Missão |
Marlene Monteiro, do Voluntariado Passionista
“Calumbo: um pedaço de céu!”
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Marlene Monteiro nasceu a 18 de outubro de 1985, no Hospital de S. Paio de Oleiros. É natural de Paços de Brandão (Santa Maria da Feira). É licenciada em Psicologia, Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde e Pós-Graduada em Cuidados Continuados e Paliativos. Faz parte do Voluntariado Passionista e em 2019 esteve em missão em Angola.

 

Marlene nasceu quando os seus dois irmãos estavam já em idade escolar, e a sua chegada trouxe grande alegria aos seus pais que sempre tinham “desejado uma menina”. “Escolhi a Psicologia, ou a Psicologia escolheu-me a mim, como caminho de vida, sendo muito feliz com essa escolha até aos dias de hoje” partilha. Faz parte de uma família cristã católica e desde cedo integrou grupos “que permitiram colocar a sementinha da fé e da espiritualidade”. Em outubro de 2017, conheceu o Voluntariado Passionista, que considera ter sido o equilíbrio que precisava para expressar e reafirmar a fé, de se reencontrar consigo própria e com Deus. “Tivemos como formador o Padre Pires (“sem chávena!”, como se apresentou). Inicialmente estranhei a sua forma de comunicar, direto, sem rodeios, com uma ou outra ‘asneira’ pelo meio do discurso, que me deixava sem saber como reagir. Naquelas horas, tive a sensação de que o meu cérebro tinha ampliado, aprendi tanto sobre mim, sobre os outros e sobre o Outro… Este eco permaneceu durante os tempos que se seguiram, mudaram em muito a minha forma de perspetivar o que acontece à minha volta, o que me acontece, a minha fé e vivência espiritual, pois, até aquele momento, apesar de me questionar frequentemente, na realidade não aprofundava as minhas dúvidas. Ao Padre Pires, serei sempre grata por estes dias, pelo tanto que me ensinou, me transmitiu, me provocou, me apaziguou e me reconciliou”, refere. A vontade de partir em missão foi aumentando, sempre que ouvia testemunhos missionários. “Dei por mim a querer sentir o mesmo”, partilha. Após muita indecisão, com o apoio da família, enviou a carta de motivação. Participou nas formações da FEC| Fundação Fé e Cooperação e partilha: “O conhecimento adquirido ao longo destas formações, com temas e conteúdos essenciais não só para o contexto de Missão mas para o nosso próprio crescimento enquanto indivíduos, a partilha de testemunhos que permitiram um olhar mais próximo das diferentes realidades de Missão, a relação que se estreitou entre os vários elementos que mensalmente encontrava, são momentos, memórias que irei sempre estimar e que me possibilitaram fortalecer várias conquistas. Pela ponte de amor que se construiu, pelas aprendizagens, por tudo aquilo que foi vivido, experienciado, sentido, partilhado, não poderia deixar de expressar o meu agradecimento a todos os companheiros desta “viagem”, aos formadores e à Equipa da FEC.”

 

“Calumbo: um sentimento”

