Lisboa |
Padre António Pedro Boto de Oliveira (1971-2022)
“Ofereceu-se totalmente por todos”
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O padre Jorge Anselmo conviveu diariamente, nos últimos 14 anos, com o padre António Pedro Boto de Oliveira, falecido a 5 de janeiro, e lembra “o amor e o cuidado pela beleza” que o sacerdote tinha “em relação ao património” e “à liturgia”. Cardeal-Patriarca de Lisboa recorda como “a fé venceu sempre” durante o tempo de doença do pároco de Santa Catarina e das Mercês.

 

“Destes quase 14 anos juntos diariamente, guardo uma coisa que é indissociável dele: o amor e o cuidado pela beleza, seja em relação ao património, seja em relação à liturgia. Algo que definia o padre Pedro era este sentido da beleza das coisas. Por isso, a paixão que ele tinha pela conservação e pelo cuidado do património – que ele procurava incutir nos outros – e que é um património que é catequético, que é celebrativo. Não é uma questão monumental, é património que nos comunica uma vivência de fé e convoca para a celebração da fé. Fosse a nível do património, fosse a nível da própria liturgia, ou seja, das celebrações litúrgicas”, recorda ao Jornal VOZ DA VERDADE o padre Jorge Anselmo, que conheceu o padre António Pedro “há 32 anos”, quando ambos entraram no Seminário de Almada, em 1990, que nesse tempo pertencia ao Patriarcado. “Ficámos logo amigos, nessa entrada para o seminário. Foi um tempo de muito ânimo, que incutíamos um ao outro e também a colegas mais próximos, com tudo o que é próprio de amizades de jovens: a alegria, o entusiasmo, mas também a ajuda”, salienta. Após dois anos em Almada, entraram ambos no Seminários dos Olivais e, hoje, o padre Jorge partilha um acordo que tinham nessa época. “Há dias, estava a lembrar-me que nós tínhamos um acordo no seminário: quando algum se estava a exceder, em algum comentário ou com alguma atitude menos positiva, o outro dizia ‘stop’. Bastava isso. Era um acordo entre nós, para nos ajudarmos a crescer humanamente e espiritualmente”, recorda.

 

Força e resiliência

O padre António Pedro Boto de Oliveira nasceu a 5 de fevereiro de 1971, em Lisboa, tendo falecido na noite do passado dia 5 de janeiro, no IPO, em Lisboa, aos 50 anos. Foi no final de 2019 que o sacerdote do Patriarcado foi diagnosticado com cancro e, destes dois anos de luta contra a doença, o padre Jorge Anselmo destaca a “força interior” do amigo. “Tenho comentado com algumas pessoas que nunca o tinha visto com tanta força, com tanta resiliência, como nestes dois anos. Ele teve mais força e resiliência na doença do que em outras situações mais pequenas do dia-a-dia, que aborrecem e desanimam. Nesta doença, vi-o sempre com uma força interior e uma resiliência incrível”, assegura.

Este sacerdote recorda também o desejo do colega em “estar presente” junto das paróquias. “Nunca tivemos uma discussão séria neste tempo todo de amizade, mas nestes últimos tempos havia dias em que quase estávamos à beira de uma discussão e tinha muito a ver com isso, porque eu achava que ele precisava de parar, recolher-se um pouco, e ele não o conseguia fazer, não o queria fazer. Sempre que tinha forças, o padre Pedro celebrava, aparecia, estava”, revela, sublinhando, por isso, “o desejo de estar vivo” e “o sentido de missão” do sacerdote.

Lembrando também a “grande devoção a Santa Teresinha” que partilhava com o colega sacerdote, o padre Jorge Anselmo partilha ainda uma história que o marcou neste tempo de doença do padre António Pedro. “Uma imagem que continuo a ter muito presente é ele sentado sempre no mesmo cantinho do sofá, na casa paroquial, a fazer terços. Fez muitos, muitos terços… se calhar, mais de duas centenas”, conta. “Ele dizia que estes terços são, em si mesmo, uma oração dirigida a Maria”, acrescenta. Alguns dos terços “foram oferecidos a familiares e amigos”, mas “muitos foram entregues às paróquias”. “O padre António Pedro teve este cuidado pastoral de oferecer os terços para vender, em favor das necessidades das paróquias. O material era todo comprado por ele e, neste momento, penso que já não há terços ou há quatro ou cinco, se houver”, adianta.

