Entrevistas |
André Costa Jorge, diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) Portugal
“Que cada paróquia possa participar no processo de acolhimento de refugiados”
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O diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) Portugal deixa um apelo às paróquias e aos cristãos para se tornarem “comunidades de hospitalidade”, como “desafiou o Papa Francisco”. Em entrevista ao Jornal VOZ DA VERDADE, André Costa Jorge sublinha que o “desafio primordial é encontrar casas para os refugiados” e partilha “o sonho” de ter em Lisboa “uma estrutura de acolhimento de transição para 100 pessoas refugiadas”.

 

Como descreve a situação atual dos migrantes e refugiados, em particular os que foram acolhidos em Lisboa?

Os migrantes voluntários, ou económicos, são uma realidade distinta dos refugiados requerentes de asilo. São pessoas que veem com um projeto migratório e podem, a qualquer momento, regressar aos seus países. É preciso pensar nas condições em que estas pessoas veem e porque é que têm de passar por um calvário de situações, do ponto de vista humano e social, bastante vulneráveis, no processo de regularização. Em Portugal, não havia, nem há, uma longa tradição no acolhimento de refugiados, que chegam ao abrigo de programas de reinstalação e veem com outro tipo de enquadramento e de acompanhamento. No caso dos migrantes, o trabalho que temos é muito mais focado naquilo que são as preocupações dessas pessoas que é garantir que a situação de precariedade não ponha em causa o projeto migratório; no caso das pessoas refugiadas, o foco é sobretudo na reparação da situação de perda que as pessoas passaram e sofreram, de trauma severo, nalguns casos, de situação de grande precariedade e vulnerabilidade psicológica, estabilizar as pessoas e reconstruir com elas um projeto de vida, que passará também pelo acesso ao mercado de trabalho. O trabalho com as pessoas refugiadas é muito mais exigente, muito mais intenso. Naturalmente que qualquer pessoa, migrante ou refugiada, que pede apoio ao JRS merece a nossa dedicação e o nosso cuidado. O tipo de projeto é que é distinto.

 

O que está a acontecer em concreto no terreno?

O facto de as pessoas refugiadas terem passado por um processo violento de perda condiciona muito o processo de acompanhamento, acolhimento e integração. Foi assim com a população da Síria, do Iraque, da Eritreia, nos últimos anos, e neste momento temos praticamente 300 refugiados afegãos ao nosso cuidado, que estão num processo de passar da fase de acolhimento de emergência para uma fase de encontrarmos definição no projeto familiar, de estabilização e de autonomização.

 

Foi noticiado na passada semana que a Fundação Calouste Gulbenkian vai apoiar, com mais de um milhão de euros, 12 organizações sociais que atuam junto de pessoas mais vulneráveis, entre as quais o JRS. O que nos pode revelar acerca deste apoio?

O valor deve ser cerca de 100 mil euros, mas o que este apoio revela é um voto de confiança no trabalho que fazemos no terreno e com as pessoas. Estamos gratos por este reconhecimento. Neste momento temos não apenas o acompanhamento dos migrantes, mas também continuamos a fazer o acolhimento de pessoas refugiadas, no âmbito dos programas de reinstalação, quer da Turquia, quer do Egito, em articulação com o Alto Comissariado para as Migrações, e estamos a acolher, desde agosto, em parceria quer com a Câmara de Lisboa, quer com o Alto Comissariado, estas cerca de 300 pessoas do Afeganistão e gostávamos de poder acolher mais. Portanto, este tipo de apoio só nos pode ajudar a desenvolver melhor as atividades que temos previstas de acompanhamento, de acolhimento e de integração, focados muito naquilo que são as atividades que promovam a autonomia e a integração destas pessoas.

