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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Auto da paixão de Nosso Senhor
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Erram os que pensam que o mistério da paixão e morte de Cristo é algo passado e que, portanto, não lhes diz respeito. Na verdade, como alguém disse, Cristo permanece em sofrimento até ao fim dos tempos. Nós somos protagonistas da sua paixão, não apenas porque foi também por causa dos nossos pecados que Jesus padeceu, mas porque é pela virtude redentora da sua paixão, morte e gloriosa ressurreição, que somos salvos.

São Paulo tinha uma consciência muito viva de que o mistério da paixão do Senhor lhe dizia pessoalmente respeito: “a vida com que vivo agora na carne, vivo-a na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2, 20). Não diluía a sua culpa no oceano dos pecados de todo o mundo, como também se considerava destinatário, em primeira pessoa, da graça da redenção. Todos o somos, é certo, mas também cada um de nós o é, porque se cada um de nós fosse a única criatura que carecesse de salvação, Cristo teria morrido para a salvar.

São muitas as personagens de que nos falam os relatos canónicos da paixão e morte de Nosso Senhor e, de certo modo, com todas elas nos identificamos: as boas e as más. Não é possível traçar uma linha que separe os bons dos maus, porque alguns dos que eram em princípio virtuosos, como os sacerdotes e os apóstolos, foram culpados da morte de Jesus, bem como alguns dos que era suposto serem maus, como a mulher de Pôncio Pilatos, o bom ladrão, Nicodemos e José de Arimateia, na realidade reconheceram-no como justo e intercederam por Ele.

A separação entre o bem do mal não é uma linha que separa uns homens de outros, como se houvesse pessoas intrinsecamente boas e más. É, pelo contrário, uma fronteira que atravessa todos os seres humanos, porque também no coração do homem justo há alguma maldade, e alguma réstia de bondade no interior do ser mais perverso. Só assim se explica que Judas e Pedro tenham traído e negado o Mestre, enquanto a mulher do governador romano, um ladrão e dois membros do sinédrio, pelo contrário, o defenderam corajosamente.

Sim, eu sou Anás e Caifás, quando deixo que a inveja pelo êxito apostólico, profissional, ou social, de outros, se converta em rancor vingativo e no ódio que, pela calúnia das palavras, o desprezo nas obras ou a indiferença na atitude, assassina o bom nome e reputação do próximo.

Sim, eu sou Pôncio Pilatos quando, por respeitos humanos, ou medo a sofrer alguma consequência desagradável para a minha carreira pessoal, aceito condenar algum inocente, ou simplesmente não faço o bem que devo, nem me oponho ao mal que posso e devo evitar, pelo temor de que essa atitude possa acarretar alguma consequência negativa para a minha vida pessoal e profissional, ou desagradar e perder a estima de pessoas que considero.

Sim, eu sou Herodes quando, por frivolidade, a minha curiosidade por ver e ouvir Jesus não se traduz num propósito sincero e eficaz de conversão.

Sim, eu sou Barrabás, quando me justifico e desculpo dos meus pecados e faltas e permito que sobre pessoas inocentes, como outrora Jesus de Nazaré, recaiam as minhas culpas, para que eu assim possa beneficiar do indulto que a ele só era devido.

Sim, eu sou Pedro e os outros apóstolos quando, por tibieza, apesar de afirmar a minha lealdade a Jesus, com solenes juramentos de fidelidade até à morte, se necessário for, para o salvar, depois prefiro dormir em vez de rezar e, como consequência da minha falta de oração, o nego com as minhas cobardes omissões.

Mas eu também sou Simão de Cirene, quando carrego com a cruz de Cristo na realização esforçada do que é minha obrigação, mesmo quando a tal sou obrigado pelos meus deveres de estado ou profissionais.

Eu também sou a Verónica quando enxugo as lágrimas do meu próximo, como aquela santa mulher fez ao divino crucificado no seu caminho para o Calvário, e permito assim que, no meu coração, fique gravado o rosto amabilíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Eu também sou o bom ladrão quando, em vez de exigir a salvação que não mereço, como fez o outro ladrão, lembro ao Senhor, com humildade e contrição, que só o seu misericordioso perdão me pode salvar.

Eu também sou o centurião quando deixo que a luz da fé ilumine a minha razão e, pela graça do mistério da paixão e morte de Jesus, confesso a divindade do Filho de Deus.

Eu também sou Maria quando, aos pés da Cruz, permaneço unido a Jesus no cumprimento amoroso dos meus deveres religiosos, familiares e profissionais, recebo no meu coração a João, o discípulo que o Senhor amava, e, em Cristo, amo também todos os meus irmãos.

Se sou, em simultâneo, Anás e Caifás, Pôncio Pilatos, Herodes, Pedro e os outros apóstolos, Simão de Cirene, a Verónica, o bom ladrão, o centurião e Maria, afinal quem sou eu?! A resposta, mais uma vez, é-nos dada por Paulo: “Estou pregado com Cristo na cruz; vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 19-20).