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Dia Mundial da Paz
É urgente “tornar possível” a paz
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O tema da Mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, assinalado no primeiro dia do ano, foi o ponto de partida para o desafio que o Jornal VOZ DA VERDADE propôs a três profissionais para quem os temas “diálogo entre gerações”, “educação” e “trabalho” – apontados pelo Papa Francisco como “três caminhos para a construção duma paz duradoura” – estão ligados aos seus percursos profissionais e de vida.

 

“Quero propor, aqui, três caminhos para a construção duma paz duradoura. Primeiro, o diálogo entre as gerações, como base para a realização de projetos compartilhados. Depois, a educação, como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento. E, por fim, o trabalho, para uma plena realização da dignidade humana. São três elementos imprescindíveis para tornar «possível a criação dum pacto social», sem o qual se revela inconsistente todo o projeto de paz.”

Mensagem do Papa Francisco para a celebração do 55.º Dia Mundial da Paz (texto completo em: https://bit.ly/55msgPaz)

 

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O segredo de viver em paz

Por Júlio Isidro

Locutor de rádio e apresentador de televisão

 

Leio e reflicto sobre as palavras do Papa Francisco na sua mensagem quanto à urgência da Paz.

Quase como um eco, surge-me a palavra diálogo.

Se este for capaz, o outro será possível.

Associo o ofício de comunicador aos dois conceitos. Só entendo a comunicação social, se for mesmo social, e dominada pelo desejo concretizável do diálogo.

Num tempo de solidões impostas pela peste que assola o mundo, dialogar é o remédio possível para o dia límpido em que esta nuvem negra se dissipe.

Ao microfone, perante câmaras ou em páginas escritas, tenho assumido como missão, – perdoem-me o exagero do termo – passar mensagens e ouvir ou sentir o efeito que elas terão tido, na massa anónima a quem me dirijo.

É uma forma de diálogo que pode ser inter-geracional ou não.

Será que os jovens praticam o exercício da dialética entre si? E os mais velhos falam-se ou falam apenas?

Quando as tecnologias, com o argumento da vida facilitada, vão delapidando a palavra ao vivo, viva, sem barreiras nem preconceitos, caminhamos para um mundo de silêncios resumidos e inquietantes.

E aqueles que vieram do passado e que são ultrapassados pelas “facilidades” do futuro? São para excluir…

Tantas interrogações para uma resposta urgente. A juventude cresce para acumular saber. A velhice usa-o.

Porque não essa sublime troca de experiências porque o conhecimento torna a alma mais jovem e ameniza a velhice.

Os guardiões da memória – expressão do Papa Francisco – devem também ouvir o que há de salutar e até mesmo de irreverente na vitalidade da juventude.

E a juventude precária destes tempos de competição desbragada e soluções imediatistas, pode e deve fazer uma pausa nas suas desenfreadas corridas para um obscuro futuro, e passar pelo passado nas palavras de quem o viveu.

O passado não é um local para viver, apenas um recanto cheio de história e estórias.

Somos todos igualmente importantes na vida e no mundo, enquanto dela e dele fazemos parte.

No ciclo da vida uns chegam, outros partem. Mas há um testemunho a passar de mão em mão. Os que vêm de novo não devem recusar o que não conhecem. Os que um dia irão partir, viverão a alegria de sentir o que pode ser um futuro melhor se, nessa passagem, sentirem e entenderem o calor generoso das novas gerações.

Neste meu ofício de comunicar, nunca me senti velho junto dos jovens, nunca quis ensinar, mas antes partilhar experiência. E estive e estou sempre atento à inovação porque só assim, entendo os caminhos deste mundo.

Há que harmonizar o direito de se ser novo e o respeito de se ser velho.

Tudo isto feito com tranquilidade porque como disse S. Francisco de Sales, patrono dos jornalistas, “O bem não faz barulho e o barulho não faz bem”.

Talvez seja este o meu segredo para viver em paz.

 

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Educar é um risco?

Por Leonor Zincke Gameiro

Mestre em Ciências Farmacêuticas

 

Está enraizada a ideia de que a Paz é a ausência de conflito, não necessariamente alcançada através do diálogo e do respeito, mas tantas vezes (aparentemente) conseguida por sucessivos arrastos dos mesmos conflitos para debaixo do tapete. Facilmente percebemos que não é uma verdadeira paz, pois o tapete começa a ganhar um relevo acentuado que gera tropeços e lesões. Mas como viver e promover a paz sem conhecer os limites do homem e da natureza? O Papa Francisco reforça a importância da Educação enquanto “fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento”, e não como uma grande despesa, que tantas vezes pesa nos discursos dos nossos políticos.

O Santo Padre apela a uma mudança de paradigma para uma educação baseada na cultura do cuidado. É comum ouvir-se que ninguém dá aquilo que não tem. A educação integral, que inclui a instrução, dá a quem dela participa um enorme espaço de liberdade, do uso das diferentes dimensões do homem. É urgente “alimentar” todas estas vertentes, assim como num canteiro no qual a água deve chegar a todas as raízes.