Ainda temos de dialogar com a Fundação Gulbenkian, mas estes fundos serão usados em algumas áreas que devem ser desenvolvidas, nomeadamente no acesso à aprendizagem do Português, língua não materna, o reconhecimento de qualificações, o desenvolvimento de programas de capacitação com vista à integração no mercado de trabalho, as pontes com o mundo empresarial e também o apoio na saúde mental, que temos vindo a desenvolver e a perceber que é fundamental. Há também uma área que, muitas vezes, andamos em torno dela e que é fundamental, que é o acesso à habitação…

 

Em entrevista recente denunciou que os refugiados sentem “muita dificuldade no mercado de arrendamento” e sublinhou mesmo a existência de “receios infundados” de quem arrenda casas. Mais do que um problema económico, este é um problema de mentalidades? A sociedade precisa de mudar corações?

Quando chegam a Portugal, as pessoas são acolhidas em estruturas de acolhimento de transição, que são provisórias. E as pessoas precisam mais do que transitoriedade nas suas vidas, até porque isso foi o que conheceram na sua vida toda, desde que perderam tudo. Para que os processos de integração possam ser bem-sucedidos, a habitação é um aspeto fundamental. Para aceder à habitação, ou ficamos em casa dos nossos pais e familiares, ou temos meios económicos ou de crédito para comprar casa ou arrendamos casa. Não há outra forma. Estas três hipóteses estão altamente dificultadas às pessoas refugiadas e às pessoas migrantes, de uma maneira geral. Estas pessoas têm menos do que qualquer um de nós, qualquer comum cidadão. Como os refugiados afegãos me disseram, eles estão a começar abaixo de zero, muito abaixo de zero.

Os programas de acolhimento são de um ano e meio, temos de perceber para onde as pessoas vão passado esse tempo. É preciso que o Estado e a sociedade civil colaborem ativamente nesta área, que é difícil. As casas de arrendamento são o desafio primordial, pelo que criámos um gabinete de habitação para dialogar com as autarquias para encontrarmos respostas e mecanismos que façam as vezes das garantias para que as pessoas refugiadas possam arrendar casa sem a necessidade de ter um fiador. O Estado tem património que pode ser mobilizado, mas sabemos que os processos são lentos. Tudo isto se torna mais difícil se do lado da sociedade civil, dos senhorios, não houver disponibilidade para arrendar as casas a estas pessoas. Nós encontrámos mecanismos que garantam aos senhorios que o arrendamento é um bom negócio para eles. A mensagem que gostava que passasse é que estamos neste momento numa fase em que temos cerca de 50 agregados familiares para quem é preciso encontrar casas e nós temos mecanismos que garantem a segurança do arrendamento destas pessoas. O que precisamos é de pessoas que confiem nisto. Como cristãos, somos chamados a esta abertura de espírito e de coração. Temos encontrado, felizmente, muitos senhorios que disponibilizam, para arrendamento, e a preços justos que permitam que estas pessoas possam viver, e do nosso lado temos vindo a trabalhar no sentido de garantir que o risco do arrendamento está salvaguardado.

 

De que forma as paróquias e os cristãos podem ajudar os refugiados?

O meu apelo, na Diocese de Lisboa, é que as pessoas possam contactar o JRS ou a PAR - Plataforma de Apoio aos Refugiados, em www.refugiados.pt, e ajudem fazendo parte das comunidades de hospitalidade, que são a ativação do desafio do Papa Francisco. O acolhimento de refugiados não é um processo meramente administrativo e político. Deve envolver as comunidades. Creio que um dos grandes desafios da Igreja em Portugal, e concretamente de Lisboa, é como é que este desafio do Papa para o acolhimento de refugiados se pode efetivar. E a maneira de efetivar é as pessoas participarem e fazerem parte das comunidades de hospitalidade. Temos tido, ao longo dos últimos anos, experiências de paróquias que participaram e participam no processo de acolhimento e têm sido sempre experiências muito positivas. Mesmo quando as pessoas saem ou resolvem autonomizar-se e sair do país, a experiência que fica é a de uma comunidade que se abriu ao acolhimento e se preocupou com a vida das pessoas. Faço a analogia com uma criança que nasce: uma comunidade que acolhe uma família refugiada é como um casal que acolhe uma criança que nasce. É tudo novo. Os senhores padres, nas paróquias, são fundamentais. Ainda agora tivemos o caso, aqui, muito perto, de um paroquiano que ouviu a homilia do pároco – no caso, do padre João Caniço, no Lumiar – e que nos contactou e disponibilizou uma casa para arrendamento. É isso que nós queremos e nós faremos todo o processo. Para que servem casas fechadas quando temos famílias que estão necessitadas delas? Creio que não há Domingo em que o Papa Francisco não fale no drama do acolhimento dos refugiados. O que falta para a Igreja local perceber que pode participar no processo de acolhimento? O JRS Portugal está a fazer este processo e basta que as paróquias, as comunidades cristãs, os padres, nos contactem. Apelamos a que cada paroquiano, cada paróquia possa participar no processo de acolhimento de refugiados.

