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‘Da Palavra Nasce a Vocação’
“A ordenação não me pertence”
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O diácono Rui Fernandes, jesuíta, está em Beirute, a capital e maior cidade do Líbano, mas vai voltar a Portugal, em junho ou julho próximo, para ser ordenado padre, em Braga. Conheça o seu testemunho, na rubrica ‘Da Palavra Nasce a Vocação’.

 

Os poetas bíblicos

Na Bíblia contam-se inúmeras histórias onde pululam personagens, umas tão grandes que merecem livros inteiros, outras tão discretas que mal lhes sabemos o nome. Embora, como leitor, vibre com muitas figuras bíblicas - é impossível não admirar José e os seus sonhos, ou a forma como Isaac carrega a lenha para o seu sacríficio adiado; é impossível não ficar apaixonado por Rute, ou não suspirar por amores como os que deslizam no Cântico dos Cânticos; é impossível não empatizar com a humanidade corajosa mas frágil de David -, a verdade é que, à medida que o tempo passa, há um conjunto de «personagens» bíblicas que me toca cada vez mais: os escritores dos textos. 

Sejamos claros: o escritor do livro do Êxodo, por exemplo, não está metido na história do mesmo modo que Moisés ou o faraó estão; o escritor não é uma personagem da história. Porém, a forma de contar revela um pouco da pessoa por detrás das letras: não só do seu talento e formação, mas também do seu mundo, das suas preocupações, da sua sensibilidade, das suas convicções. E, nesse sentido, os textos também me põem em contacto com os seus autores - embora de forma discreta e indirecta. Quanto mais leio, mais me pergunto: de onde lhes vieram aqueles cenários? Porque os pintaram daquela maneira? Os textos que mais me inspiram estas interrogações são os poemas bíblicos.

A poesia está presente em vários textos bíblicos, mas nenhum lhe dá protagonismo como o livro dos Salmos. Este livro é uma colecção de 150 poemas, muitos deles compostos para serem usados na liturgia judaica. Sabemos os nomes de alguns dos (possíveis) autores: David, Salomão, Assaf, Heman, Jedutun, Moisés. Percebe-se, também, que estes poemas têm categorias diferentes: uns são hinos; outros, acções de graça; certos poemas são autênticas confissões; noutros suplica-se por justiça, por cura ou por socorro; nalguns medita-se sobre o passado, enquanto outros lamentam ou celebram o presente; há salmos que cantam a majestade e sabedoria divinas, e salmos que louvam a acção de Deus no mundo.

No entanto, o que mais me impressiona nos salmos é a sua autenticidade. Nos salmos há gargalhadas e saltos de alegria, mas há também tristeza e revolta. Os salmos testemunham uma profunda confiança em Deus, mas não escondem também as dúvidas, hesitações e perplexidades dos seus compositores perante o mal, a dor ou o aparente silêncio de Deus. Os salmos proclamam a misericórdia de Deus, mas não calam nem maquilham a verdade das nossas emoções por vezes violentas e vingativas. Os salmos descrevem a beleza do mundo e fazem rimas às festas nupciais, mas choram também perdas e remorsos. Por tudo isto, apesar de termos 2000 e tantos anos a separar-nos, sinto-me muitas vezes contemporâneo destes escritores. «Sei do que estão a falar», quando leio muitos dos seus versos: conheço os sentimentos que descrevem (gratidão, alegria, confiança, devoção; tristeza, dor, dúvida, solidão; violência, maledicência, duplicidade; contrição). Os poetas bíblicos são meus companheiros de viagem; os salmos são as nossas conversas.

 

Isto de ser companheiro

No dia 22 de Abril de 2017, fui ordenado diácono na igreja de Saint Ignace, dos jesuítas, em Paris. Lembro-me bem dos meus sentimentos no início da missa: muita alegria, mas também um forte sentimento de responsabilidade. Na minha cabeça, compreensivelmente, o que estava em jogo era o meu desejo de fidelidade e de seriedade porque, afinal de contas, ia prometer a Deus, perante a comunidade, que queria viver em obediência, pobreza e castidade até ao fim da minha vida.

