Lisboa |
Os símbolos do Natal
Alegrem-se os céus, exulte a terra!
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Neste tempo invernal tudo volta a florescer, as decorações nas ruas, nas árvores e até nas nossas casas. O clima sugestivo do Natal fascina, tanto hoje como outrora, porque, de certo modo, intuímos a grandeza e a simplicidade desta celebração e que tantos símbolos nos ajudam a compreender melhor.

Todavia, a particular e intensa atmosfera espiritual que circunda o Natal desenvolveu-se na Idade Média, graças a São Francisco de Assis e ao seu Presépio em Greccio. Segundo a tradição cristã que nos chegou, tudo o que é grande se faz pequeno, ao alcance do coração de cada um, exemplo disso é o Presépio, algo que nos habituámos a ver, quer nas nossas casas, quer um pouco por toda a parte, pode tornar-se algo muito comum, mas está escondida nele um acontecimento misterioso e inalcançável.

É a festa que canta o dom da vida. O nascimento de uma criança deveria ser sempre um acontecimento que traz alegria; o abraço de um recém-nascido suscita normalmente sentimentos de atenção e de cuidado, de emoção e de ternura. Por isso, mesmo quem não se professa crente, pode sentir nesta celebração cristã algo de extraordinário e de transcendente, algo de íntimo que fala ao coração.

O Natal pode tornar-se assim uma ocasião e uma oportunidade privilegiada para nos deslumbrar com a Beleza sempre eterna e visitar neste tempo algumas manifestações artísticas da contemplação d’Aquele que nasceu numa pobre manjedoura em Belém.

 

1. ESTRELA DE BELÉM

No Evangelho (cf. Mt 2, 1-12) ouvimos a respeito dos Magos que eles, tendo chegado a Jerusalém provenientes do Oriente, perguntam: «Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo» (V. 2).

A estrela guiou os Magos até ao lugar onde estava Jesus. Entraram, prostraram-se e adoraram-no, oferecendo os dons simbólicos: ouro, incenso e mirra, porque um dos mandamentos mais claros da Escritura é que ninguém se deve aproximar de Deus de mãos vazias (Ex 23,15). Nestes três presentes, a tradição da Igreja viu – com algumas variações – representados três aspectos do mistério de Cristo: o ouro apontaria para a realeza de Jesus, o incenso para o Filho de Deus e a mirra para o mistério da sua morte e Paixão.

A luz que emana da Estrela, é um dos mais ricos de significado espiritual. É um símbolo que recorda uma realidade que atinge o íntimo do homem: refiro-me à luz do bem que vence o mal, do amor que supera o ódio, da vida que derrota a morte. O Natal faz pensar nesta luz interior, na luz divina e que se materializa em particular, nas ruas e praças das nossas cidades enfeitadas com luzes resplandecentes ou a iluminação do presépio e da árvore de Natal nas nossas casas.

 

Venerar a secular imagem da Virgem de Belém

A nossa primeira proposta de visita é a contemplação da Nossa Senhora de Belém, uma escultura do século XV é uma das poucas esculturas medievais de Lisboa conservadas após o Terramoto de 1755.

Na sua iconografia, retracta a Virgem Maria intercessora, orando de mãos postas perante o Menino Jesus deitado sobre o regaço maternal. Tem como fonte provável o ícone do Anapeson – a imagem de Cristo reclinado, adormecido, que aguarda a Ressurreição –, e confere à Virgem Maria o papel de intermediária e mediadora na Salvação dos Homens.

Sempre cuidadosamente transportada pelos freires da Ordem de Cristo, esta imagem com eles veio da Ermida no Restelo, diante da qual rezaram os navegadores portugueses, entre os quais Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, antes de partirem para as descobertas marítimas e hoje pode ser venerada na Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, situada na Rua da Alfândega em Lisboa.

 

2. PRESÉPIO

Na noite de Natal de 1223, em Greccio, Francisco de Assis fez uma representação da cena de Belém com atores e adereços, o Santo mandou preparar uma manjedoura cheia de feno e colocou perto dela uma vaca e um burro. Sobre a manjedoura foi colocado um altar em que se cantou a Missa da meia-noite. Pela consagração do pão e do vinho, Jesus esteve presente e vivo naquele altar-manjedoura.

