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P. Gonçalo Portocarrero de Almada
A Boa Nova da santidade

No primeiro dia de novembro, a Igreja universal celebra todos os santos. Muitos dos bem-aventurados, que foram como tal declarados pela suprema autoridade apostólica, têm um dia próprio no calendário litúrgico, mas a Igreja tem consciência de que essas declarações, por numerosas que sejam – só no pontificado de São João Paulo II, 1341 fiéis foram solenemente beatificados e 482 canonizados – não abrangem a totalidade dos bem-aventurados e, por isso, reserva uma solenidade para a celebração de todos os santos, que compreende todos os que já gozam da bem-aventurança celestial, mesmo que nunca tenham sido beatificados ou canonizados pela Igreja, até porque também os haverá de outras religiões, e talvez até, sem religião nenhuma (cf. Mt 8, 10-12).

A celebração de todos os santos responde, de algum modo, ao chamamento universal à santidade, exigência evangélica (Mt 5, 48) que o Concílio Vaticano II recordou com especial ênfase. Se é tão consolador olhar para o Céu e nele contemplar a multidão dos santos e santas de Deus – leigos e sacerdotes, seculares e regulares, casados e celibatários, novos e velhos, analfabetos e sábios, etc. – não é menos animador descobrir, também aqui na terra, indícios de santidade. De facto, como dizemos ao professar a nossa fé, a Igreja é una, santa, católica e apostólica. Não apenas no seu divino Fundador e na sua Santíssima Mãe, mas também em muitos dos seus membros, cuja virtude passa despercebida aos olhos do mundo.

São Paulo, afligido pela idolatria dos atenienses, aproveitou o altar à desconhecida divindade para anunciar a Cristo, o verdadeiro Deus que aqueles gregos ignoravam (At 17, 15-23). Há, em todos os homens, uma propensão para a santidade que, nem sempre, chega a ser efectiva e que, quase nunca, é notícia. Também muito perto de nós, talvez até na nossa própria casa, há santas e santos que, provavelmente, nunca serão como tal reconhecidos, mas cuja virtude pode até ultrapassar a dos que foram solenemente beatificados e canonizados.

Não me atreveria a dizer que a protagonista desta história real é uma santa, mas não tenho quaisquer dúvidas quanto à heroicidade do seu feito. Se o Evangelho é, até em termos etimológicos, a Boa Nova, que bom seria que a imprensa cristã fizesse eco da notícia da santidade escondida de tantos e tantas que, discretamente, dão um extraordinário testemunho da sua fé em Cristo.

Os factos resumem-se em poucas palavras, na sua nua e crua dramaticidade. Foi no dia 5 deste mês, pelas 17h e 30m, em Madrid que uma mãe atropelou três alunas. As mais velhas, de 10 e 12 anos, ficaram feridas em estado grave, mas a mais pequena, de 6 anos apenas, faleceu pouco depois.   

Pouco haveria a dizer deste caso se não fosse a reação da mãe da menor falecida. Com efeito, quando já nada podia fazer pela sua filha, foi consolar a mulher que, involuntariamente, ocasionara a sua morte, abraçando-a carinhosamente.

Numa sociedade paganizada, os gestos de perdão são uma raridade. O expectável teria sido que esta infeliz mãe tivesse censurado a responsável pelo acidente de que resultou a morte da sua pequena filha. Mesmo que, apesar da sua dor, fosse capaz de evitar os sentimentos de vingança e de ódio, inadmissíveis num cristão, poderia ter culpabilizado a desgraçada protagonista do acidente. Se também se conseguisse abster de uma tal reação, seria compreensível que, pelo menos, esmagada pela dor da perda da sua pequenina filha, fosse incapaz de ir ao encontro do sofrimento alheio. Contudo, esta boa mãe ultrapassou esses sentimentos humanos, decerto compreensíveis, para ir ter com quem tinha morto a sua filha e a abraçar! É caso para dizer: ó mulher, grande é a tua fé! (Mt 15, 28).

É também muito comovedora a carta pública dos pais da aluna falecida, em que não só desculpabilizam completamente a condutora do carro que a atropelou, como dão graças a todos os que a socorreram em tão terrível tragédia. Um texto escrito com as lágrimas da sua dor, mas em que não há nenhum ressentimento, nenhuma revolta, nenhuma crítica, nenhuma censura, mas apenas e só perdão e agradecimento, ou seja, aquele amor que se chama caridade.

Só a caridade é caminho para a nova evangelização. Que bom seria que também dos fiéis de hoje se pudesse dizer o que os pagãos diziam dos primeiros cristãos: “Vede como eles se amam!” (Tertuliano, Apolog., 39).