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Nigéria: A guerra contra os Cristãos de que [quase] ninguém fala
Dez anos de terror
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A ameaça aos Cristãos continua imparável em muitos lugares no mundo. O relatório da Fundação AIS ‘Perseguidos e Esquecidos?’, divulgado na semana passada em Lisboa, retrata como esta comunidade religiosa está na mira de movimentos radicais, de grupos terroristas, e até de países como a China ou a Coreia do Norte. Mas é em África que os ataques contra os Cristãos estão a crescer de forma descontrolada. E a Nigéria, onde actua o grupo terrorista Boko Haram, está no centro desse ‘tsunami’ de violência.

 

Tudo começou há 10 anos. Há mesmo uma data concreta: 26 de Julho de 2009. Nessa noite, várias cidades no nordeste da Nigéria foram sobressaltadas por ataques quase em simultâneo contra esquadras da polícia. Essa foi a resposta dos militantes do Boko Haram, que no dia anterior tinha sido alvo de uma operação musculada das forças de segurança na cidade de Bauchi, de que resultou a morte de dezenas de membros deste grupo. Na altura, o Boko Haram era ainda e apenas uma seita. Perante o ataque, as autoridades federais exigiram uma resposta dura. A 27 de Julho, o exército entrou em acção, provocando um banho de sangue. Calcula-se que centenas de membros do Boko Haram tenham sido eliminados, com julgamentos sumários dos detidos. Ente os mortos está Mohammed Yusuf, então líder do grupo. Para as forças da ordem, tratou-se de uma vitória total. O Boko Haram tinha sido esmagado. Puro engano. Sobreviveram algumas dezenas de membros que se alimentaram com o desejo de vingança. Há dez anos, o Boko Haram era uma seita. Transfigurou-se. Agora é um dos mais temíveis grupos terroristas à face da terra. E os Cristãos são um dos seus alvos preferenciais. Hoje, apesar de continuar a actuar na região nordeste da Nigéria, onde pretende implantar um ‘califado’ à semelhança do que o Daesh fez na Síria e Iraque, o Boko Haram já expandiu a sua zona de actuação para alguns países da região, como os Camarões, Chade e Níger.

 

Milhares de vítimas

Nesta década de terror, o Boko Haram já fez milhares de vítimas. As Nações Unidas estimam em mais de 27 mil as pessoas mortas pelos terroristas, mas há observadores que avançam com um número bem maior, cerca de 70 mil… No entanto, há ainda a considerar que aproximadamente dois milhões de nigerianos foram forçados a fugir de suas casas, perdendo haveres, formas de sustento. Fugiram para não serem mortos. Afirmando que a ‘educação ocidental é pecado’, o Boko Haram tem lançado ataques contra escolas, ameaçando instituições de ensino, lançando o terror sobre os estudantes, procurando espalhar em toda a região a marca indesejável da ignorância que é sempre o maior aliado do medo. Em 2014, o Boko Haram ganhou visibilidade planetária ao conseguir, num acto temerário, raptar 276 raparigas – com idades entre os 16 e os 18 anos – de uma escola na cidade de Chibok, no estado de Borno. O mundo sobressaltou-se. Foi há cinco anos. Desde então, apesar de muitas das jovens já terem sido libertadas, continua a desconhecer-se o paradeiro de cerca de uma centena destas estudantes. A história deste ataque à escola de Chibok correu mundo. As jovens, quase todas cristãs, foram obrigadas a entrar para camiões e seguiram para um acampamento do grupo islamita situado na floresta de Sambisa. Durante a viagem, algumas conseguiram fugir. No mês seguinte, o líder do Boko Haram, Abubakar Shekay, apareceu num vídeo à frente de dezenas de raparigas vestidas dos pés à cabeça com trajes muçulmanos, como quem exibe um troféu. O líder dos terroristas ameaçou vender as jovens, afirmando que “a escravidão é permitida” na sua religião.

 

A história de Leah

Relatos surgidos então na imprensa internacional davam conta de que algumas das jovens estudantes de Chibok teriam sido forçadas a casar ou teriam mesmo sido vendidas como escravas. A BBC chegou a escrever, citando testemunhas, que algumas das raparigas poderão ter sido vendidas por cerca de 12 euros. O rapto de Chibok horrorizou o mundo e levou mesmo à criação de uma campanha global para a libertação das jovens cristãs. A Campanha “Bring Back Our Girls” – “Tragam de volta as nossas raparigas” – procurou sensibilizar a opinião pública para o drama destas estudantes e para a situação terrível que se vive na Nigéria. Este ataque a uma escola não foi, porém, um acto isolado. Em Fevereiro de 2018, um comando do Boko Haram atacou uma outra escola, desta vez em Dapchi, situada na Diocese de Maiduguri, no nordeste do país. Nesse ataque foram raptadas 110 raparigas. Um mês depois, todas as raparigas foram devolvidas às suas famílias com excepção de Leah Sharibu, que sendo a única cristã do grupo recusou converter-se ao Islamismo como os terroristas exigiam pela sua libertação. Desde então, não há sinais da possível libertação desta jovem cristã. A história desta jovem é extraordinária pela coragem demonstrada num ambiente tão hostil como é o que enfrentam todos os reféns do Boko Haram. A notícia mais recente sobre Leah foi em Outubro do ano passado, quando o grupo terrorista divulgou um vídeo onde ameaçava manter a jovem cristã como “escrava para a vida”. Calcula-se que actualmente cerca de duas mil mulheres, meninas e rapazes estejam em cativeiro do Boko Haram. Cerca de uma centena fazem parte das jovens raptadas da escola em Chibok.

