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António Bagão Félix
A colheita

Há uns dias, deparei com um belo texto do sacerdote e teólogo italiano Ermes Ronchi. A certa altura, detive-me numa sua frase, quase telúrica: “Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dispensou os profetas […] e os bons”.

Pus-me a pensar, então, na insubsistência árida com que nos olhamos e vemos o mundo. Perdemo-nos nas circunstâncias, sofremos com a rarefacção da exemplaridade, desgastamo-nos no que nos é exterior e desvalorizamos o que nos deveria servir de guia interior.

E, no entanto, como cristãos, temos, diante de nós, a vitalidade intemporal das virtudes teologais: a Fé, a Esperança e a Caridade.

A Fé como alimento que dá sentido à Vida. A Fé sem a qual estamos condenados à obsessão comodista e resignada do ver para crer. A Fé que, como dizia Santo Agostinho, é o caminho iluminado pelo qual acreditamos para compreender. A força infinita da Fé que Jesus Cristo disse, quando questionado pelos apóstolos: Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: arranca-te e transplanta-te para o mar, e ela vos obedecerá (Lc 17, 5-6).

A Esperança na salvação e na vida eterna, pela quais pedimos a Deus que Venha a nós o Vosso Reino, assim na Terra como no Céu. A Esperança na justiça e na paz, na harmonia entre as gerações, na dignidade inalienável da pessoa, na valorização da memória a preservar no futuro. Esperança que o Senhor expressou no Sermão da Montanha ao terminar as bem-aventuranças: Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus (Mt 5,12).

A Caridade como expressão sublime de serviço aos outros, de gratuitidade, de partilha, de generosidade desinteressada. Muitas vezes me interrogo sobre o valor que ainda terá esta virtude num tempo aparentemente trucidado pela supremacia do egoísmo, do efémero e do frenesim do quotidiano. A Caridade que Cristo nos ensinou ao dizer que quando dás esmola, não saiba a tua mão esquerda o que fez a tua direita, para que a tua esmola fique em segredo, e teu Pai, que vê o que fazes em segredo, te pagará (Mt 6,2-4).

É, pois, necessário que não desistamos e que não nos deixemos seduzir pelo comodismo da indiferença, pelo hedonismo e utilitarismo insaciáveis, pelo mimetismo social dos falsos modelos de vida, pela dissolvência dos valores familiares, pela subversão da Criação, pela relativização absurda do dom da vida.

Agora que nos aproximamos do Natal, não hesitemos, não tenhamos medo de nos afirmarmos católicos na afirmação essencial da vida em toda a sua integralidade, denunciando todas as formas capciosas e eufemísticas de oferecer como aceitáveis actos intrinsecamente maus e contrários à dignidade humana.

Há muita gente a implorar uma ajuda na busca do caminho da Fé, da Esperança e da Caridade. Há muita gente a querer dar um renovado sentido à sua vida e a reencontrar o Natal no coração. Há muita gente a procurar a essência do Natal, a exaltação da virtude, a reinvenção da quietude, da paz interior, a satisfação pelo dever cumprido. É necessário olharmos para dentro e, depois, partirmos para os outros. Com esperança e alegria. Porque, como Jesus disse aos seus discípulos: “A colheita é muita, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita.” (Mt 9,-37-38).

(texto escrito com a ortografia anterior ao AO)

 

foto por Brooke Cagle on Unsplash