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2006. Mogadíscio, na Somália – Irmã Leonella, Missionária da Consolata
Sete tiros
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Foi atingida a tiro pelas costas. Leonella regressava a casa depois de um dia na escola de enfermagem em Mogadíscio, onde leccionava, quando dois homens dispararam sobre ela. Foram sete tiros. A irmã não morreu logo. Ainda a levaram para o hospital, mas era já impossível salvá-la. As suas últimas palavras dizem muito do que foi a sua vida: “Perdoo, perdoo, perdoo”.

 

Leonella Sgorbati nasceu em Itália, em Gazzola, no norte do país, mas passou grande parte da sua vida em África. Primeiro no Quénia e mais tarde na Somália. Partiu para África aos 30 anos e despediu-se da vida, em Mogadíscio, esvaindo-se em sangue, aos 65 anos de idade. Morreu praticamente no meio da rua, a um domingo, 17 de Setembro de 2006. O muçulmano Mohammed Osman era o seu guarda-costas. Estava a seu lado. Ainda tentou colocar-se entre Leonella e os terroristas. Casado, tinha quatro filhos. Morreu também. Passavam 30 minutos do meio-dia. Leonella Sgorbati, das Missionárias da Consolata, era bem conhecida. Na capital da Somália, onde foi assassinada, praticamente não há Cristãos. Nem em Mogadíscio nem no resto do país. Desde a década de 90 do século passado que a Somália está mergulhada num estado de conflito permanente. Os atentados são comuns e o país está debaixo de controlo de milícias jihadistas e de senhores da guerra, donos de verdadeiros exércitos do mal. Alguns dos atentados traduzem uma violência incomum. Três dias depois do Natal, no final do ano passado, por exemplo, a explosão de um carro-bomba provocou cerca de 80 mortos e pelo menos uma centena de feridos em Mogadíscio. O carro foi detonado na hora de ponta num dos mais movimentados cruzamentos da capital. Foi deliberado. A ideia era mesmo matar o maior número possível de pessoas.

 

Irmã e enfermeira

Já havia um clima de profunda violência em Mogadíscio em 2001, quando a Irmã Leonella decidiu aceitar o desafio de abrir uma escola de enfermagem na capital da Somália. Mas ela parecia não ter medo. Foi. Para trás deixava o Quénia. Abraçar desafios era a sua vocação. A geografia dos lugares pouco importava, mesmo que estivessem assinalados como sendo perigosos, especialmente para os Cristãos. Leonella Sgorbati existia para servir. Tinha 23 anos quando ingressou no instituto das Missionárias da Consolata. A vontade de servir levou-a a estudar enfermagem em Inglaterra. Foi já nessa dupla condição de irmã e enfermeira que partiu para o Quénia, onde viria a ser superiora-regional da congregação. Os que a acompanharam nesses anos recordam-se do seu entusiasmo, da forma como tratava os doentes e como se empenhava na formação das jovens enfermeiras.

 

Fé em silêncio

Era um exemplo. Talvez por causa disso, desse entusiasmo transbordante, Leonella seria convidada a abraçar um novo desafio. Criar uma escola de enfermagem na Somália. Ninguém desconhecia os riscos do empreendimento. Ela própria sabia que o país estava minado por grupos radicais que pretendiam impor uma visão extremista do Islão. Desde o início que o trabalho da Irmã Leonella Sgorbati foi visto com desconfiança. Com muita desconfiança. Diziam que ela usava a escola para catequisar os jovens estudantes. Claro que isso seria uma enorme imprudência num país mergulhado em caos, com os poucos cristãos a terem de viver a sua fé em silêncio, quase clandestinamente. A casa das irmãs – ao todo eram cinco religiosas – tinha então o único sacrário presente em todo o país. A Somália era mesmo um território hostil para os Cristãos. Era e continua a ser. Foi neste contexto que aconteceu o assassinato da irmã.

 

Polenta para o almoço

Era domingo, de manhã, quando a irmã deixou a casa comunitária a caminho das aulas. Despediu-se alegremente com a promessa de que haveria polenta para o almoço. Passavam 30 minutos do meio-dia quando Leonella regressou. Estava quase a abrir o portão da casa quando se escutou o barulho brutal de uma rajada de metralhadora. As irmãs, em casa, sobressaltaram-se e correram para a rua. Havia já uma poça de sangue em volta do corpo de Leonella Sgorbati. A seu lado jazia Mohammed Osman. Leonella não morreu logo. Ainda a levaram para o hospital, mas já era impossível salvá-la. As suas últimas palavras dizem muito do que foi a sua vida: “Perdoo, perdoo, perdoo”. Uma cruz que pertencia à Irmã Leonella Sgorbati está, desde 2008, na Basílica de São Bartolomeu, em Roma, dedicada aos mártires dos séculos XX e XXI. O processo de beatificação da irmã enfermeira foi aberto em 2013.

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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