A 24 de Julho de 2019, partiu para Calumbo (Angola) e partilha: “Sentia uma espécie de anestesia nos dias anteriores à partida, costumava dizer com frequência que ainda não me tinha “caído a ficha”, mas, neste dia, senti uma energia a percorrer-me, acompanhada de uma paz de espírito e tranquilidade. Completamente despojada de expectativas, inspirei coragem e segurei bem firme no coração todo o amor e fé, na certeza de que este era este o caminho: d(o)ar-me ao outro. Comigo partiu a Liliana. Sabia muito pouco sobre ela, não era um dos elementos do Voluntariado Passionista com quem tinha uma relação muito próxima e isso tinha sido um dos motivos que me tinha deixado receosa, afinal de contas ia partilhar com ela os próximos 45 dias. Parti em Missão com uma colega e regressei com uma irmã de coração. Nada, em tudo aquilo que podemos ver na televisão, ler ou ouvir a respeito, nos prepara para a realidade que encontramos. Ao entrarmos em Calumbo, encontramos uma paz também ela chocante e degradada, em que o ambiente físico era um paradoxo: uma beleza espantosa, de cortar a respiração, justaposta a uma pobreza imensa. Tínhamos chegado àquela que seria a nossa casa… e o amor sentia-se logo à porta! Os dias começavam cedo, às 7 horas, com as Laudes… no primeiro dia estranha-se, no segundo entranha-se e no terceiro já faz falta! Na primeira semana, eu e a mana Liliana acompanhamos o Padre Nuno na visita às diversas escolas de Calumbo, Kakila e outras nas proximidades, com o intuito de divulgar a Biblioteca ‘Imbondeiro do Saber’ (localizada junto à Missão Católica de São José de Calumbo, onde desenvolvemos grande parte do nosso trabalho de Missão) posteriormente, reforçados pela chegada de mais dois voluntários, a Andreia e o Nelson. Deparamo-nos com uma realidade dolorosa, uma vez que muitas escolas reuniam condições muito precárias, com salas de aula partilhadas por diferentes anos escolares, quase sempre sobrelotadas, em que muitas vezes um lugar tinha de ser dividido por duas crianças e com mesas que só tinham o esqueleto da estrutura. Desde logo conseguimos perceber que o sistema de ensino era precário e com muitas carências, ao ponto de termos crianças mais velhas, com oito e nove anos, a não conhecerem as letras do abecedário. A Prisão de Kakila foi outro dos locais de Missão onde, semanalmente, às sextas-feiras, eu e a mana Liliana, nos deslocávamos para realizar palestras sobre vários temas relativos à saúde física e psicológica (devido às nossas áreas de formação), junto dos reclusos e guardas prisionais. Inicialmente, confesso que estava um pouco receosa pelo contexto em si e por não ter qualquer experiência neste âmbito. Com o passar dos dias, dava por mim a ansiar pela chegada da sexta-feira, ficando acordada até tarde para me assegurar que o material das palestras estava bem elaborado. Sentia que a nossa presença e que a partilha de conhecimentos e experiências era apreciada e valorizada, percetível pelos sorrisos rasgados quando nos viam, pela enorme vontade de aprenderem e pelas palavras de gratidão no final de cada palestra. Também semanalmente, eu e a mana Liliana, dávamos sessões de formação aos Seminaristas (os Manos), sobre temas de saúde e apoio ao nível do Inglês e, ainda, reuníamos com as Noviças das Irmãs Consoladoras para abordar e esclarecer alguns assuntos dedicados à saúde sexual e reprodutiva. Aos fins-de-semana, visitávamos as comunidades locais (tais como Santa Paciência, Camalimão, M’banza Calumbo, N’Gola Kiluanje, Santa Catarina de Cacém), assistíamos às celebrações, partilhando e vivendo a fé católica. A experiência de Missão em Calumbo expandiu os meus horizontes das maneiras mais incríveis. A felicidade que tantas vezes me fazia pele de galinha, a certeza firme de estar exatamente onde Deus me queria, eram tão sólidas e profundas quanto a frustração pela impotência e o questionamento do que estava ali a fazer. Existiram muitos momentos em que a única forma de superar esta frustração era esforçar-me para acreditar e, sobretudo, confiar nos planos de Deus. Apesar dos obstáculos e dificuldades, a maior parte do tempo existia uma sensação que me surpreendia a cada dia que passava (e que se mantém atualmente): senti que Calumbo era parte de mim e que era tão natural, tão puro, a minha forma de estar ali, naquele local, com aquelas pessoas… Era uma sensação inexplicável, contudo, existia aquela certeza inabalável de que estava onde tinha sido feita para estar. Sabia, no fundo do meu ser, que estava em casa…e ainda hoje é o que sinto! Como escrevi após o regresso: Calumbo não é apenas um lugar, é um sentimento. Foram 45 dias vividos de uma forma intensa, plena, em que pude perceber que a felicidade depende apenas do amor: o amor que damos, o amor que recebemos e o amor que compartilhamos.”

texto por Catarina António, FEC | Fundação Fé e Cooperação
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