Quem já participou numa ordenação já terá visto que, a dado momento do ritual, os que vão ser ordenados se deitam no chão enquanto o coro e a comunidade cantam a ladainha dos santos. Pois bem: foi ali, estendido sobre o tapete cinzento da igreja, rodeado por tantas pessoas amigas, que me apercebi de algo fundamental: a ordenação não me pertence. Comigo, naquele chão, estava a minha família, os meus amigos, os meus companheiros; estavam os anjos e os santos de todos os tempos e lugares; estavam as vítimas, os pobres, os sofridos, mas também os seus algozes; estava aquele alguidar, os pés descalços, e os joelhos de Deus. O mundo estava todo ali, estendido.  

Foi também naquele chão que me apercebi que estava rodeado por uma assembleia de diáconos, ou seja, por uma comunidade de pessoas dedicadas ao serviço dos outros: pais que cuidam dos filhos; profissionais responsáveis; amigos atentos e próximos; leigos, religiosos, padres e bispos comprometidos; pessoas dedicadas aos mais pobres. De algum modo, senti que naquela ordenação se estava a celebrar a vida dessa lista tremenda de «diáconos anónimos» mas efectivos. Descobri, para descanso dos meus nervos e escrúpulos, que estava cheio de sorte: não me faltam exemplos quotidianos de serviço.

Talvez esta descrição pareça estranha, como testemunho de vocação, mas explico-me. Sei bem que a minha opção de vida tem alguns aspectos invulgares: sou celibatário; vivo em comunidade, com quem rezo, como, discuto, trabalho e partilho o dinheiro; tento ser obediente e assumir com todo o empenho as tarefas que me são destinadas (o que pode passar por ir para países exóticos, ou viver uma vida atrás de uma mesa); quando falo publicamente, sei que o faço a título simultaneamente pessoal (é o Rui que fala) e institucional (é um jesuíta que fala), o que exige lealdade, liberdade e bom-senso (assim o desejo!). Se estas alíneas acentuam uma certa diferença no estilo de vida, a verdade é que, a um nível mais quotidiano e, diria até, existencial e espiritual, não me sinto assim tão «estranho». Vivo na pele a alegria e a dificuldade de ser fiel, de partilhar um tecto, de lidar com diferentes formas de pensar e agir, de trabalhar com outros, de ser livre para usar bem as coisas, de querer rezar. De resto, a minha vocação não faria sentido se me afastasse dos outros. Bem pelo contrário: estou convencido de que a minha vocação passa por ser companheiro - de Jesus e dos outros. A maior partida que Deus me fez não foi a de dizer «esquece: não te vais casar!», mas sim «deixa-te de manias: aprende a estar com os outros; com todos». 

Se há algo que hoje me move e alimenta a minha vocação é o desejo de animar os outros, redescobrindo o gosto pela vida, apesar dos absurdos de que ela também é feita. Essa será a minha/nossa forma de continuar a compor e trocar salmos.

testemunho pelo diácono Rui Fernandes, sj

 

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‘Geocaching Vocacional’: Irmãs de S. José de Cluny

Voltadas para o outro

 

Na rúbrica ‘Geocaching Vocacional’ deste mês vamos conhecer as Irmãs de S. José de Cluny, uma congregação cuja fundadora pediu religiosas “forradas de carmelita”.

 

Encontram-se nos cinco Continentes do mundo com uma presença ativa e voltada para o outro não descuidando os momentos altos de oração porque a sua Fundadora, Ana Maria Javouhey, diz que “uma Irmã de S. José deve ser forrada de carmelita”.

Têm uma vida ativa na educação, na saúde na pastoral paroquial, na pastoral Juvenil/ Vocacional, ou seja, onde houver bem a fazer e sofrimento a aliviar aí está a Irmã de S. José de Cluny.

Na Província Portuguesa marcam presença de norte a sul. Em Lisboa encontram-se em três pontos da cidade: Mouraria, no Centro Social do Menino Deus, uma IPSS intercultural, pois frequentam este centro crianças de muitos países. Marca muito o desejo que a Fundadora tinha e legou: “Pôr o Homem de pé”. Não há raça, nem fronteira, há sim a PESSOA a ajudar. Em Alcântara num bairro social onde a presença das Irmãs é sinal de comunhão, solidariedade, ajuda e paz para os sem voz. No Centro Social em S. Sebastião uma IPSS com duas valências e ajuda aos sem-abrigo. São cerca de 80 pessoas que, pela manhã, vão buscar a sua refeição e ao fim da tarde cerca de 20 pessoas recebem refeições oferecidas às Irmãs. Estas, têm o cuidado de condicionar e distribuir para que ninguém fique com fome. Grandes Respostas, Grandes Desafios, Grande Audácia ao jeito de Ana Maria Javouhey.

