Liturgia |
Os Padres da Igreja ao ritmo da Liturgia
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?»
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O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o meu rosto dos que me insultavam e cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e, por isso, não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido. (Is. 50, 5-7)

 

Santo Agostinho, doutor da Igreja, nos séc. IV-V, como bispo de Hipona, dedicou-se à pregação ao povo que lhe estava confiado. Em dois dos seus sermões sobre a Paixão do Senhor em Sexta-feira Santa, Sermões 218/B, 1 e 218/C 1-2, pregou:

Celebramos hoje, com toda a solenidade, o mistério grande e inefável da Paixão do Senhor. Mistério que, a falar verdade, nunca esteve longe do altar a que assistimos, nem da nossa boca e pensamento, a fim de guardarmos sempre no coração aquilo que os sentidos do corpo nos recordam continuamente. Apesar disso, esta solenidade anual está muito mais presente na nossa memória, quando nos recordamos de tão grande acontecimento ... Cristo crucificado é, para os infiéis, escândalo e loucura; mas para nós é poder e sabedoria de Deus. Eis a fraqueza de Deus, que é mais forte que os homens ...

A Paixão de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é para nós penhor seguro de glória e exemplo admirável de paciência. Haverá alguma coisa que não possam esperar da graça divina os corações dos fiéis, se por eles o Filho unigénito de Deus, eterno como o Pai, não só quis nascer como homem entre os homens, mas também morrer às mãos dos homens que Ele tinha criado? É verdadeiramente grande a realidade futura que o Senhor nos promete; mas é muito maior o que Ele já fez por nós e que hoje celebramos. Onde estávamos ou quem éramos, quando Cristo morreu por nós, pecadores? Quem pode duvidar que Cristo dará a vida aos seus fiéis, se por eles Se entregou à morte? Porque hesita ainda a humana fragilidade em acreditar que um dia os homens viverão com Deus? Muito mais incrível é o que já se realizou: Deus morreu pelos homens. Quem é Cristo senão Aquele que no princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus? Este Verbo de Deus fez-Se carne e habitou entre nós. Se não tomasse da nossa natureza a carne mortal. Ele não tinha possibilidade de morrer por nós. Mas, deste modo, o imortal pôde morrer e dar a vida aos mortais: fez-Se participante da nossa morte para nos tornar participantes da sua vida. De facto, assim como os homens pela sua natureza, não tinham possibilidade alguma de alcançar a vida, também Ele, pela sua natureza, não tinha possibilidade alguma de sofrer a morte. Fez, pois, connosco, um extraordinário comércio: nós tínhamos aquilo por que Ele morreu, Ele tinha aquilo por que nós vivemos ... Por conseguinte, de modo algum podemos envergonhar-nos da morte do nosso Deus e Senhor; pelo contrário, ela é a razão de toda a nossa confiança e de toda a nossa glória: tomando sobre Si a morte que em nós encontrou, assegurou-nos a vida que por nós não podíamos alcançar. Se Ele tanto nos amou, que sendo inocente tomou sobre Si o castigo que merecíamos pelos nossos pecados, como deixará de nos dar o que merecemos pela nossa justiça, que é fruto da sua justificação? Se Ele, o Justo, suportou o castigo dos pecadores, como deixará de dar a recompensa aos seus fiéis, Ele que é fidelíssimo às suas promessas? Portanto, irmãos, reconheçamos corajosamente, mais ainda, proclamemos bem alto que Cristo foi crucificado por amor de nós; digamo-lo, não com temor, mas com alegria, não com vergonha, mas com santo orgulho… Longe de mim gloriar-me a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.

(PLS 2, 543-547; Guelfer 2 e 3; SCh 116; NBA 32/1; Antologia Litúrgica 3851-3853).


Foto:

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Pormenor do mosaico da ábside da Basílica de São Clemente, Roma, séc. I

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