Artigos |
P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Bento XV e o chamamento universal à santidade
<<
1/
>>
Imagem

É costume dizer-se que o chamamento universal à santidade e ao apostolado na Igreja católica é uma das novidades do Concílio ecuménico Vaticano II, ou das instituições eclesiais surgidas entre as duas guerras mundiais, nomeadamente o Opus Dei, fundado em 1928 por São Josemaria Escrivá de Balaguer. É verdade, certamente, que foi o último concílio ecuménico que deu a esse apelo evangélico a solenidade e a universalidade de um ensinamento conciliar, como a instituição eclesial fundada por São Josemaria foi, certamente, pioneira na concretização dessa abertura dos caminhos da santidade aos leigos de todas as idades e condições.

Sem querer desvalorizar o Concílio Vaticano II, nem a mensagem e obra apostólica de Josemaria Escrivá de Balaguer, que São Paulo VI considerou um dos homens que mais carismas recebeu e a essas graças melhor correspondeu, interessa compreender esses acontecimentos eclesiais no contexto da história da Igreja.

Uma advertência prévia: a história da Igreja não se desenvolve por via revolucionária, que é sempre uma ruptura com o passado, nem de uma forma dialéctica, que pressupõe a contradição, mas pela acção contínua do Espírito Santo. Josemaria Escrivá tinha consciência de que a radical novidade da sua fundação era, afinal, evangélica e, por isso, não só não se considerava fundador de nada, como dizia que a instituição por ele criada era nova como o Evangelho e, como o Evangelho, velha (cfr. Mt 13, 52). Não tinha, portanto, inventado nada que não existisse já, mas redescoberto uma realidade que, embora presente na doutrina cristã, ainda não tinha sido suficientemente valorizada.

São Francisco de Assis também não inventou a pobreza, embora haja que reconhecer-lhe o mérito da proclamação do seu valor evangélico, bem como da sua institucionalização como modo de vida cristã, nomeadamente pela prática da mendicância. O Vaticano II também não inaugurou, por assim dizer, o chamamento universal à santidade, apenas o recordou, fazendo dele um axioma fundamental da eclesiologia da comunhão.

Foi lendo “Concidadãos dos santos e membros da família de Deus, Estudo histórico-teológico sobre a santidade da Igreja” (Paulus, 2013), um interessante tratado de eclesiologia do P. Miguel de Salis Amaral, professor de Teologia na Pontifícia Universidade da Santa Cruz, em Roma, e consultor teólogo da Congregação para as Causas dos Santos, que encontrei a referência a um discurso de Bento XV, pronunciado a 10 de Janeiro de 1920, ou seja há precisamente um século. Esse texto é, certamente, um dos primeiros escritos do magistério da Igreja em que se recorda o chamamento universal à santidade.

Desde esse pronunciamento pontifício, o magistério da Igreja reiterou tal ensinamento. Com efeito, numa das suas primeiras encíclicas, a Rerum omnium, de 26-1-1923, Pio XI, por ocasião do centenário da morte de São Francisco de Sales, “afirma claramente que a Igreja é fonte de santidade e que quem a toma como guia e mestra deve tender à santidade de vida por vontade divina; perante isto não há dispensa particular de Deus, devida a circunstâncias pessoais ou falta de virtude”. Segundo este mesmo teólogo, “ao longo do seu pontificado, Pio XI afirmará mais vezes que todos devem tender para a santidade e que esta consiste num grau de virtude perfeito” (cfr. Studiorum ducem, de 29-6-1923; e Casti connubii, de 31-12-1930).

Salis Amaral, sendo docente de uma universidade pontifícia promovida pela prelatura do Opus Dei, poderia não estar interessado em revelar dados que parecem retirar algum protagonismo à acção eclesial do seu fundador. Mas, ao fazê-lo, respeitando a verdade histórica, não diminuiu em nada o mérito de São Josemaria Escrivá, antes reforçou a componente eclesial da sua contribuição pastoral, que nasceu, não como uma originalidade pessoal, mas como uma concretização apostólica de um assumido desiderato do magistério petrino.

A antecedência histórica do magistério pontifício, confirma a acção da providência divina na fundação do Opus Dei, bem como a intrínseca eclesialidade do carisma desta instituição, nascida na Igreja e para a Igreja, como instrumento da sua realização no meio do mundo. Tanto o referido discurso de Bento XV, a 10-1-1920, como o posterior magistério de Pio XI, sugerem que esta instituição surgiu como providencial resposta a um anseio que já antes tinha sido explicitado e reiterado pelo magistério pontifício.

Nesta evocação do discurso de 10-1-1920, quiçá o primeiro documento pontifício em que se recorda o chamamento universal à santidade e ao apostolado (cf. Mt 5, 48), não podia faltar uma agradecida e jubilosa referência à terceira Exortação Apostólica do Papa Francisco, Alegrai-vos e exultai, sobre o chamamento à santidade no mundo actual, em perfeita sintonia com o magistério de Bento XV, Pio XI e o Concílio Vaticano II.