Antes da doença e da pandemia, o padre António Pedro não era muito dado a redes sociais. Uma realidade que depois se alterou. “Com as limitações que a doença lhe impôs, ele começou a comunicar imenso através de vídeos no Facebook. Uns mais pessoais, outros de reflexões a partir do Evangelho do dia, outros mais formativos e informativos sobre o património das nossas paróquias. De facto, ele descobriu ali um outro púlpito, no meio das limitações em que se encontrava”, observa.

 

Celebração “magnífica”

Os padres António Pedro e Jorge Anselmo fizeram a formação juntos e foram ordenados sacerdotes no mesmo dia, a 29 de junho de 1996, nos Jerónimos, tendo celebrado as bodas de prata (25 anos) sacerdotais no ano passado, juntamente com mais seis sacerdotes – os padres Armindo Reis (pároco de Sintra), Carlos Marques (pároco da Silveira), Jorge Doutor (vigário paroquial de Sintra), José Luís Costa (pároco de Paço de Arcos), José Miguel Pereira (reitor do Seminário dos Olivais) e Ricardo Ferreira (vigário judicial), numa Missa presidida pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. “Dois colegas nossos propuseram que se organizasse, mesmo num contexto de pandemia e de doença do padre António Pedro, uma celebração muito simples em Santa Catarina, somente com o senhor Patriarca e os nossos pais, para o António Pedro não ter de se deslocar. Quando lhe comunicámos, ele disse que tinha todo o gosto, mas quando demos por isso ele estava a preparar uma celebração magnífica! Lá está, o gosto pelo cuidado e pela beleza dos momentos da liturgia. O padre António Pedro estava a preparar tudo para que, de facto, fosse um dia memorável. Foi um momento muito, muito feliz para ele”, assegura o padre Jorge Anselmo, que desde 2008 acompanhou o padre António Pedro em Santa Catarina e nas Mercês e agora lhe sucede como pároco.

 

“Doação de vida”

O Cardeal-Patriarca de Lisboa presidiu, a 6 de janeiro, à Missa exequial do padre António Pedro e destacou, a partir do Evangelho lido na celebração, a “coincidência entre a ida de Jesus à Sinagoga de Nazaré, onde tinha sido criado, e a presença do padre Pedro nesta Igreja de Santa Catarina, onde também foi criado para a fé e cresceu nessa mesma fé”. “É notável! E mostra-nos como o lugar onde a fé nasce e cresce, e se alimenta e depois serve, é precisamente a comunidade cristã”, frisou D. Manuel Clemente, sublinhando ainda o “exercício paroquial muito belo e muito convincente” do “nosso queridíssimo padre Pedro”.

Na Igreja paroquial de Santa Catarina, o Cardeal-Patriarca recordou que a doença do sacerdote “nunca foi uma doença fácil”. “Foram sempre difíceis os seus tratamentos, desde logo os primeiros que, enfim, o tornariam até quase incapaz de continuar o seu ministério pastoral, com muita dificuldade em falar, em alimentar-se, com dificuldade sobre dificuldade. Mas até ao fim, desde quando apareceu lá no Patriarcado, em dezembro de 2019, até agora, na última vez que o encontrei no IPO, a fé vencia sempre. E a fé que significa ver as coisas a partir de Deus. E com Deus não há fim, há um constante prosseguir e recomeço”, garantiu. “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé!”, acrescentou D. Manuel Clemente, não esquecendo “o sentido de doação de vida” do padre António Pedro Boto de Oliveira. “Ofereceu-se por todos nós, ofereceu-se por todos vós, os paroquianos de Santa Catarina e das Mercês, não por palavras, mas totalmente”, enalteceu.