O conhecimento técnico/científico tem progredido, mas não é acompanhado por uma maior sabedoria de como o viver e “usar” para a construção de um mundo melhor. Sou da área da saúde na qual o objetivo é tratar pessoas, com doenças. Mas em parte alguma do currículo académico surgiu a bioética, ou outros estudos sociais. Sendo o objetivo a pessoa em si, será este currículo suficiente? No ensino superior é urgente integrar a cultura do cuidado: os conteúdos ensinados são necessários para cuidar do outro. No entanto, parece haver uma inversão, no qual o meio tornou-se o fim.

O que o Papa Francisco diz é essencial. Não basta um investimento económico na Educação, mas é também urgente uma reestruturação do ensino, que integre uma cultura do cuidado do outro e do mundo. Ninguém pode ser educado apenas numa escola ou universidade. Como se diz em África, é preciso uma aldeia para educar uma criança. E o próximo passo é perceber como é possível celebrar o “pacto educativo global” que tenha em vista o progresso responsável, de acordo com a dignidade da pessoa humana. Assim nascerão pessoas mais “maduras”, empenhadas no mundo, e capazes de refletir.

A Educação é o caminho que permite que as pessoas construam e integrem a Paz não com base em vícios e em metodologias superficiais, mas a partir dos frutos de uma criatividade fundamentada, proveniente de espaços de silêncio e diálogo, de estudo do passado e do presente, de sonhos, de ecos interiores e exteriores. Por isso, sim, educar é um risco, porque a pessoa educada decide em liberdade, mas com conhecimento de si e do que a rodeia.

“A paz é conjuntamente dádiva do Alto e fruto de um empenho compartilhado”. Não nos podemos desfocar da verdadeira Paz que vem do Alto, mas não nos podemos desresponsabilizar de lutar pela mesma, para todos. Félix Dupanloup dizia que “a educação eleva a alma; a instrução alimenta o Espírito”. E é apontando para Cima que devemos fazer de tudo por elevar não só as nossas almas, mas as dos que nos rodeiam.

 

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A construção duma paz duradoura

Por Deolinda Machado

Liga Operária Católica - Movimento de Trabalhadores Cristãos (LOC/MTC) da Diocese de Lisboa

 

O Papa Francisco é uma referência inspiradora não só para os cristãos, mas para toda a Humanidade. Na presente mensagem dedicada ao Dia Mundial da Paz para 2022, o Papa propõe “três caminhos para a construção duma paz duradoura”, cujo conteúdo é acolhido fortemente no coração de cada ser humano, porque lhe é intrínseco, fazendo parte dos alicerces da construção da vida, que a esperança acalenta a cada momento, dado que a paz é o maior anseio dos povos.

1- “O diálogo entre as gerações”. É pertinente o conteúdo que esta mensagem transporta, o convite à partilha permanente entre gerações, à cooperação e não à competição. Foi positiva a atitude de vários jovens que, em solidariedade com os mais velhos, foram fazer as entregas ao domicílio das compras necessárias no supermercado, na farmácia ou outros, logo que a pandemia disparou. São exemplos a enaltecer e a repetir.

2- “A educação como motor de paz” porque o investimento na educação e na formação dos jovens é essencial para inverter o quadro de injustiças, da pobreza hereditária, que passa de pais para filhos e netos, que o sistema vigente continua a produzir.

Paulo Freire fala-nos da consciencialização como processo no qual as pessoas atingem uma profunda compreensão, tanto da realidade sociocultural das suas vidas como da sua capacidade para transformá-la. Fala também da militância de causas. E esta é a causa em torno da qual nos encontramos: a luta pela erradicação da pobreza. É que “a pobreza não é fruto do destino; é consequência do egoísmo”, como nos lembrou o Papa no V Dia Mundial dos Pobres, em novembro, último.

3- “Promover e assegurar o trabalho constrói a paz”

A LOC/MTC da Diocese de Lisboa aprovou como lema: A URGÊNCIA DE COMBATER A EXCLUSÃO DOS JOVENS, NO MUNDO DO TRABALHO evidenciando entre os seus objetivos contribuir para a evangelização do mundo do trabalho, tendo particular atenção às condições de vida e de trabalho dos jovens face à precariedade e ao descarte a que muitos estão sujeitos, apoiando e acolhendo iniciativas que os jovens preparam para levar as questões do “Trabalho”, à Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023.

“O trabalho é um fator indispensável para construir e preservar a paz (...) é o lugar onde aprendemos a dar a nossa contribuição para um mundo mais habitável e belo”, refere o Papa Francisco. É inaceitável que uma pessoa não ganhe o suficiente para viver com dignidade, o próprio e a sua família. É inaceitável que haja trabalhadores pobres. Estudos recentes referem que um em cada dez trabalhadores é pobre; uma em cada cinco crianças é pobre, porque os pais são pobres.

A pandemia, que assolou a Humanidade, veio destapar problemas que há muito careciam de soluções. Veio também fazer com que reflitamos e mudemos comportamentos, acerca da forma como a sociedade se organiza e de como são tratadas as pessoas, sobretudo os trabalhadores mais jovens e os migrantes. Os “trabalhadores precários estão cada vez mais vulneráveis; muitos daqueles que desempenham serviços essenciais são ainda menos visíveis à consciência pública e política”, frisa o Papa.

Em unidade, cristãos e não cristãos, façamos como milhares de mulheres cristãs, muçulmanas e judias que, marchando juntas pela Paz, afirmam que a Paz é possível e, por isso, é um dever.

TODOS, NÃO SOMOS DEMAIS, COMO CONSTRUTORES DE PAZ!

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