Era criado assim o primeiro presépio popular da história e era introduzida essa representação na devoção popular. Nessa cena da natividade, fez-se uma representação de todos os detalhes, mas só um era exacto: na manjedoura esteve o próprio Jesus, na hóstia consagrada. Foi então que a cena da gruta de Belém saltou das páginas do Evangelho para os corações de todos.

Nos seus quase 800 anos de história, o Presépio conheceu inúmeras formas e manifestações. Do esplendor dos presépios barrocos, a tantas obras ingénuas e infantis, da mera representação das três figuras centrais, ou mesmo apenas do Menino, até à inclusão de uma profusão de intervenientes, por vezes bastante inesperados, tudo é possível no Presépio.

 

Contemplar o esplendor do Presépio da Basílica da Estrela

Em Portugal, o culto do presépio atinge o máximo esplendor entre os séculos XVII e XVIII, sendo vários os escultores conceituados que, desde então, conceberam figuras para a encenação da Natividade. Os presépios portugueses possuem um valor iconográfico e etnográfico indiscutível, exemplo disso é o Presépio de Machado de Castro patente na Igreja Santíssimo Coração de Jesus, também conhecida como Basílica da Estrela.

Trata-se de uma peça de incalculável valor histórico-religioso e o núcleo central deste presépio é constituído por uma pequena família, à volta de quem se movimentam muitas figuras cheias de vida, de alegria, de colorido. Machado de Castro completou ainda o Presépio enriquecendo-o de cenas bíblicas intimamente ligadas ao nascimento de Jesus. Trata-se das seguintes: a visita dos Magos vindos do Oriente, a fuga para o Egipto, o martírio dos inocentes, o anúncio aos pastores e a multidão dos anjos.

O Presépio de Machado de Castro, como todos os outros por mais simples que sejam, só se compreende fazendo a ligação com o primeiro que ocorreu, ao vivo, numa Gruta em Belém.

 

3. ÁRVORE DE NATAL

A Árvore de Natal, independentemente das suas origens históricas, é uma antiga tradição de origem germânica e data do tempo de S. Bonifácio (séc. VIII), que exalta o valor da vida, uma árvore sempre verde é sinal de uma vida perene. Assim, este símbolo torna-se eloquente também em sentido tipicamente cristão: na Cruz de Cristo, a Igreja vê a árvore da vida – árvore fecunda que manifesta a vitória definitiva do amor e da vida, sobre o mal e a morte.

As árvores decoradas com luzes em toda a parte recordam que também este ano haverá alegria. «Alegrem-se as árvores da floresta» (Sl 96,12) refere o salmista, mas esta alegria só é plena, como nos recorda o Papa Francisco, quando «a vida não se programa, mas dá-se; onde já não se vive para si, com base nos próprios gostos, mas para o outro».

 

Vista deslumbrante na Igreja de Santa Cruz do Castelo

A terceira proposta de visita é à Igreja de Santa Cruz do Castelo e à sua Torre. Esta igreja foi edificada logo após a tomada de Lisboa aos mouros, em 1147, no local onde existiria a mesquita central da cidade, o edifício actual é uma reconstrução pós-terramoto. A capela-mor apresenta um retábulo em talha, enquadrando pintura seiscentista, em tábua, sofreu acrescento para cobrir as dimensões do retábulo, representa a “Descida da Cruz” sendo de autoria desconhecida, proveniente da destruída Ermida do Espírito Santo. Da mesma ermida veio, também, a imagem da Santíssima Trindade, do séc. XV, em pedra de Ançã policromada, existente no Baptistério.

Merece destaque a Torre sineira desta igreja que assenta sobre uma torre da alcáçova do Castelo de São Jorge. Hoje é possível aceder a este espaço e ter uma vista mais clara e ampla sobre o Rio Tejo e toda a envolvente, tratando-se de uma vista deslumbrante com séculos de vida que sempre ali esteve e que agora se pode contemplar e, se desejar, até pode tocar num sino.

