Por uma Igreja sinodal |
Sínodo dos Bispos
A “sinodalidade” na tradição neotestamentária: do synodos ao exodos
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A palavra synodos não consta em nenhum dos livros do Novo Testamento. Numa perspetiva lexical, o termo mais próximo do ponto de vista fonético e etimológico é synodia, usada em Lc 2,44 no episódio da perda de Jesus com 12 anos em Jerusalém e que se traduz comumente por “caravana, comitiva”. Apesar de não exprimir o que hoje se entende por “sínodo”, esta aproximação lexical permite esboçar a ideia de uma comunidade a caminho, ideia essa que está contida na noção eclesiológica de sinodalidade.

Porém, ainda que a palavra synodos não surja nos escritos neotestamentários, não significa que esteja de todo ausente como pano de fundo. Em primeiro lugar, a temática do “Caminho” é uma das mais constantes e importantes no contexto do Novo Testamento. Podemos encontrar a palavra “ὁδὸς” (caminho) 99 vezes (21 em Mt, 16 em Mc, 20 em Lc, 4 em Jo, 20 em At, 5 nas cartas paulinas, 3 em Hb, 3 em Tg, e em 2Pe, 1 em Jd e 2 em Ap). Sem entrar em grandes detalhes de cariz exegético, convém salientar apenas três dimensões em que o tema do Caminho assume especial perfil teológico:

- A matriz histórico-salvífica, nomeadamente no evangelho de Marcos, que define o seu programa teológico a partir da metáfora do Caminho mediante a citação de Is 40,3 (“eis que envio o meu mensageiro a preparar o teu caminho ... preparai o Caminho do Senhor”). A história da salvação é olhada a partir da continuidade de um caminho de Deus com o Seu povo, narrado no Antigo Testamento e cumprido plenamente no Novo. Para Marcos, o Caminho passa a ser um caminhar com Jesus, e a entrada neste Caminho coincide com o discipulado, como tão bem ilustra a famosa secção do Caminho da Galileia até Jerusalém (Mc 8,22-10,52);

- A concentração cristológica, vincada de forma particular no evangelho de S. João, em que Jesus se define como “o Caminho” e como condição para ir ao Pai (Jo 14,6). O Caminho definido por Marcos e já pré-anunciado em Isaías, que João também recupera em 1,23, tem uma finalidade: ir ao encontro do Pai. A comunhão com o Pai torna-se, por isso, o sentido teleológico da existência cristã, que tem na comunhão com Jesus a sua condição de possibilidade (Jo 15,4ss);

- A perspetiva eclesiológica, muito presente no livro dos Atos dos Apóstolos, postula o “Caminho” como uma experiência comunitária. Os seguidores de Cristo são designados como os “do Caminho” (At 9,2) e a Igreja é definida como o “Caminho” (At 19,9.23). Nesse sentido, o que define a pertença ao “Caminho” é a partilha de uma mesma fé em Jesus, que implica igualmente uma praxis ética bem definida e que se concretiza na vivência da fraternidade (At 2,42.44-45; 4,32).

Destes testemunhos poderemos depreender que os preâmbulos da “sinodalidade” ou do synodos estão associados à tematização teológica do Caminho (ὁδὸς), no seu sentido cristológico e teleológico, e da comunhão/companhia (syn). Os diferentes matizes dos autores evangélicos (inclui-se aqui o autor de Atos, o evangelista Lucas) acentuam a natureza sinodal da existência cristã a partir de três ideias-chave: é um caminho de Deus connosco, à luz da Sua Palavra profética; é um caminho que visa, em Cristo, uma comunhão mais perfeita com o Pai, sentido último do “caminho”; e é um caminho em Igreja, na Igreja e com a Igreja.

Não espanta por isso que os primeiros escritos do Novo Testamento (as cartas protopaulinas) tivessem como princípio-guia da ação pastoral o sentido da comunhão (koinonia) e da corresponsabilidade. Paulo usa de forma abundante a metáfora do corpo para definir a essência (sinodal) da Igreja: uma realidade compaginada e ordenada, em que todos os membros são necessários, iguais em dignidade pelo batismo (1Cor 12,12-13; Gal 3,28), no qual não existem papéis superiores ou inferiores. A responsabilidade pela vida comunitária deve ser, por isso, partilhada de acordo com os dons e carismas próprios de cada um (Ef 4,7). Este princípio da comunhão da Igreja enquanto Corpo místico de Cristo encontra na sinaxe eucarística o seu ponto de referência maior (1Cor 10,17), como que o lugar ordinário da sinodalidade enquanto concretização visível da unidade desejada por Cristo (Jo 17,21) e caminho conjunto na partilha da mesma fé e na participação de um único pão.

