Deus – e muitos casais vivem assim, e muitos divorciados querem viver assim – experimenta na continência uma paz e uma serenidade que o “mundo” não conhece. A Igreja, na fidelidade a Jesus Cristo, acredita que esta proposta seja boa e possível, mas não se limita a fazer um discurso, ela é companhia, presença, apoio contínuo que torna presente o próprio Deus.

Uma última palavra para agradecer o facto de esta proposta não se dirigir apenas a uns poucos que se pensam capazes de chegar aos ideais. O Senhor Patriarca mostra bem que confia que a graça de Deus está disponível para todos os que se abrem a ela.