Domingo |
À procura da Palavra
O Novo que não se gasta
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DOMINGO I DO ADVENTO Ano A

“Estai vós também preparados,

porque na hora em que menos pensais,

virá o Filho do homem.”

Mt 24, 44

 

Gostamos tanto de tudo o que é novo, que nem nos perguntamos se precisamos mesmo dele. E se o novo for barato, quase oferecido em saldos programados como o último “black friday”, é como se nos saísse a “sorte grande”. Só que esquecemos a fugaz novidade das coisas, rapidamente ultrapassadas por modelos mais recentes e modas mais sedutoras. Lidamos com dificuldade a rapidez com que tudo passa e acaba. Como imaginou Paul Auster em “No país das últimas coisas”; um olhar interpelador da nossa realidade: “Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim.”

 

Desejamos um novo diferente. E parece que gastamos essa esperança em cada novidade que aparece. Vamos arriscando cada vez menos, com maior cuidado. Fica o perigo de nos fecharmos por tanta desconfiança. Ou escolhemos gastarmo-nos por tudo aquilo que passa. Clarice Lispector dizia: “Corro perigo / Como toda pessoa que vive / E a única coisa que me espera / É exatamente o inesperado.” O inesperado que é Deus nunca desiste de vir ao nosso encontro.


O tempo cristão parece uma espiral ascendente. Voltamos ao advento que nos prepara para celebrar a encarnação de Cristo, um passo mais à frente, um pouco como dizia Vinícius de Moraes, “a viver cada segundo / como nunca mais”! As palavras de Jesus despertam-nos da indiferença e do sono, e abrandam a agitação e a pressa: “vigiai”, “compreendei”, “estai também vós preparados”! É certamente muito mais do que preparar árvores de natal, presépios, presentes e ceias natalícias. Tudo isso terá o seu lugar, mas será possível também o encontro? Se é a vinda de Cristo que esperamos, o seu nascimento que celebramos, estaremos disponíveis para que Ele nos encontre? E onde? E como?


Porque há tanta correria e dispersão nas nossas vidas, Ele vem ao lugar onde habitamos. À casa, ao trabalho, à mesa do café, ao ginásio, à escola, ao hospital. Aos lugares onde semeamos a nossa vida em tantos gestos cheios de entrega. Mais importante que o lugar é como nos pode Ele encontrar! Como estaremos atentos para O reconhecer, que tempo lhe daremos para nos falar, que lugar poderá encontrar no nosso coração! Envolvidos na azáfama das coisas, dos “natais de catálogo”, será que não corremos o perigo de perder mais uma ocasião favorável, uma possibilidade de nascer de novo, e de acolher o novo que nunca mais acaba?

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