 

4. SÃO NICOLAU OU O PAI NATAL

Ainda que não se note, também o Pai Natal é um sinal cristão deste tempo natalício. Como se sabe, a origem do Pai Natal é cristã. A referência original é o São Nicolau que nasceu na segunda metade do século III em Pátara, actual Demre, importante cidade portuária da antiga Lycia, hoje Turquia.

Enquanto bispo de Mira, São Nicolau foi reconhecido pelo seu amor aos pobres, às crianças, aos estudantes e aos marinheiros. Conta-se inclusivamente a história do rico pai de três raparigas, que caído em desgraça não tinha dote para conceder aos noivos das filhas e assim poderem casar. São Nicolau secretamente atirou uma bolsa de ouro pela janela, caindo junto aos sapatos e meias, tornando desta forma possível o desejado casamento das raparigas. Aqui teve início a tradição de associar São Nicolau à entrega de presentes por esta altura do ano, comum em vários países europeus e também nos países de tradição ortodoxa.

São Nicolau morre em Mira no dia 6 de Dezembro de 342, já com fama de santidade. O seu túmulo era um importante lugar de peregrinação, até que uns marinheiros italianos levaram o seu corpo para Bari (Itália) no ano de 1087, onde ainda hoje se encontra na Basílica de São Nicolau.

A generosidade de São Nicolau para com as crianças distribuindo presentes, e o facto de a sua festa litúrgica, a 6 de Dezembro, por ser próxima do Natal, irá transformá-lo mais tarde, na figura secularizada do Pai Natal. Um dos marcos importantes foi o poema de Clement Clarke Moore (1779-1863) «Uma Visita de São Nicolau» publicado no jornal Sentinel de Nova Iorque a 23 de Dezembro de 1823. Também a ilustração de Haddon Sundblom para os anúncios natalícios de um refrigerante e claramente dirigidos às crianças tornou-se decisiva para dar à figura do Pai Natal um papel central nas celebrações natalícias.

 

Maravilhar-se em São Nicolau

A quarta e última proposta de visita é à Igreja de São Nicolau. A veneração a São Nicolau estendeu-se à Igreja latina sobretudo a partir do século XI, com a trasladação das suas relíquias para Bari, Itália. Em Lisboa encontramos referências a uma igreja dedicada a este santo já nas primeiras décadas do século XII. Depois do terramoto de 1755, a reconstrução da actual igreja termina apenas em 1850.

No tecto da nave da actual igreja encontramos várias pinturas com a representação das três virtudes teologais (Fé, Esperança e Caridade) e de cenas da vida de São Nicolau, ladeadas pelos Doutores da Igreja e pelos Evangelistas. Entronizado sobre uma peanha ao centro do altar-mor o padroeiro São Nicolau, com as suas insígnias episcopais, imagem setecentista em madeira estofada e policromada, que terá sobrevivido ao terramoto. O tecto da capela-mor ostenta uma pintura de António Manuel da Fonseca, com representação da Glória de São Nicolau. Nos altares laterais destacamos a imagem de Nossa Senhora da Caridade, da escola de Machado de Castro. As estações da Via Sacra em baixo-relevo nas pilastras da nave são obra da década de 1930, atribuída a Salvador Barata Feyo.

Em 1834, acabou por receber um significativo espólio de vários conventos encerrados nos anos subsequentes. Na Capela-mor destaca-se o trono eucarístico em talha dourada que proveio do Convento do Corpus Christi. O baptistério, proveniente do Convento de São Francisco da Cidade, com dois relicários. O órgão de génese setecentista, no coro, é originário do Convento do Beato. Na sacristia paroquial, sobre o arcaz, um frontal de relicários em talha dourada, com vinte e duas imagens-relicários em madeira policromada, proveniente do Convento das Clarissas de Nossa Senhora da Esperança.

por José Manuel Pimenta, coordenador do projeto Quo Vadis Lisboa
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