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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
Fátima, um ‘thriller’ do Céu

Fátima é o nome da filha de Maomé, mas é sobretudo o local em que Nossa Senhora apareceu seis vezes, durante os meses de Maio a Outubro de 1917, por regra sempre no dia 13, talvez para contrariar o mau agoiro do número, que significa simbolicamente a unidade (1) e a trindade (3) em Deus. Fátima é, também, o nome de uma longa metragem, que já está acessível ao público português. Este filme, “inspirado em acontecimentos históricos e nas Memórias da irmã Lúcia”, conta com a actuação de Joaquim de Almeida, Goran Visnjic, Lúcia Moniz, Marco d’Almeida, Joana Ribeiro, Sónia Braga e Harvey Keitel, nos principais papéis.

Os acontecimentos de natureza sobrenatural, como são certamente as aparições que a Igreja católica reconhece dignas de crédito, sem que, por esse motivo, se convertam em artigo de fé, interpelam os crentes e os não crentes. E, por vezes, são os fiéis os mais incrédulos em relação a acontecimentos desta natureza.

Não foi por acaso que, como neste filme tão bem se mostra, a muito piedosa e virtuosa mãe da Lúcia foi quem mais se opôs à veracidade das aparições de Nossa Senhora. Não obstante a sua devoção, julgava impossível que a Mãe de Deus aparecesse à sua filha mais nova, bem como a dois sobrinhos seus, que supunha igualmente indignos de uma tal graça. Por isso, fez tudo o que pôde para conseguir, sem êxito, que desmentissem as aparições da Senhora mais brilhante do que o Sol. Mesmo depois de confirmada a veracidade das aparições, pela competente autoridade eclesiástica, a mãe da Lúcia manteve-se céptica.

O Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Patriarca de Lisboa, a cuja arquidiocese pertencia Fátima ao tempo das aparições, disse que não foi a Igreja que impôs Fátima, mas foi Fátima que se impôs à Igreja. Com efeito, foi a evidência do acontecimento sobrenatural que venceu as reticências da autoridade eclesial, inicialmente muito desconfiada quanto à autenticidade das aparições da Mãe de Deus.

O realizador deste filme, Marco Pontecorvo, optou, muito acertadamente, por centrar nos videntes a narrativa das aparições. Como é sabido, graças à explicação que o então Cardeal Joseph Ratzinger elaborou por ocasião da divulgação da terceira parte do segredo de Fátima, há que distinguir entre aparições e visões. No primeiro caso, trata-se de algo perceptível a todos os que se encontram no local, enquanto as visões são apenas percebidas por aqueles que receberam essa graça, como aconteceu em Fátima. Como é óbvio, esta distinção técnica em nada afecta a credibilidade das chamadas ‘aparições’ de Fátima.                

É costume falar-se dos três segredos de Fátima – a visão do inferno, a conversão da Rússia e o atentado ao Papa – mas não é descabido acrescentar um quarto milagre: a conversão e santidade dos pastorinhos. A Lúcia, bem como os seus primos Francisco e Jacinta, eram crianças absolutamente normais, sem nenhuma queda para o misticismo: antes das aparições na Cova da Iria, em vez de rezarem o terço, como os seus pais lhes tinham recomendado, dedicavam todo o tempo que o pastoreio deixava livre para a brincadeira. A Jacinta tinha até alguma vaidade e o Francisco não era muito piedoso, nem corajoso: só para evitar confusões, preferia ser vítima de um roubo do que exigir a devolução do que lhe pertencia.

Foi como crianças que os pastorinhos viveram as aparições de Fátima. Apesar do pânico que lhes causou a ameaça de serem atirados para um caldeirão de azeite a ferver, que faria sorrir um adulto, mas que, de facto, aterrorizou aqueles três miúdos, permaneceram firmes e não contaram a ninguém o segredo que lhes tinha sido revelado. O heroísmo dos dois mais pequenos, nos últimos meses das suas vidas, bem como a fidelidade da Lúcia, mesmo quando a mensagem de Fátima parecia menosprezada pela suprema autoridade eclesial, são inequívocas provas da santidade dos videntes.

Decerto, o filme Fátima não esgota um dos acontecimentos mais importantes da História do século XX, mas pode ser para muitos, também dos mais novos, uma fecunda experiência intelectual e espiritual. Que bom seria que, interpelados também pela mensagem mariana, muitos graúdos e miúdos, como os pastorinhos, fizessem das suas andanças terrenas um thriller celestial!