Mas se a “sinodalidade” eclesial vivida nos primeiros tempos do Cristianismo tem uma dimensão eucarística, não deixa de possuir uma matriz igualmente pneumatológica. Efetivamente, o Espírito Santo é o grande protagonista do livro que narra as origens da Igreja: os Atos dos Apóstolos. A organização eclesial, a aventura missionária e o crescimento das comunidades eram vistos como obra do Espírito Santo, que fazia “caminho” com a Igreja e dava testemunho da credibilidade do Evangelho (At 5,32). É a certeza da assistência do Espírito que permite traduzir o princípio da sinodalidade em alguns eventos sinodais, que surgiram para dar resposta a algumas questões e problemas surgidos no seio das comunidades. O livro dos Atos narra-nos fundamentalmente dois: um de caráter mais local (que diz respeito à comunidade de Jerusalém) e outro de caráter mais “universal” (que diz respeito a todo o território onde o movimento cristão está implementado, nomeadamente Antioquia, uma comunidade florescente e em crescimento).

O primeiro evento “sinodal” diz respeito à instituição dos sete (At 6,1-7), que a Tradição Católica interpreta como sendo o fundamento bíblico do nascimento do ministério diaconal. A necessidade de um serviço mais efetivo às viúvas, nomeadamente junto dos helenistas, obrigou os Doze a convocar uma assembleia com os outros discípulos para escolher homens “cheios do Espírito e de sabedoria” (6,3) para exercer essa tarefa, permitindo que os Apóstolos se dedicassem mais intensamente à oração e ao serviço da Palavra.

O segundo evento “sinodal” vem descrito em At 15, na famosa Assembleia de Jerusalém. Esta reunião nasce da necessidade de repensar a imposição da circuncisão e da Lei de Moisés aos pagãos entretanto convertidos ao Cristianismo. Este acontecimento parece já envolver uma grande assembleia, constituída não só pelos Apóstolos e Anciãos, mas também por um grupo mais alargado de fiéis (15,12.22.23). A formulação do veredicto final manifesta a convicção da assistência e chancela do Espírito Santo presente neste evento (“O Espírito Santo e nós”, v.28). Como preâmbulo dos eventos sinodais procedentes, a Assembleia de Jerusalém pode ser verdadeiramente inspiradora: é sobretudo um acontecimento onde se discute de forma aberta, crítica e profunda (15, 6-7), onde se escutam as diferentes perspetivas e posições (discursos de Pedro e Tiago, e testemunhos de Paulo e Barnabé), onde se faz silêncio reflexivo e introspetivo (15,12), onde se olha para a Sagrada Escritura como critério para interpretar o presente (15,13-18) e de onde se retiram orientações em vista de uma comunhão mais plena com a vontade de Deus (15,23-29).

Neste sentido, podemos afirmar que a sinodalidade no Novo Testamento é olhada a partir do eixo synodos – exodos, ou seja, de uma perspetiva ad intra para uma perspetiva ad extra. O episódio paradigmático desta realidade pode ser a narrativa dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35), onde o campo lexical do caminho é bastante abundante. Todos os elementos estruturantes de um caminho verdadeiramente sinodal estão aqui presentes: os discípulos que caminham juntos e discutem as questões entre si (24,15); Jesus que caminha juntamente com eles e os questiona (24,17), ao mesmo tempo que os ilumina na compreensão dos factos a partir da interpretação atualizada da Escritura (24,25-27); o reconhecimento de Jesus na fração do pão (24,30-31); a síntese de tudo o que aconteceu e foi dito “no Caminho” (24,32); e o anúncio alegre da experiência do “Caminho” (24,33-35). O caminho conjunto da Igreja é sempre o caminho de uma Igreja em saída, de cariz missionário, que procura não deixar ninguém para trás na sua missão evangelizadora. Nesse sentido, a teologia sinodal neotestamentária assenta bem na tríade proposta pelo Papa Francisco: comunhão – participação – missão.

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