Entrevistas |
Padre Duarte Morgado, presidente da direção da Confraria do Círio dos Saloios de Nossa Senhora do Cabo Espichel
“Perceber que a Mãe de Deus está entre nós”
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O Círio Saloio de Nossa Senhora do Cabo Espichel “é das tradições mais antigas da nacionalidade portuguesa”, que deve ser “aproveitada pelas paróquias que a recebem como uma oportunidade pastoral”. A opinião é do presidente da direção da Confraria do Círio dos Saloios de Nossa Senhora do Cabo Espichel, padre Duarte Morgado, em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE.

 

Foi eleito, no passado dia 3 de junho, presidente da direção da mesa administrativa da Confraria do Círio dos Saloios de Nossa Senhora do Cabo Espichel. Que Confraria é esta?

Na segunda metade do século XV, foi fundada uma Confraria que procurava reunir as comunidades e promover o culto à Senhora do Cabo. O Círio Saloio é uma realidade que vem do tempo medieval. É uma prática de romaria, de peregrinação, de procura, como todas as tradições que são chamadas de Círios. A memória mais antiga que nos chega do Círio Saloio é da Chancelaria do Rei D. Pedro I. A partir de 1430, mais concretamente, temos a certeza de um Círio organizado que envolvia, na região norte de Lisboa, cerca de 30 paróquias. Esta Confraria conheceu, pelo menos, dois momentos importantes: o da fundação e uma reforma, concretamente nos finais do século XVII. No final do século XIX, a Confraria acaba por morrer por si própria, não por extinção canónica, decretada pelo Bispo, mas talvez porque, provavelmente, deixou de haver quem a assumisse – até porque esse é um período que se caracteriza por alguma fragilidade das comunidades cristãs. Passados estes mais de 100 anos, com a oportunidade da visita da Senhora do Cabo à Paróquia de Loures em 2016 – e aproveitando todo o trabalho que as comunidades de Sintra e Belas tinham vindo a fazer nos últimos 10 anos, com momentos de reflexão, formação e de consciencialização da necessidade de retomar não só a Confraria mas de fixar os costumes e as tradições que se julgavam um pouco perdidos nas comissões de festas e em cada comunidade paroquial –, quisemos pegar neste trabalho feito, motivar essas comunidades e outras que, historicamente, estão ligadas ao Círio, e avançar para a Confraria.

 

Qual a missão da Confraria?

São vários os objetivos da nossa Confraria. Acima de tudo, é uma Confraria católica, uma associação privada de fiéis, que pretende cumprir a sua missão católica e, como tal, a partir do culto mariano, desenvolver todas as ações que um católico ou uma instituição católica devem realizar no território, nomeadamente: acolher, promover e dignificar o culto a Nossa Senhora; ajudar a coordenar o Círio – não pretende substituir as comissões de festas, pretende sim auxiliar as várias comissões, que são autónomas e únicas, para que cada comunidade possa receber dignamente a imagem de Nossa Senhora do Cabo –; promover a investigação e o estudo histórico da própria tradição do Círio dos Saloios; salvaguardar o tesouro do Círio e dá-lo a conhecer, de forma digna. Como obra católica, a Confraria pretende também rezar pelos irmãos que já partiram, motivar, incentivar e apoiar para a vocação à santidade de todos nós, ajudar aqueles que mais necessitam, colaborar com as paróquias que recebem a tradição, zelar para que esta tradição não caia e, por fim, coordenar os aspetos administrativos.

 

Quem pode pertencer à Confraria do Círio dos Saloios de Nossa Senhora do Cabo Espichel?

Pegámos em alguns materiais que nos chegaram através de investigadores e também das comissões de festas de Sintra e Belas, e encontrámos uns estatutos já muito desadequados à nossa realidade pastoral e social. Havia até elementos que, hoje, eram totalmente discriminatórios, mas que têm de ser entendidos à época. Numa atualização, e de acordo também com aquilo que está previsto para as associações privadas de fiéis, nós encontrámos duas nomenclaturas para distinguir os irmãos: todo o irmão, toda a pessoa, todo o católico que queira integrar a Confraria é designado de ‘Romeiro’, porque essa é a atitude de quem se reconhece peregrino em direção a um santuário; na direção, nós designamos por ‘Mordomos’. É interessante, e este é um aspeto que quisemos salientar para dar também um carácter único a esta Confraria: só pode fazer parte dos Mordomos quem seja Romeiro paroquiano das paróquias que integram o Círio Saloio. Se eu for de Coimbra, por exemplo, posso ser Romeiro, mas não posso ser Mordomo. Isto é para salvaguardar que a identidade das comunidades originais nunca se perde e para que as comunidades se sintam vinculadas à própria Confraria. Queremos que esta identidade do Círio Saloio não termine, mas seja rica na sua expressão. Neste momento, temos 114 irmãos ou confrades, todos Romeiros e, alguns deles, Mordomos, e a expectativa é aumentar este número.

 

Qual a importância, para as paróquias, de receberem, a cada 26 anos, o Círio Saloio, com a imagem de Nossa Senhora do Cabo?

A realidade da Senhora do Cabo não alcança, desde o século XVIII, as 30 paróquias originárias, mas 26. Com a Confraria, queremos que as comunidades cristãs possam voltar a ter o chamado Giro Saloio, porque são mais de 600 anos de história da tradição. 1430 é o ponto de partida, mas, tal como referi, ela já existia desde D. Pedro I, ou seja, século XIV. Isto é, sem dúvida, das tradições mais antigas da nacionalidade portuguesa.