 

Ataques à Igreja

Nestes 10 anos de violência terrorista, a Igreja Católica tem sido um dos alvos preferenciais do Boko Haram. A par dos ataques contra esquadras, mercados e escolas, os terroristas transformaram capelas, igrejas e centros paroquiais em alvos muito concretos. As Dioceses de Maiduguri, Yola e Taraba têm estado no epicentro da actuação do Boko Haram. D. Oliver Dashe Doeme, Bispo de Maiduguri, tem dificuldade em explicar, numa frase simples, as consequências de toda a violência na sua diocese ao longo desta década. Maiduguri, diz em declarações à Fundação AIS, “sofreu uma perseguição implacável” e testemunha “uma destruição colossal de vidas e propriedades”.  Para D. Oliver, o objectivo é mesmo a eliminação da presença cristã. “Boko Haram significa que a educação ocidental é pecado”, explica o prelado. “Dado que o Cristianismo mantém uma ligação com a educação ocidental, deve ser eliminado”, conclui. Durante estes 10 anos de terror, tem havido momentos de maior aflição. “O nosso seminário menor em Shuwa foi transformado pelos terroristas num acampamento onde reuniram os seus recrutas e guardaram os despojos das pilhagens. Quando abandonaram o seminário, atearam fogo à maior parte do complexo. Também o nosso centro de formação, localizado em Kaya, foi destruído em 2014 e saqueado pelos terroristas, tal como dois conventos, dois hospitais, 15 escolas missionárias, mais de 10 casas paroquiais e mais de 250 igrejas ou capelas.” O ano de 2014 foi, até agora, o mais violento de todos. “Nesse ano – recorda o Bispo de Maiduguri –, membros da seita apoderaram-se de vastas áreas da nossa diocese. Como resultado, mais de 25 padres foram deslocados, mais de 45 religiosas tiveram de abandonar os seus conventos, mais de 200 catequistas foram expulsos dos seus locais de trabalho e mais de 100 mil católicos tiveram de fugir das suas casas.”

 

A ajuda da AIS

Na semana passada esteve em Lisboa o Pe. Gideon Obasogie, oriundo da Diocese de Maiduguri. Obasogie participou na sessão de apresentação do Relatório da Fundação AIS sobre a Perseguição aos Cristãos no Mundo, referente ao período de Julho de 2017 a Julho deste ano, que decorreu na quarta-feira, dia 23 de Outubro, na sede do Centro Nacional de Cultura. Este sacerdote testemunhou situações dramáticas vividas nos últimos anos pelas comunidades cristãs indefesas perante a brutalidade de um dos mais temíveis grupos terroristas da actualidade. Afirmando que “o Terço tornou-se na nossa melhor arma”, o Pe. Gideon acusou também a forma negligente como a comunidade internacional tem agido em defesa dos Cristãos no seu país. “Há um silêncio estranho em que não se fala destas coisas.” No entanto, apesar do silêncio cúmplice que se tem abatido sobre a perseguição aos Cristãos na Nigéria, nos tempos mais recentes a situação tem melhorado ao nível da segurança e isso reflectiu-se já no regresso de alguns sacerdotes. D. Oliver Doeme reconhece a importância da solidariedade da AIS, que se reflecte na construção das igrejas e estruturas eclesiais, mas que está também profundamente comprometida com o apoio directo à subsistência do clero nesta região tão assolada pela violência extremista. O Bispo de Maiduguri afirma mesmo que o apoio da Ajuda à Igreja que Sofre tem sido vital para a sobrevivência da Igreja nesta região de África. “A Fundação AIS tem sido a espinha dorsal da Igreja na nossa diocese. Sem o apoio da AIS, a Igreja teria entrado em colapso há muito tempo.” Por tudo isso, D. Oliver Doeme fez questão de deixar uma palavra de agradecimento aos benfeitores e amigos da AIS que têm assegurado, com a sua generosidade, esta corrente solidária para com uma comunidade vítima de terrorismo. “Estamos muito gratos à Fundação AIS e aos seus numerosos benfeitores pelo enorme apoio que têm dado à Igreja que sofre na nossa diocese, e a Igreja que sofre tem estado a rezar por todos vós…”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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