 

 

JRS Portugal

www.jrsportugal.pt

 

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“Ter na Diocese de Lisboa uma estrutura de acolhimento de refugiados”

Em 2013, o Papa Francisco pediu que os conventos, mosteiros e outros imóveis da Igreja que estejam vazios pudessem receber refugiados. Em Lisboa, este é um sonho ainda muito distante?

Gostávamos muito de poder ter na Diocese de Lisboa uma estrutura de acolhimento que permitisse o acolhimento de refugiados. Estamos a fazer, com a Arquidiocese de Évora, em parceria com os Salesianos e uma paróquia, a requalificação de um antigo colégio dos Salesianos, que está devoluto e não tem utilização, para se tornar num centro de acolhimento que estará pronto no final de 2022, com capacidade para acolher cerca de 20 famílias. Gostávamos de poder replicar essa experiência também em Lisboa. Gostávamos de encontrar um espaço na Diocese de Lisboa que tivesse a capacidade de acolhimento de até 100 pessoas refugiadas. Creio que isso seria uma boa resposta, à semelhança desta experiência que estamos a ter em Vendas Novas, Évora. Que pudesse ser um espaço que permitisse o acolhimento de transição. É preciso haver estruturas de acolhimento de emergência. Portugal e a Europa vão continuar a precisar de respostas de acolhimento. Ainda agora tivemos de colocar quase 180 pessoas num hotel, porque elas chegaram e não havia essa resposta. Estas pessoas estão hoje a sair dessa estrutura hoteleira e vão para uma casa de retiros em Fátima. Sonho em termos aqui um centro de acolhimento que servisse e estivesse próximo dos nossos serviços, e gostávamos de o fazer em parceria com alguma paróquia ou com algum instituto religioso que pudesse disponibilizar este tipo de infraestrutura.

 

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Perfil

André Costa Jorge, de 52 anos, é diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) Portugal desde 2008. “A missão do JRS são estes três verbos: acompanhar, servir e defender. E a missão não estará completa se nós só fizermos parte dela”, salienta, sublinhando que “o trabalho, na Igreja, de promoção da dignidade da pessoa humana” deve levar a uma “aproximação às pessoas em sofrimento e aos vulneráveis”. Casado, pai de seis filhos entre os 26 e os 9 anos é, desde outubro passado, avô de um neto. Paço de Arcos é a sua “paróquia de origem e de vivência”, a que se seguiu uma ligação a Caxias – em que esteve 18 anos nas comunidades neocatecumenais –, e, depois, a Algés. Atualmente, é da paróquia de Carnaxide, onde os filhos andam na catequese. “Estar ligado aos jesuítas há 13 anos deu-me uma visão mais ampla dos carismas próprios dos movimentos, das realidades eclesiais e da espiritualidade inaciana. Mas mais do que pertencer a este ou àquele movimento ou espiritualidade, para mim, a Igreja, na sua diversidade, é a minha casa, é a nossa casa”, refere.

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