Entrevistas |
Catarina Martins de Bettencourt, diretora nacional da Fundação AIS
Iraque “pode ser uma luz” para o Médio Oriente
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A diretora nacional da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) considera que a “corajosa” visita do Papa Francisco ao Iraque pôs aquela comunidade “sofrida” nas bocas do mundo e foi o “passo inicial” para um caminho rumo à paz. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, Catarina Martins de Bettencourt testemunha o que experienciou, em 2015, junto da comunidade cristã perseguida naquele país. “Eles diziam-me que tinham tudo, porque tinham Deus com eles, todos os dias”.

 

Tivemos, recentemente, a visita histórica de um Papa ao Iraque: um país marcado pela violência étnica e inter-religiosa, há mais de 20 anos. Na sua opinião, qual foi a ‘porta’ que esta visita do Papa Francisco abriu para aquele país e para o mundo?

É uma viagem histórica, não só pelo Papa ir ao Iraque, mas também por esta ter sido uma viagem neste tempo de pandemia. Mostra a coragem que o Papa teve de ir e de estar. Não nos podemos esquecer que aquele é um povo que tem sofrido muito nos últimos anos, com toda a violência que tem acontecido. Penso que o mais importante desta viagem do Papa Francisco, e cujas consequências ainda iremos ver, futuramente, no terreno, foi trazer para os nossos dias, para os telejornais de todo mundo, este problema do Iraque e de olharmos para esta comunidade que tem sofrido muito. O Papa veio trazer este tema muito importante, porque habitualmente, com tantos acontecimentos diários e à semelhança do que acontece na Síria, fica tudo muito diluído, deixamos de olhar para os problemas com atenção.

Esta comunidade do Iraque é muito sofrida, precisa muito do apoio internacional, porque depois da ocupação dos territórios pelo autoproclamado Estado Islâmico, é necessário reconstruir tudo. O Iraque também está a viver uma crise económica muito grande, tem problemas de corrupção elevados, há vários problemas sociais no Iraque e o Papa acaba por trazer aquele povo, aquele país, para a primeira página, dizendo que eles precisam da nossa solidariedade – e não falo só da comunidade cristã. Creio que a grande mensagem do Papa é mostrar ao mundo que se o Iraque for ajudado, pode ser uma luz para aquela zona que, nos últimos anos, tem sido um verdadeiro barril de pólvora.

 

Durante os pronunciamentos do Papa no Iraque, o apelo ao perdão foi uma constante. Considera que o perdão ainda é possível?

É preciso trabalhar muito. Acho que no Iraque a comunidade cristã terá um papel fundamental, porque as feridas existentes são muito profundas e é preciso ajudar a curá-las. O Papa, ao falar do perdão, apontou também por onde se tem de começar a trabalhar, porque não é fácil perdoar a quem roubou a casa, a quem matou um familiar próximo, a quem raptou uma irmã... Não será fácil esse perdão, mas os iraquianos têm que começar a perdoar e têm que saber virar a página, com todas as dificuldades que sabemos que acontecem. Através dos testemunhos que vamos recebendo, há muitos cristãos que dizem que já perdoaram e que já conseguiram ultrapassar tudo isto. Este é um grande papel da Igreja, e será um grande desafio.

 

Houve um consenso por parte dos líderes mundiais que esta visita seria um ponto de viragem para a resolução de muitos dos problemas do Médio Oriente. Na sua opinião, o que há ainda a fazer no campo diplomático?

O facto de o Papa ter ido ao Iraque é um sinal muito forte para o mundo. Em termos diplomáticos, tem uma grande força. Os últimos anos foram dramáticos para o Iraque, desde as sanções económicas que sofreu, depois com todos os problemas que têm acontecido entre xiitas e sunitas, com a ocupação dos territórios pelo autoproclamado Estado Islâmico… Estes são problemas muito graves e o Iraque, hoje, precisa de ajuda da comunidade internacional para poder voltar a ter a sua grandiosidade, porque é uma nação extraordinária e que pode ser muito importante naquela zona.

Da diplomacia internacional, penso que é importante ajuda para ultrapassar esta crise económica que vivem e para reconstruir todo o país. Não se trata de impor a nossa democracia, mas ajudá-los a encontrar a melhor forma, o melhor sistema, para que todos possam conviver. E, nisso, a diplomacia internacional ainda tem muito para fazer, mas o Papa deu o passo inicial e que é fundamental para desbloquear uma série de processos.

 

Nesta visita, o Papa apelou à paz e referiu que essa paz só será possível se todas as comunidades – incluindo as cristãs –, tiverem os seus direitos assegurados. Da sua visita ao Iraque, em abril de 2015, como nos pode descrever o dia-a-dia destas comunidades neste país de maioria muçulmana?

Eu estive no Curdistão iraquiano, na zona de Erbil, onde existiam os vários campos de refugiados, com pessoas a viver em contentores, depois de as vilas e aldeias cristãs terem sido ocupadas em agosto 2014. Quando saí de Portugal, ia com a expectativa de encontrar uma comunidade com medo, receosa de se expor. Encontrei exatamente o oposto. Isso foi algo que me marcou porque, em todos os campos de refugiados onde havia comunidade cristãs, todos os contentores tinham cruzes pintadas nas portas, marcando a sua presença. Era uma comunidade que, apesar de todas as dificuldades, era muito viva e que não apagou as suas raízes, os seus sinais que as distinguem como cristãs. Lembro-me também que alguns dos campos tinham, à entrada, uma cruz gigante que se iluminava à noite. É uma comunidade com uma fé extraordinária. Eles diziam-me que tinham tudo, porque tinham Deus com eles, todos os dias. É com muitas saudades que relembro esta visita, porque encontrei o oposto do que pensava que ia encontrar.