 

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Desafios pastorais e monumentais

Colaborador desde 2008 das paróquias de Santa Catarina do Monte Sinai e de Nossa Senhora das Mercês, o padre Jorge Anselmo tomou posse como pároco destas duas comunidades, no passado dia 11 de janeiro, numa celebração presidida por D. Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa, na igreja das Mercês. A nomeação do sucessor do padre António Pedro foi revelada pelo próprio Cardeal-Patriarca de Lisboa, na Missa exequial do antigo pároco. “O padre Jorge conhece muito bem estas comunidades, está completamente dentro do espírito que também moveu o padre António Pedro e digamos que é uma sucessão sobrenatural”, apontou D. Manuel Clemente, assegurando ainda proximidade ao novo pároco: “Estas duas comunidades foram verdadeiramente comunidades vivas, vivendo muito da vida do seu pastor. Caríssimo padre Jorge, é esse legado que tu agora vais acompanhar e que eu acompanharei também, com muita proximidade, porque também tenho muito coração aqui”.

Enquanto pároco de Santa Catarina e das Mercês, o padre Jorge Anselmo refere, ao Jornal VOZ DA VERDADE, ter “dois grandes desafios”, um “a nível pastoral” e outro “de cuidado dos espaços enquanto monumento”. “Pastoralmente, no meio da cidade que está tão desertificada de população residente, há que manter uma comunidade que seja viva. Podemos ser poucos, mas também aqui temos procurado abraçar os projetos do caminho sinodal e da Jornada Mundial da Juventude. Ou seja, este não ficar de fora da Igreja só porque somos poucos ou a comunidade é envelhecida, e não nos deixarmos ficar como uma comunidade que seja só prestadora de serviços, mas uma comunidade que se mantém viva, celebra a fé e faz caminho”, deseja o sacerdote.

O padre Jorge salienta ainda que estas paróquias têm “duas igrejas que são monumentos magníficos, lindíssimos”, mas que têm “problemas enormes de manutenção, não só do dia-a-dia como necessidades urgentes de obras e de restauro”. “As Mercês têm o telhado numa lástima e Santa Catarina tem o teto – que é precioso, uma obra de arte única – a cair pedaço a pedaço”, alerta o novo pároco destas paróquias da cidade de Lisboa, partilhando ainda uma história com o seu antecessor: “Na Igreja de Santa Catarina, temos o órgão para restaurar, que era o grande sonho do padre Pedro, que me dizia: ‘Ao menos que toque no dia do meu funeral’. Eu respondia-lhe: ‘Então, vais ter de viver mais 20 ou 30 anos…’” Mesmo sendo “comunidades pequenas e envelhecidas”, e com “dificuldades económicas”, o padre Jorge Anselmo garante ter “um bom núcleo de pessoas que tem sentido de participação e de pertença” para enfrentar estes desafios.

 

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“Que grande lição de amor, padre Pedro!”

No final da celebração exequial do padre António Pedro, o leigo João Luís Ferreira, das duas paróquias, lembrou como “toda a comunidade sentiu medo” ao saber da doença do pároco, há dois anos. “Mas o medo transformou-se em coragem, a coragem em esperança e a esperança em resiliência. Resiliência é uma palavra que define o que foi a vida deste homem de Deus nestes últimos dois anos do seu peregrinar terreno”, apontou, lembrando ainda “a entrega de vida nas mãos do Pai celeste e da Mãe auxiliadora”. “Que grande lição de amor, padre Pedro!”, sublinhou João Luís Ferreira.

 

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“Amigo e Irmão,

Andámos juntos no Pré, entrámos juntos no Seminário e no Ministério. Vives agora a hora maior da tua vocação!  Deus chama-te! E tu sabes ser rápido a escutar e a preparares-te para responder. Desde o Pré que assim é!

Vivas esta hora e esta viagem em paz e em Deus. O Belo, o Amor e a Ternura que tanto amaste e serviste te envolvam e embalem! E a nossa querida Mãe do Céu te leve ao colo!

Em Deus!”

Cónego José Miguel Pereira, reitor do Seminário dos Olivais, no Facebook

texto e fotos por Diogo Paiva Brandão
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