Lisboa |
1º GENTESfest da Cáritas Diocesana de Lisboa
Diálogo(s) entre culturas
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Foi um encontro que reuniu pessoas vindas da Índia e de França, mas também religiosas, mulheres ciganas, rapazes institucionalizados ou mães acompanhadas dos seus filhos. “Quisemos reunir a nossa diversidade”, refere Henrique Pinto, da Cáritas Diocesana de Lisboa, que organizou, na cidade lisboeta, o 1º GENTESfest – Partilha a Viagem.

 

Filho de pai português, Marcelo Fernandes é natural de Goa, na Índia, e participou no 1º GENTESfest em Lisboa. Apesar de estar em Portugal há 13 anos, Marcelo não fala a língua de Camões. “Passei muitos anos fora, na Tanzânia, no Dubai, no Canadá”, justifica. A barreira linguística não impediu Marcelo de participar nesta iniciativa da Cáritas Diocesana de Lisboa e de partilhar, com outros, as suas viagens. “Está a ser muito agradável. Está um dia muito bonito e é bom haver estes encontros de diferentes culturas. É uma boa iniciativa”, garante, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Marcelo participou no GENTESfest por convite da organização. “Conheci o Henrique Pinto, da Cáritas de Lisboa, através da Cais, uma associação que ele fundou. Foi o Henrique que me convidou a estar presente, para também poder partilhar as minhas viagens pelo mundo”, conta Marcelo, um católico indiano descendente de portugueses, que mora atualmente em Chelas e participa na Missa na igreja de Santa Beatriz da Silva.

 

Sensível aos refugiados

O ‘GENTESfest – Partilha a Viagem’ decorreu durante todo o dia 23 de junho, sábado, no Jardim Vasco da Gama, em Belém, Lisboa, e foi dedicado à promoção da cultura do encontro, tendo como foco os refugiados e migrantes. A iniciativa da Cáritas Diocesana de Lisboa foi uma resposta à campanha da Caritas Internationalis ‘ShareJourney’, abraçada e promovida pelo Papa Francisco, que tem como objetivo precisamente a promoção da cultura do encontro entre pessoas dos mais variados cantos do mundo.

Patrícia Almeida Garrett também participou, juntamente com o marido e os três filhos, nesta primeira edição do GENTESfest, na cidade lisboeta. “É importante este encontro, é importante as pessoas saberem que a Cáritas Diocesana de Lisboa está sensível a este problema dos refugiados e é também uma maneira de conviver com pessoas de diferentes origens, diferentes culturas e partilhar experiências”, ressalva, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Mãe de três crianças, com 5, 6 e 7 anos, Patrícia considera ser importante os filhos conheceram novas realidades do mundo, diferentes do seu dia-a-dia. “Eles comentaram-me logo que as pessoas que estão a participar no GENTESfest são todas inglesas! O que, para eles, quer dizer que são estrangeiras”, graceja. “As crianças estiveram comigo, em algumas conversas, a partilhar experiências. Ouviram, por exemplo, uma irmãzinha que esteve muito tempo em África e que contou algumas histórias. São modos de vida muito diferentes dos nossos, com dificuldades que nós nem imaginamos, e esta partilha enriquece-os muito”, aponta Patrícia, natural de Lisboa e da Paróquia de Santo Condestável, que trabalha na promoção do Projeto Amigo, da Cáritas Diocesana de Lisboa, de recolha de roupa usada através dos contentores amarelos espalhados pelas ruas.

 

De famílias para famílias

A Fundação Obra do Ardina, instituição de acolhimento de rapazes, quis também marcar presença no GENTESfest e, com isso, “promover junto dos miúdos o que é comunidade e o que é conviverem com outras pessoas, tendo elas as ideologias que tiverem”. “Para nós, foi um encontro de famílias para famílias. Esta família grande que o Papa Francisco deseja que sejamos, mas que muitos não querem dizer presente”, frisa o diretor, Carlos Diogo, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Para este responsável, o GENTESfest “ajudou os rapazes a perceberem que tem de haver abertura a todos e respeito pela dignidade da pessoa humana”.

Nos dias de hoje, a Obra do Ardina é uma casa com 28 crianças e jovens, “com a média de idades de 18,2 anos, a mais elevada da distrital de Lisboa”, sendo que o mais novo tem 13 anos. “Levámos cerca de metade da casa ao encontro e connosco estiveram quatro famílias, o que foi fantástico. Poder estar com estas minorias, como vivenciámos no GENTESfest, e perceber que cada um deles podia trazer para casa mais um amigo – ou, se não um amigo, mais um conhecido –, com experiências e saberes diferentes, valeu muito a pena”, acentua Carlos Diogo, que está na Obra do Ardina desde 2011.

 

Entrosar com outras culturas

Maria da Conceição Rolo, da A.L.É.M.- Associação Literatura, Literacia e Mediação, chegou aos jardins de Belém acompanhada de algumas das ‘suas’ mulheres ciganas. “É fundamental que estas mulheres se entrosem com outras culturas”, refere a vice-presidente desta associação, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Fundada em 2011, a A.L.É.M. tem experiência com famílias ciganas que “vem de há muito tempo”. “As suas raízes remontam ao trabalho pioneiro do Centro Paroquial de Santa Maria de Belém, com populações muito vulneráveis, incluindo famílias ciganas, ao tempo do padre Felicidade Alves, nos anos 60”, conta Conceição. Encontros como este, do GESNTESfest, ajudam as mulheres ciganas a “encontrar a sua história” e a “conhecer as raízes dos outros”. “É fundamental que haja este diálogo entre culturas. É neste diálogo que poderemos valorizar o que é muito valorizável na cultura cigana, como o respeito pelos mais velhos, o amor pelas crianças ou o gosto de estar em família”, enumera.