Acredito que, se houver o empenho da comunidade internacional para dar sinais de que há esperança, cristãos e muitas pessoas de outras minorias irão ficar e é isso que dá beleza àquele país.

 

Atualmente, após o tempo de ocupação pelo Estado Islâmico, o sentimento do povo iraquiano mudou muito?

Pelos testemunhos que vamos recebendo, o sentimento é de insegurança. A comunidade cristã, nos últimos anos, foi discriminada, foi perseguida pelo facto de ser cristã. Lembremo-nos que, no Iraque, a religião está inscrita no cartão do cidadão e há discriminação ao nível da educação, da saúde, do mercado de trabalho... há este sentimento, sobretudo pelo facto de não se conseguir recuperar as casas, os terrenos, e por se viver numa situação económica difícil e num sistema corrupto, que tem feito com que muitos elementos das comunidades cristãs tenham saído, à procura de um futuro melhor para as suas famílias, para os seus filhos.

 

Nesta geografia, qual tem sido o trabalho e os principais desafios da Fundação AIS?

A Fundação AIS tem estado, há muitos anos, a ajudar a Igreja no Iraque e mais intensivamente desde agosto de 2014, quando as pessoas saíram de suas casas, sem nada, e ficaram a viver sem condições e sem trabalho. Foi uma comunidade que precisou de ajuda para tudo, para poder sobreviver. A AIS tem feito o trabalho de alimentar famílias, apoiar no aluguer de casa, quartos e de contentores para se poder viver. Também ajudámos na transformação de contentores em escolas para que as crianças pudessem continuar os seus estudos.

Passado este momento, e depois de a planície de Nínive ter sido libertada do autoproclamado Estado Islâmico, temos trabalhado muito na reconstrução das casas, escolas, igrejas, todas estas infraestruturas necessárias para que a comunidade possa regressar às suas aldeias e vilas. Neste momento, estamos na fase de continuar a alimentar as famílias e ajudar a recuperar as casas. Queremos – e este também é o pedido da própria Igreja no Iraque – não só continuar com esta parte de apoio à sobrevivência da comunidade, porque ainda não são autónomos, mas também, na parte pastoral, desejamos ajudar as pessoas a cimentar e a crescer na sua fé. Viramo-nos, assim, para aquela que é a nossa missão: uma missão pastoral, de ajudar a Igreja a estar viva, ajudar os padres e os bispos a poderem continuar a alimentar este povo e a dar-lhes a formação necessária para continuarem a ser fortes e um testemunho. É um trabalho que será longo, mas queremos continuar, porque achamos que o Médio Oriente não pode ficar sem a presença desta comunidade e, por isso, tudo faremos para continuar a ajudar esta Igreja local a que permaneça.

 

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“Ajuda é cada vez mais essencial para que a comunidade cristã possa sobreviver”

Que outras realidades, para além da do Iraque, suscitam igualmente a atenção da Fundação AIS?

Anualmente, estamos presentes com projetos em cerca de 145, 150 países, por ano, com cerca de 5000 a 5500 projetos anuais. Há muitos projetos, há muitas necessidades. Por isso, a ajuda é cada vez mais essencial para que a comunidade cristã possa sobreviver, continuar a viver a sua fé no país onde nasceram e onde escolheram viver.

Estamos presentes no Médio Oriente, mas também estamos muito focados em África e Ásia. Ásia é também um continente com várias situações muito dramáticas de perseguição e discriminação das minorias – e os cristãos são uma minoria neste continente. São zonas do globo para onde estamos, infelizmente, a olhar com muita atenção. Por um lado, na Ásia, temos mais a questão dos ultranacionalistas e dos próprios Estados que são repressivos para com as comunidades religiosas e, por outro lado, temos uma realidade em África da qual não sabemos tanto, mas que concentra grupos radicais que atuaram no Médio Oriente e que atuam impunemente. Aqui, a comunidade internacional continua a não atuar como devia, porque já se assistiu ao que aconteceu no Médio Oriente, nomeadamente no Iraque e na Síria, e estamos a deixar que aconteça o mesmo em África, que é um continente que nos preocupa muito.

 

Como é que alguém, estando em Portugal, pode ajudar a Fundação AIS no terreno?

Costumo dizer que basta nós querermos fazer alguma coisa que as coisas acontecem. No caso de Portugal, através da Fundação AIS temos sempre a possibilidade apoiar vários projetos, uns mais com um carácter humanitário, de emergência, outros com um carácter mais pastoral. Podemos sempre, através do nosso site, ter acesso às notícias da Igreja perseguida, em todo o mundo, mas também de exemplos positivos, porque há muitas coisas boas que acontecem no mundo. No nosso site estão os projetos disponíveis e informação sobre como pode ajudar.

Saiba mais: www.fundacao-ais.pt

 

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“A minha presença junto do Papa Francisco é também um sinal do afeto e da sua proximidade para com todos os benfeitores e amigos da AIS em Portugal que estiveram sempre comigo no meu pensamento e orações.” (Catarina Martins de Bettencourt, diretora da Fundação AIS)

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