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P. Duarte da Cunha
Deus quer a vida e não a morte
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Terminada a discussão sobre a eutanásia no Parlamento, os que se esforçaram para que a vida de uma pessoa doente fosse respeitada nas leis nacionais com toda a sua inviolabilidade sentem que valeu a pena rezar, lutar, discutir, ilustrar o que estava em jogo. Sabemos, porém, que quem está na perspetiva da cultura da morte, não desiste e podemos esperar que a tradicional aliança entre alguns meios de comunicação social e alguns jornalistas, juntamente com alguns políticos e com diversos grupos, mais ou menos organizados e mais ou menos ocultos, continue a fazer a sua campanha com o intuito de criar uma opinião pública favorável e daqui a uns meses voltar à carga. A Igreja também não pode baixar os braços. Porque o facto de ser o Corpo de Cristo ressuscitado a faz especialmente responsável por tudo o que seja defender a vida humana.

No debate houve uma declaração que me pareceu particularmente ajustada. Foi da deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua. Após a intervenção do deputado comunista que explicou as razões do não aos projetos em discussão por parte do seu partido, ela disse: “está lá fora uma concentração que lhe pede que vote contra a despenalização da morte assistida, como aliás irá fazer. Essas pessoas, que estão no seu direito, entendem que a vida não é de quem a vive, mas de um poder transcendente”. Eis aqui a grande questão.

Nós estamos convencidos que a vida tem um sentido que ultrapassa o indivíduo, é verdade, por isso, que não aceitamos que a vida seja só de quem a vive. A vida de cada pessoa está ligada a tantas outras e ninguém pode dizer que a sua vida é um assunto que só lhe diz respeito a si! Mais ainda, a vida é de Deus. Ele nos criou e Ele nos prepara uma morada eterna. Aqui está a nossa discordância com quem defende a eutanásia. Para nós a pessoa humana não é uma ilha e não depende só de si e, por isso, a morte não pode ser uma decisão humana, mas deve ser uma aventura vivida com outros que acompanham e ajudam.

Talvez seja bom, por tudo o que está a acontecer neste debate em Portugal e noutros países europeus, e em vista do que virá, recordar que a morte é parte integrante da vida e que a maneira como se morre está unida a toda a consciência que se tem sobre o sentido da vida. Não podemos fugir nem da vida nem da morte. Lembro um desabafo de C.S. Lewis no seu livro Dor que fala do sofrimento e da morte da sua mulher. “É difícil ser paciente com as pessoas que dizem “a morte não existe” ou “a morte não tem importância”. A morte existe. E o que quer que exista tem importância. E o que quer que aconteça tem consequências, e umas e outras são irrevogáveis e irreversíveis.” (Dor, ed. Grifo. p.29)

Acompanhando tantas pessoas e tão diferentes umas das outras no fim da vida e celebrando funerais onde familiares e amigos choram os que partiram, sei bem que a morte é demasiado séria para ser tratado como uma coisa irrelevante ou como solução para o sofrimento. A morte banalizada, como acontece em tantos filmes, parece não trazer nenhum drama e aos poucos afasta a consciência das pessoas do drama envolvido. Mas na realidade não apaga a dor de quem vê os queridos partir e não afasta o medo do que virá depois.

É esta dramaticidade da morte que eu penso estar a ser banida da sociedade e que deixa muita gente iludida a pensar que a morte é uma decisão da pessoa que só tem como consequência o fim do sofrimento. Mas avivar a pergunta sobre o sentido da vida e sobre o significado da morte não é propaganda da Igreja ou das religiões, está dentro da pessoa, de qualquer pessoa. Ninguém consegue evitar a pergunta sobre o que será depois da morte.

A vida depois da morte, tal como a nossa fé em Jesus Cristo morto e ressuscitado ensina, será uma vida nova, mas a pessoa é a mesma quer quando vive na terra quer quando passa para a outra vida, e a memória do que é e do que fez permanece quer no seu coração quer no Coração de Deus. Há continuidade entre o aqui e o depois da morte. Por isso a Igreja fala de juízo, porque modo como vivemos pode ser ou não correspondente à verdade e ao amor, ou seja, podem abrir-nos a Deus ou fecharem-nos em nós mesmos! Será que quem decide matar outra pessoa tem consciência que não está só a dar descanso, mas também está a colocar a pessoa diante deste juízo? E será que se dá conta que ao tirar a vida a uma pessoa, mesmo que esta lhe peça, está a tomar o lugar de Deus? E se pretende assumir esta responsabilidade como explicará isso a Deus no momento da sua própria morte?