Acredito que a passagem do Círio Saloio marca o tempo nas comunidades. Há pessoas que dizem: ‘A minha neta nasceu no ano anterior à visita’ ou ‘A minha filha fez a Primeira Comunhão três anos depois da visita’. No entanto, a Confraria tem sentido que é necessário desmistificar o que respeita ao tradicional Giro, no sentido de que a vinda da imagem à comunidade deve ser, em primeiro lugar, um momento pastoral. Porquê? Porque falamos de comunidade católica e uma tradição da devoção mariana. Nossa Senhora já está connosco, mas receber aquela imagem traz consigo uma identidade secular consciente de que estamos em terras de Santa Maria. Portugal faz parte dessas terras – de norte a sul do país temos representações de Nossa Senhora em todo o lado –, mas quando pensamos neste Giro, nesta tradição, ele deve ser, acima de tudo, uma ocasião pastoral. Tal como é quando a imagem de Nossa Senhora de Fátima vai a uma paróquia, porque é exatamente a mesma Mãe de Deus. São invocações às quais devemos estar atentos, que não partem de nós neste tempo, mas que nós recebemos.

 

A imagem fica um ano em cada paróquia. O que é importante nesse tempo?

A presença do Círio Saloio nas comunidades tem uma força avassaladora, porque traz toda a gente até à igreja. No entanto, é preciso desmistificar a grandiosidade e a solenidade como se recebe o Círio Saloio, porque cada comunidade é única. As paróquias simplificarem o programa não é importante… uma não tem de ser melhor que a outra. É verdade que há sempre aquela expectativa de como vai ser o programa de festas para o Círio Saloio, mas isso também é importante para nos educar a todos, porque quem vai à espera de uma vaidade pela vaidade também se vê confrontado com a realidade pastoral. O que temos para oferecer é isto: a Mãe de Deus está entre nós, vamos rezar, vamos pedir-lhe e vamos invocar-lhe. Se depois posso ornamentar, decorar, enriquecer com um programa cultural, isso é bom trabalhar, assim como envolver o poder político, as autoridades civis e a própria sociedade, mas o importante é perceber que a Mãe de Deus está entre nós. A função das imagens e das tradições religiosas é representar, tornar presente, uma realidade e essa realidade é que a Mãe de Deus está sempre connosco.

 

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“Uma oportunidade pastoral extraordinária”

No ano pastoral 2016/2017, a Paróquia de Santa Maria de Loures recebeu a visita de Nossa Senhora do Cabo. “Pastoralmente, foi muito importante receber o Círio Saloio, na relação com a sociedade local, até como expressão da presença da paróquia na cidade”, manifesta ao Jornal VOZ DA VERDADE o padre Duarte Morgado, que é também vigário paroquial (coadjutor) da Paróquia de Loures. “A paróquia é muito dinâmica, em especial pelo trabalho do pároco, o padre Chico [Francisco Inocêncio], mas estava a perder alguma força e alguma expressividade que, com a Senhora do Cabo, voltou a ganhar”, salienta o jovem sacerdote, de 30 anos, justificando: “Nós ‘metemo-nos’ com os comerciantes, com as autoridades, com o poder civil, com as associações. ‘Metemo-nos’ com todos! Não houve ninguém que não fosse convidado, porque quisemos que fosse uma festa da freguesia, quisemos que a freguesia sentisse que esta era a sua festa. A verdade é que isto foi, de facto, um ganho muito grande para todos”.

O padre Duarte destaca a oportunidade de evangelização que foi a presença de Nossa Senhora do Cabo em Loures. “Uma das graças que recebemos foi a reintegração, ou a integração, de membros na comunidade. Pessoas que estavam afastadas da comunidade paroquial e até da própria prática católica. Além disso, houve também o fortalecimento dos laços da comunidade cristã. A ida da imagem aos vários lugares da paróquia aproximou os vários membros das comunidades paroquiais. Foi uma oportunidade pastoral extraordinária”, assegura.

No dia da chegada do Círio Saloio, segundo contagem feita com a Câmara Municipal, estiveram presentes mais de 25 mil pessoas. “Na noite da chegada, um sábado, Loures estava parada! O cortejo foi monumental, foi impactante. A presença da imagem foi muito importante e ainda hoje as pessoas falam do acontecimento”, refere o sacerdote, lembrando que “o poder político se viu surpreendido pela dimensão e pela densidade desta festa”. “Vêm saloios de todo o lado. Vêm ver, vêm rezar, vêm participar. Durante a primeira semana tivemos, todos os dias, Missa e Terço e a igreja quase sempre cheia, porque as pessoas vinham ver a Senhora do Cabo. Claro que foi uma oportunidade para haver confissões, uma oportunidade para haver oração do Terço, uma oportunidade para haver Missas… o que é que eu posso querer mais? Não fazer nada é deitar fora uma oportunidade pastoral”, salienta o presidente da direção da Confraria do Círio dos Saloios de Nossa Senhora do Cabo Espichel.

 

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A imagem primitiva de Nossa Senhora do Cabo

A atual imagem de Nossa Senhora do Cabo, esculpida no século XVIII para continuar a fazer o Giro Saloio, não é a mais antiga. A primeira, a imagem dita primitiva (na foto), está no Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel, é datada do século XIV e está a precisar de restauro. “Uma das missões importantes da Confraria é estreitar a relação com o Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel, até porque dois dos altares – o altar de São Joaquim e o altar de Santa Ana –foram mandados fazer pelo Círio dos Saloios”, refere o padre Duarte Morgado.

entrevista por Diogo Paiva Brandão; foto por Paulo José das Neves e Arquivo
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