 

texto pela Ir. Maria Bela

 

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Aconteceu

PIT STOP – paragem técnica

 

Decorreu no passado fim de semana (25-27 de Maio), no Seminário de Caparide, o Retiro PIT STOP organizado pelo Sector de Animação Vocacional da Diocese. Fica o testemunho de uma participante.

 

Deus, muitas vezes, vai-se metendo connosco, desafiando-nos e fazendo-nos perguntas que nem sempre parecem ser para nós, mas desde vez, para que não houvesse margem para dúvidas o desafio veio expresso e direccionado para mim: “Andas a mil?” e, antes mesmo de dar por ela, já eu tinha respondido “Sim!”.

O retiro Pit STOP, dinamizado pelo SAV, permitiu isso mesmo, baixar a velocidade, parar, para olhar à minha volta e encontrar a Voz de Deus, que me vai segredando, mas nem sempre tenho tempo ou atenção para ouvir.

Ao longo de todo o fim-de-semana, tivemos a companhia da apóstola dos apóstolos, Maria Madalena, que nos foi dando pistas da transformação que Jesus pode dar à nossa vida. Todas as perspectivas que nos foram apresentadas pela Equipa, pediam uma reflexão da minha parte: Que feridas, que demónios apresento a Jesus? Deixo-me curar por Ele? Sirvo-O com todos os meus bens? Como O anuncio?

Apesar de todas as questões, muitas delas sem resposta ou pelo menos uma resposta firme da minha parte, foi no encontro cara a cara com Nosso Senhor, que pude parar verdadeiramente e apresentar-me “inteira” diante Dele.

É nestas oportunidades de encontro que fortaleço a minha relação com o Deus da Paz que não nos deixa em paz e que percebo que, apesar de estar acomodada a ser uma “das mulheres que acompanhava Jesus”, das quais não conhecemos o nome ou a história, que Ele me chama pelo nome e que tem um projeto para mim. É urgente ouvir esse chamamento de Deus na minha vida pois, para quê parar, se não para mudar o rumo e projetar a minha vida para eternidade?

Trago na minha mochila esta vontade e nas minhas orações cada um que preparou este encontro e todos os que nos acolherem de uma forma tão generosa no Seminário de Caparide.

texto por Patrícia Dôro

 

Nota do Sector de Animação Vocacional:

Este retiro foi pensado para quem anda a mil à hora na vida e precisa de fazer uma paragem rápida para retemperar forças e ver com mais clareza o que se segue no seu caminho - assim como os carros da fórmula 1 que fazem a chamada "Pit Stop" a meio da corrida para encher o depósito e alinhar a direção. Para o próximo ano pastoral estão já previstos três retiros Pit STOP. Se andas a mil, fica atento(a), porque estes retiros são para ti!

  

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AGENDA

JUNHO

2 a 4 | Retiro Vocacional do Pré-Seminário (Para rapazes do 12º ano e universitários)

26 a 29 | Estágio do Pré-Seminário (7º e 8º anos)

JULHO

1 | Ordenações

2 a 6 | Campanário do Pré-Seminário (9º)

9 a 13 | Campanário do Pré-Seminário (10º e 11º anos)

11 a 15 | Luzeiros de Verão - Campo Vocacional para Raparigas (7º ao 9º e 10º ao 12º)

20 a 27 | Semana de Verão (Para rapazes do 12º ano e universitários)

textos pela Pastoral das Vocações
Na Tua Palavra
Não nos separemos d’Ele!
por D. Nuno Brás
A OPINIÃO DE
António Bagão Félix
Na semana passada li uma entrevista com um candidato a deputado (cabeça-de-lista) pelo circulo eleitoral do Porto.
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P. Manuel Barbosa, scj
Com “missão nas férias” não quero propor programas de férias missionárias, nem dizer que a missão está de férias.
ver [+]

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