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Guilherme d’Oliveira Martins
Exemplos de amor e verdade…
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Por iniciativa de Leonor Xavier, um grupo de cristãos e de pessoas de boa vontade reuniu-se ao fim da tarde do passado dia 8 de outubro, na capela do Rato, em Lisboa, para ouvir palavras do Papa Francisco. Mais do que testemunhos pessoais ou opiniões, importava ouvir e meditar sobre as palavras do próprio Papa, sem considerações ou comentários. Foi uma experiência muito rica, uma vez que nos deparámos com apelos, desafios, comentários, críticas fraternas, indicações de caminho e lembranças, que se revelaram da maior utilidade. Escolhi um texto de “Lumen Fidei – A Luz da Fé” (2013), a primeira encíclica do Papa Francisco, na passagem de testemunho vinda do Papa Emérito Bento XVI. E por que razão escolhi este texto? Uma vez que a ligação entre a verdade e o amor constitui a pedra angular da Boa Nova de Jesus Cristo. E meditar sobre essa relação é irmos ao encontro dos outros, na sua diferença e dignidade: «A maioria das pessoas hoje em dia não considera o amor como relacionado de alguma forma com a verdade. O amor é visto como uma experiência associada com o mundo das emoções fugazes, e não com a verdade. Mas é esta uma descrição adequada do amor? O amor não pode ser reduzido a uma emoção efémera. É verdade que estimula a nossa afetividade, mas, a fim de o abrir para o amado e, assim, abrir o caminho que conduz longe do egocentrismo e em direção à outra pessoa, a fim de construir um relacionamento duradouro, o amor visa a união com o amado. Aqui começamos a ver como o amor exige a verdade. Só na medida em que o amor é fundamentado na verdade e pode ser suportado ao longo do tempo, pode transcender o momento passageiro e ser suficientemente sólido para sustentar uma viagem compartilhada. Se o amor não está vinculado à verdade, é uma presa de emoções inconstantes e não pode resistir ao teste do tempo. Amor verdadeiro, por outro lado, unifica todos os elementos da nossa pessoa e torna-se uma nova luz que aponta o caminho para uma vida grande e realizada. Sem a verdade, o amor é incapaz de estabelecer um vínculo firme; não pode libertar o nosso ego isolado ou redimi-lo a partir do momento fugaz, a fim de criar a vida e dar frutos».

Para além do nosso ego isolado ou das emoções inconstantes, importa que o amor se ligue, de facto, à fidelidade e à busca de verdade, numa palavra, à confiança. Eis o que está em causa. Como dizia Karl Popper, não sabemos o suficiente para poder ser intolerantes. O Papa Francisco tem feito o apelo insistente para superarmos o mero formalismo das normas abstratas e para recusarmos a cegueira intolerante. O sábado fez-se para o homem e não o homem para o sábado. No momento em que celebramos o centenário do nascimento do Padre Manuel Antunes, S.J., devemos recordar o seu exemplo e a sua palavra que, além de anunciar e de seguir o Concílio Vaticano II, trilhou caminhos que o atual Papa tem vindo a seguir. E Sophia de Mello Breyner afirmou haver “uma coisa extraordinária no padre Antunes: uma grande ligação entre a cultura e a vida. Eu penso (dizia a poeta) que isso lhe era dado, em grande parte, pelo facto de ser padre. Ele nunca se revelou um homem escolar. Qualquer homem com o grau de erudição e inteligência, a capacidade intelectual que ele tinha, corria sempre o perigo de esterilizar humanamente num pensamento abstrato e muito teórico”. Ora, se é certo que o Padre Manuel Antunes era um sábio, capaz de encantar grandes plateias de ouvintes ávidos de conhecimentos, a verdade é que havia a simplicidade e a abertura de espírito para se aproximar de todos, em nome do amor vindo do fundo do coração. E é essa ligação que nos permite articular naturalmente verdade e amor. Somos seres humanos naturalmente imperfeitos, mas suscetíveis de sermos melhores.

Esse desígnio de emancipação permite a ligação entre o saber e o coração. E podemos lembrar essa relação a propósito da canonização no último domingo do Papa Paulo VI e de D. Óscar Romero. Gianbattista Montini tomou em mãos o testemunho do Bom Papa S. João XXIII e concretizou o Concílio Vaticano II, preparando a Igreja para o mundo contemporâneo, global e não já eurocêntrico, e fazendo compreender os sinais dos tempos, em nome da justiça e da verdade. Enquanto o Arcebispo de S. Salvador pagou com a vida a sua coerência cristã e a opção pelos pobres, assassinado quando celebrava a missa em 24 de março de 1980. Como afirmou o Papa Francisco: «Em tempos de coexistência difícil, Romero soube como guiar, defender e proteger o seu rebanho. Damos graças a Deus porque concedeu ao bispo mártir a capacidade de ver e ouvir o sofrimento de seu povo». Quer o Papa Paulo VI, quer o Arcebispo Óscar Romero, tornaram a fé em Jesus Cristo como criadora de comunidades artífices de paz e solidariedade. E assim, neste tempo de tantas incertezas, podemos estar cientes de que só o bom exemplo, capaz de ligar amor e verdade, pode responder às tentações simétricas da indiferença e do fanatismo.

 

foto por www.snpcultura.org