Domingo |
À procura da Palavra
A glória sem poder
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DOMINGO XXIX COMUM Ano B

“O Filho do homem não veio para ser servido,

mas para servir e dar a vida pela redenção de todos.”

Mc 10, 45

 

Há livros nos quais tropeçamos várias vezes na vida. São como velhos amigos que encontramos, e parece que foi ontem que estivemos juntos. “O poder e a glória” de Graham Greene é um desses meus amigos. Foi com encanto que o revisitei durante o confinamento, à luz de um artigo de Luigi Ciotti, lido no L’Osservatore Romano o ano passado, a propósito dos 80 anos da sua publicação. O drama de um sacerdote que foge da perseguição anticatólica no México entre os anos 20 e 30, mas também foge de si mesmo e dos seus pecados, da fragilidade e da culpa, que vive a fé na doação da sua miséria, sem deixar de ser instrumento de compaixão, iluminou a minha leitura do evangelho deste Domingo.

 

A glória sem poder é o que Jesus propõe aos discípulos. O seguimento de Jesus implica o despojamento das riquezas, e também do poder. E bem sabemos como este pode ser mais subtil, tantas vezes apresentado como serviço, estatuto imprescindível para que “as coisas andem”, ou condição de fazer com que “tudo mude, para que tudo fique como está”, no dizer de “O Leopardo” de Lampedusa. Como poderíamos avaliar os nossos “pequenos poderes”? Ou julgamos que não os temos nem os desejamos? O poder que é serviço é-nos confiado muitas vezes. Tem forma de cruz; porque nos pede para dar mais vida!

 

À direita e à esquerda de Jesus, no calvário em Jerusalém, estavam dois bandidos. Foram eles que tiveram a “honra” de estar ao seu lado. Dos discípulos, diz-se que acompanhavam ao longe! Lembrar-se-iam Tiago e João do que tinham pedido a caminho de Jerusalém? Entenderam então de que cálice e de que baptismo Jesus lhes falara? Querer estar acima dos outros, ser mais importante, quantas vezes, querer moldar os outros ao nosso desejo, origina sofrimentos evitáveis. Na prisão, o sacerdote de Graham Greene “experimentou um ardor de indizível afeto. Não era mais do que um delinquente no meio de um bando de delinquentes: isto dava-lhe um sentido de fraternidade que nunca tinha experimentado nos velhos tempos, quando os devotos vinham beijar-lhe a luva de algodão negro”. Ao contrário do poder que domina, esmaga, escraviza, a glória de um Deus que serve como último de todos e dá a vida, revela o maior poder.

 

Servir e dar a vida”: eis o único poder que Jesus nos confiou. A única glória que nos pode engrandecer. A transparência das nossas vidas, a verdade e a coragem de assumir os nossos pecados, a justiça de reparar o mal e cuidar de quem magoamos, a confiança na misericórdia de Deus e dos irmãos não serão sinais desta glória sem poder?

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