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Síria: um vale de lágrimas no Vale dos Cristãos
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Maha Sanna já perdeu a conta às lágrimas que chorou desde que um dos seus filhos foi assassinado em Homs, onde vivia. Não há pior dor do que essa, a de uma mãe com o filho ensanguentado nos braços, já sem vida. Desde então, desde esse dia, o mundo de Sanna desmoronou por completo. A violência em Homs era tanta que tiveram de fugir para o Vale dos Cristãos. Sem trabalho, sem fontes de rendimento, ela sobrevive apenas graças à ajuda da Fundação AIS. A vida é muito difícil para Sanna.


Da varanda da sua casa vê-se todo o Vale dos Cristãos. É uma mancha verde, uma montanha salpicada com o vermelho dos telhados das casas. Uma mancha de verde que esconde gente em lágrimas. Pessoas como Maha Sanna. Quando ela olha para trás o seu coração fica angustiado. Antes, num tempo que lhe parece agora irreal e muito distante, Maha Sanna vivia em Homs. Vivia bem. “A vida era boa na nossa casa em Homs”, explica esta mulher de meia-idade, com os cabelos curtos completamente embranquecidos. “Vivíamos lá com os meus filhos.” Sempre que olha para trás, sempre que recorda os dias bons em Homs, Maha dificilmente aguenta as lágrimas. Sempre que recorda a sua casa, a sua vida em Homs, vem-lhe à memória o rosto já sem vida de um dos seus filhos, assassinado com uma bala disparada de longe. Nunca se descobriu por quem. “Depois de um dos meus filhos ter sido morto a tiro por um atirador furtivo, viemos para aqui.”

 

Marcas de morte

“Aqui” é o Vale dos Cristãos. Praticamente todos ali pertencem à mesma comunidade, partilham as mesmas orações, o mesmo credo, a ida à Missa à mesma hora. Praticamente todos ali partilham a mesma ansiedade, os mesmos dramas. Todos ali são vítimas da guerra que estalou com violência em 2011 e deixou marcas de morte em todo o lado, em todas as aldeias, em todas as cidades. Em todas as pessoas. Maha Sanna é uma dessas pessoas. A sua casa, no Vale dos Cristãos, na verdade não é bem sua. É uma casa emprestada. Ela não tem sequer forma de pagar os alimentos do dia-a-dia, nem a água ou a luz, quanto mais a renda da casa. Mas é nessa casa emprestada que ela vive, com o marido e o outro filho, irmão do rapaz que foi assassinado por um atirador furtivo. Às vezes, Maha Sanna tenta perceber porque alguém quereria matar o seu filho. Ela só consegue recordar-se do seu sorriso bondoso, dos seus olhos alegres. Ela só consegue lembrar-se dos sonhos imensos que ele tinha para a sua vida até que aquele tiro, disparado provavelmente a centenas de metros de distância, acabou com tudo. Acabou com a vida dele e, em certa medida, com a vida dela. Uma mãe nunca sobrevive completamente à morte de um filho.

 

A força da fé

O Vale dos Cristãos não foi uma escolha. Foi uma necessidade. Com as mãos vazias, todos os dias são um martírio. Maha Sanna não sabe como vai ser o amanhã. Não há empregos por ali, as economias há muito que se gastaram e só resta mesmo a solidariedade. Uma solidariedade que, ali, no Vale dos Cristãos, tem um nome: Fundação AIS. “É muito duro viver aqui”, diz Maha, que logo acrescenta como consegue, apesar de tudo, sobreviver à sucessão dos dias, à memória do filho que ocupa uma parte enorme de uma das paredes da casa numa fotografia em que está sorridente, ainda cheio de vida. “A oração e a fé dão-me forças para continuar.” Lá em baixo, no Vale dos Cristãos, um rapaz puxa uma corda que faz ressoar o sino da igreja. Ali ninguém tem medo de se assumir como cristão. Ali são praticamente todos cristãos. Mas não é assim em todos os lugares. Em muitas cidades, em muitos bairros e aldeias, os cristãos são vistos com desconfiança, apesar de serem apenas uma minoria. São uma minoria abandonada à sua sorte. É um pouco como a história de Maha Sanna. Se não fossem organizações de solidariedade como a Fundação AIS, estariam completamente desamparados. “Temos apoio para a renda da casa e também para os tratamentos médicos”, explica Maha, afirmando logo de seguida, dirigindo-se à Fundação AIS: “A vossa ajuda é maravilhosa. Sem ela, não poderíamos sobreviver.” Só a fé e as orações que os lábios de Maha Sanna murmuram continuamente, todos os dias, lhe dão consolo. “A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas…”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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