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“Pensa se fosses imigrante e não te deixassem entrar”
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O Papa Francisco questionou os países que fecham fronteiras. Na semana em que visitou o Chipre e a Grécia, com diversas mensagens fortes sobre os refugiados e a comunhão com os ortodoxos, o Papa aceitou a renúncia do Arcebispo de Paris.

 

1. O Papa Francisco gostaria de perguntar aos políticos que encerram fronteiras com muros ou vedações de arame farpado como se sentiriam “se fossem migrantes e não os deixassem entrar”. A bordo do avião papal, a 6 de dezembro, no regresso a Roma após a viagem a Chipre e à Grécia, Francisco respondeu desta forma à questão sobre a crise migratória no Mediterrâneo e na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia. “Sobre as pessoas que impedem as migrações ou fecham as fronteiras, ou constroem muros, instalam arames ou espirais de arame farpado para impedir o acesso, o que lhes diria primeiro é: ‘Pensa se fosses imigrante e não te deixassem entrar’”, declarou.

Depois de, nesta viagem, ter visitado o campo de refugiados de Lesbos e ter feito duras críticas à indiferença de alguns países europeus perante a tragédia que os migrantes estão a viver, o Papa considerou que quem constrói muros “perde o sentido da História”, pois no passado também na Europa houve migrantes, e observou que, embora seja “um direito” dos Governos dizer que não têm capacidade de receber tantos migrantes, estes precisam de ser “acolhidos, acompanhados, ajudados e integrados”. “Se um Governo não pode encarregar-se disso, tem de dialogar com o resto dos países, para que cada um faça a sua parte”, apontou, repetindo a advertência feita no campo de Lesbos: “Se não resolvermos o problema da migração, corremos o risco de fazer naufragar a civilização. Não só a do Mediterrâneo, mas toda a nossa civilização”.

 

2. Durante a visita à Grécia, de 4 a 6 de dezembro, o Papa esteve no campo de refugiados da ilha grega de Lesbos onde lamentou a indiferença do mundo e desafiou o mundo a olhar nos olhos as crianças refugiadas. “Passaram-se cinco anos desde a visita que aqui fiz com os queridos Irmãos Bartolomeu e Jerónimo. Depois de todo este tempo, constatamos que pouca coisa mudou na questão migratória”, lamentou, dirigindo-se depois aos refugiados: “Irmãs, irmãos, vim de novo aqui para vos encontrar. Estou aqui para vos certificar da minha proximidade. Estou aqui para contemplar os vossos rostos, para ver-vos olhos nos olhos. Olhos cheios de medo e ansiedade, olhos que viram violência e pobreza, olhos sulcados por demasiadas lágrimas”. Francisco convidou a olhar “sobretudo os rostos das crianças”. “Tenhamos a coragem de nos envergonhar à vista delas, que são inocentes e constituem o futuro. Interpelam as nossas consciências, perguntando-nos: ‘Que mundo nos quereis dar?’ Não fujamos apressadamente das cruas imagens dos seus corpinhos estendidos, inertes, nas praias”, apelou.

Num encontro com jovens em Atenas, que encerrou a viagem, Francisco lembrou que o cristianismo não é uma obrigação, mas um caminho de relação com Jesus. “Não somos cristãos porque temos de o ser, mas porque é estupendo” sublinhou. Como em qualquer relação, os jovens não devem ter medo das dúvidas e das dificuldades. “Não tenhais medo das dúvidas, porque não são faltas de fé. Antes pelo contrário, as dúvidas são ‘vitaminas da fé’: ajudam a robustecê-la, tornando-a mais forte, ou seja, mais consciente, mais livre, mais madura”, garantiu. Antes, numa Missa com a pequena comunidade católica da Grécia o Papa destacou que “a redenção não começa em Jerusalém, Atenas ou Roma, mas no deserto”, e que “o Senhor prefere a pequenez e a humildade” aos palácios dos poderosos.

Noutro encontro, Francisco pediu perdão aos líderes da Igreja Ortodoxa da Grécia pelos erros cometidos pela Igreja Católica e que contribuíram para a divisão entre os cristãos. “Ações e opções que pouco ou nada têm a ver com Jesus e com o Evangelho, antes marcadas por sede de lucro e poder – com vergonha o reconheço, da parte da Igreja Católica –, fizeram murchar a comunhão. Deixamos, assim, que a fecundidade fosse comprometida pelas divisões”, destacou.

 

3. O Papa Francisco despediu-se de Chipre com os votos de que a ilha, que se encontra dividida entre uma parte grega e outra turca e acolhe o maior número de refugiados e imigrantes ilegais da União Europeia, em proporção à sua população, se transforme num “laboratório de fraternidade”. Num encontro ecuménico numa das poucas igrejas católicas da capital de Chipre, Nicósia, o Papa ouviu os testemunhos de quatro migrantes. “Deus também sonha, como tu, Mariamie, que vens da República Democrática do Congo e te definiste ‘cheia de sonhos’. Como tu, Deus sonha um mundo de paz, onde os seus filhos vivam como irmãos e irmãs”, garantiu. Este foi o último ato público na ilha de Chipre, a 3 de dezembro. “Possa esta ilha, marcada por uma dolorosa divisão, tornar-se com a graça de Deus um laboratório de fraternidade”, desejou.

Neste país de esmagadora maioria ortodoxa, Francisco celebrou Missa para a pequena comunidade católica em Nicósia, no Estádio GSP, sublinhando que “sem diálogo continuamos cegos”. “Se permanecermos divididos entre nós, se cada um pensar apenas em si mesmo ou no seu grupo, se não nos relacionarmos, não dialogarmos, não caminharmos unidos, não nos poderemos curar plenamente da cegueira”, disse o Papa. No discurso diante do Santo Sínodo da Igreja de Chipre, Francisco criticou os preconceitos mútuos que marcaram o passado, pediu trabalho comum baseado no Evangelho e deixou um forte apelo à unidade entre católicos e ortodoxos. Já às autoridades civis e políticas, o Papa tinha convidado à paz entre turcos e gregos e, num encontro com representantes da Igreja Católica da ilha, Francisco pediu uma Igreja paciente e fraterna, sem muros, que seja exemplo para o resto da Europa.

 

4. O Papa Francisco “aceitou a renúncia ao governo pastoral da Arquidiocese Metropolitana de Paris apresentada por Monsenhor Michel Aupetit”, anunciou o boletim diário da Santa Sé. A nota oficial não refere os motivos do afastamento, mas a imprensa em França dá como certo que o arcebispo gaulês apresentou a sua demissão depois de admitir que se comportou de forma “ambígua” com uma mulher. A carta tinha sido enviada ao Papa naquela semana. Em comunicado, o arcebispo Michel Aupetit diz-se “muito perturbado” com o que considera serem “ataques” à sua pessoa. “Os dolorosos acontecimentos da semana passada, dos quais já falei, levaram-me a colocar a minha missão nas mãos do Papa Francisco para preservar a diocese da divisão que a suspeita e perda de confiança provocam sempre”, esclareceu D. Michel Aupetit, de 70 anos, médico de formação que tinha sido nomeado Arcebispo de Paris em 2017.

Aura Miguel, jornalista da Renascença, à conversa com Diogo Paiva Brandão
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