Editorial |
P. Nuno Rosário Fernandes
Uma Quaresma diferente
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A notícia do aparecimento de um novo vírus veio da China, no início de janeiro, e à distância fomos assistindo ao desenrolar dos acontecimentos com a expectativa de que não chegaria tão próximo de nós. Mas chegou e, como é óbvio, tem sido necessário assumir decisões com o objetivo de não facilitar a propagação deste vírus que, como temos vindo a assistir, está a afetar não apenas a saúde do mundo, mas a própria economia global. Também a Igreja, desde o início, mostrou a preocupação com esta situação e precisou tomar medidas de prevenção. No momento em que escrevo este texto, ainda não houve indicação da necessidade de suspensão das celebrações da Eucaristia. Tal aconteceu em lugares específicos do país, mais afetados. Contudo, na vida pastoral das comunidades, as catequeses, atividades escutistas, conferências, procissões, e outros eventos, têm sido suspensos, adiados, alterados. Por seu lado, em Itália, não há Missas com participação pública até ao dia 3 de abril. Imagino o sofrimento de todos por este jejum forçado. Contudo, para esses, o grande apelo tem sido o de aproveitar este tempo em que muitos não podem sair de casa para o dedicar à oração pessoal.

Por cá, os diversos organismos públicos vão lembrando a necessidade de cumprir determinadas posturas de higiene, que deveriam ser praticadas sempre e não apenas agora. A própria Conferência Episcopal Portuguesa veio recomendar algumas atitudes a ter em conta com vista a evitar a propagação do coronavírus. “Como em situações semelhantes e em sintonia com outras conferências episcopais e dioceses, e para evitar situações de risco, recomendamos algumas medidas de prudência nas celebrações e espaços litúrgicos, como, por exemplo, a comunhão na mão, a comunhão por intinção dos sacerdotes concelebrantes, a omissão do gesto da paz e o não uso da água nas pias de água benta”. Sobre esta nota da CEP, fui percebendo reações contrárias por questões que entendo como devocionais. Compreendo a dificuldade que muitos tenham em mudar hábitos, no que diz respeito ao receber o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo na mão, e não na boca, mas, em questões de saúde, é preciso ter em conta o próximo e não me centrar apenas no cumprimento da lei ou em vivências pessoais. O bem do outro deve estar em primeiro lugar. Se queremos ser cívicos e contribuir para a prevenção que nos é pedida, sejamos capazes de obedecer a estas recomendações. É uma questão de educação cívica e de saúde pública. Não se trata de uma imposição, mas de uma recomendação que os nossos bispos fazem, e nós estamos em comunhão com eles porque não somos uma Igreja à parte.

Tenho visto reações muito desagradáveis e verdadeiramente feias de quem diz que prefere não comungar a receber o Corpo de Cristo na mão. Respeito a vontade de cada um, mas, não será melhor repensar o que significa verdadeiramente a comunhão? Se é mais importante receber o Senhor, ou modo como se comunga? A liturgia do Concílio Vaticano II prevê as duas formas de o fazer, mas se numa situação destas a própria Igreja nos aconselha a mudar hábitos, com quem estou em comunhão?

Como disse atrás, não sei o que aconteceu entre o fecho deste jornal e a sua publicação neste Domingo, mas será bem mais difícil não poder celebrar a Eucaristia que receber a comunhão na mão. Esta é uma Quaresma diferente.


Editorial, pelo P. Nuno Rosário Fernandes, diretor

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