A A.L.É.M. trabalha também nas escolas, com os filhos das mulheres ciganas. “A maior dificuldade é conseguir sentar uma criança cigana. Por isso, começamos, desde muito cedo, a contar-lhes histórias no tapete, depois as crianças desenham as histórias”, explica Maria da Conceição, professora.

 

Reunir a diversidade

Com a organização do 1º GENTESfest – Partilha a Viagem, a Cáritas Diocesana de Lisboa pretendeu “reunir a nossa diversidade”. “Por vezes, as pessoas esquecem-se que todos os povos e nações são fruto da migração”, lembra Henrique Pinto, ao Jornal VOZ DA VERDADE, destacando os momentos de encontro que esta iniciativa proporcionou: “Quando saímos e regressamos a casa, a preocupação é levar coisas, aquilo que conseguirmos apanhar deste mundo em que vivemos; mas, com esta atividade, as pessoas regressaram a casa com um nome e o contacto de uma pessoa que nunca tinham encontrado na sua vida e que este evento nos proporcionou conhecer pela primeira vez”.

Henrique salienta também a presença de dois jovens voluntários de França e sublinha que o GENTESfest foi organizado no âmbito de uma campanha internacional, apoiada pelo Papa Francisco, que “visa o encontro e o partilhar viagens”. “Foi também isso que procurámos fazer. Pelas reações que tivemos, as conversas, dois a dois, foram tremendamente enriquecedoras. Tivemos, por exemplo, mulheres ciganas que disseram nunca ter estado numa festa tão interessante e tão bela como esta”, assinala. O responsável da Cáritas de Lisboa, que coordenou esta iniciativa, destaca também a presença e o testemunho das Irmãzinhas de Jesus, que estão presentes no bairro da Quinta da Fonte, na Apelação, Loures. “São religiosas que estão numa situação tremenda, na periferia de Lisboa, e que vivem com migrantes”, aponta. Os rapazes e jovens da Casa do Ardina foram também presença notada nesta ação que decorreu nos jardins de Belém, junto ao pagode tailandês. “Segundo me explicou o diretor, a instituição procura sempre responder a iniciativas em que a diversidade, a alegria e o encorajamento são objetivo”, frisa Henrique Pinto, da Cáritas Diocesana de Lisboa, que organizou o 1º GENTESfest, na cidade lisboeta. “Quisemos reunir os povos e, mesmo sabendo que as coisas não acontecem de um dia para o outro, acredito que estamos no bom caminho”.

 

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GENTESfest e a parábola do Banquete do Reino

Verdadeiras ‘Altas Figuras’ da nossa sociedade estiveram presentes no 1º GENTESfest da Cáritas Diocesana de Lisboa. Estes não eram os convidados da parábola do Banquete do Reino, mas os que, como então, também hoje habitam nas quelhas e ruelas das nossas aldeias, vilas e cidades, e que variadíssimos sistemas de governo vão deixando de fora ou obrigam a deambular, a partir.

E não eram muitos. Mas os poucos que ousaram aparecer estavam tão ávidos de participação, de encontro, de partilha e festa, que nos pareceu sempre que a alegria, o bom humor, a cooperação, a festa, tinham adquirido, encarnado verdadeira forma humana.

Partilhámos viagens, terras que nos marcaram e outras em agenda que, esperamos, nos venham a fazer bem. Jogámos, corremos, rimos e partilhámos o que trazíamos como o almoço.

E estivemos ali, naquele pedaço de terra do Jardim Vasco da Gama, em Belém, Lisboa, como pátria de todos, porque nos entristece saber que o número de pessoas forçadas a migrar continua a aumentar consideravelmente. Lamentámos juntos, o crescente aumento do número de refugiados, sendo de facto inadmissível que, em 2018, o direito à terra, como o primeiro grande direito de todos, seja ainda hoje negado a milhões e milhões de pessoas, vítimas da barbárie humana.

E ainda levámos para casa os despojos do dia. Mas mais do que coisas, o que fez a felicidade de cada um, no regresso a casa, foi o nome, o rosto de quem não se conhecia e com quem se conversou.

Foi uma 1ª edição de tantas outras, assim o desejamos, pois o potencial do GENTESfest é enorme. Mas para que de facto este venha à luz do dia, se conheça e dê nas vistas, é fundamental que comunidades paroquiais e outras entidades amantes da diversidade, do encontro e cooperação, acolham o seu convite. 

Uma palavra, que é sempre primeira (ainda que frequentemente surja num derradeiro parágrafo), é a de profunda gratidão à Junta de Freguesia de Santa Maria de Belém, à Confraria da Empada, ao nosso caríssimo amigo Luís Ribeiro e sua esposa, à Câmara Municipal de Lisboa, à sempre disponível equipa do Engº Rui Arruda, e à Central de Cervejas (Luso), à Paula Portugal, por terem sido parte do motor desta iniciativa.

GESTESfest não nos colocou no bom caminho. Ele é BOM CAMINHO!

texto por Henrique Pinto, Cáritas Diocesana de Lisboa

texto por Diogo Paiva Brandão; fotos por Diogo Paiva Brandão e Cáritas de Lisboa
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