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No coração do Islão em Pemba, o Pe. Roca sonha uma nova igreja
Sair daqui seria uma traição
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Foi no bairro de Mahate e nos bairros em redor que nasceu a insurgência que transformou Cabo Delgado numa zona de guerra. Desde há quatro anos que está a nascer também por ali, aos poucos, uma nova igreja católica. É um dos sonhos do Pe. Eduardo Roca, um espanhol que se recusou a ir embora, a abandonar o seu povo no auge dos ataques terroristas…

 

Eduardo Roca de Oliveira estava comovido. A voz chegou a tremer um pouco quando procurou responder, com a câmara de filmar ligada, o que estava ali a fazer. “Sou uma presença de Deus, uma presença pobre… mas uma presença da Sua misericórdia e do Seu acolhimento.” É um padre católico em Mahate, no meio do bairro que é o coração do Islão na cidade de Pemba. Mahate estende-se ao longo de uma estrada poeirenta e é o retrato da pobreza da cidade, da região. Quando chegou, a missão católica não tinha padre. Apenas as Irmãs Beneditinas eram ali o rosto escasso de uma presença que, no entanto, chegou a ser pioneira. Foi neste bairro que os padres Monfortinos abriram no final da década de quarenta do século passado a primeira missão quando chegaram a Pemba. “E Pemba era, toda ela, uma cidade muçulmana há mais de mil anos…” E foi também ali, no meio das ruas poeirentas de Mahate, que nasceu a semente do terrorismo que levou Cabo Delgado até às bocas do mundo. “Foi aqui que, de algum modo, se preparou e surgiu a insurgência destes grupos terroristas do norte.”

 

“Partir seria uma traição a Jesus”

O Pe. Eduardo chegou a Mahate em 2012. “Cheguei há 10 anos e aqui ao meu redor não há nenhuma família cristã.” As que vivem ali estão na periferia do bairro que é ele próprio uma das periferias de Pemba. No auge dos ataques terroristas, no final do ano 2020, a situação de insegurança tornou-se de tal forma preocupante que a embaixada de Espanha pediu com insistência para que o Pe. Eduardo se fosse embora. Mas ficou. “Os ataques terroristas eram cada vez mais próximos e sobretudo depois do ataque a Palma, que foi especialmente trágico, a embaixada de Espanha pediu-me e a todos os espanhóis para abandonarmos a região indo para zonas mais seguras, para Nampula ou até mais para o sul. Fui directamente confrontado, mas respondi logo que não. ‘Como é que abandono esta comunidade que é praticamente a minha família’? Nestes 10 anos, criei laços, criei família, criei comunidade.” E ficou. “Se fosse embora seria até uma traição ao povo, à minha missão, uma traição a Jesus!”

 

O sonho da nova igreja

Uma das razões que o terá levado também a ficar era o desejo de ver construída uma nova igreja, um novo espaço que acomodasse tudo aquilo que estava a ser feito por ali na promoção daquelas populações tão desafortunadas. Desde há quatro anos que, ao lado da antiga capela dos padres Monfortinos, está a nascer agora, com o apoio da Fundação AIS, um novo espaço para a comunidade cristã local. É uma ousadia. “O Bispo disse-me que estava a desafiar o Espírito Santo, pois tinha começado a construir sem ter como terminar a obra… Ele faz essa piada comigo e de facto tem sido assim.” A importância desta nova igreja vai para além das palavras de circunstância que se possam dizer. O Pe. Eduardo tem sido um dos militantes do diálogo inter-religioso e sente que é por ali, no meio de um bairro como Mahate, que se pode passar das intenções das palavras às acções concretas. “Pensai que estamos a construir uma igreja católica no meio de sete mesquitas, onde a presença cristã está mais na periferia…” É uma ousadia de quem quer transformar a Igreja, a presença da Igreja num lugar de acolhimento, num lugar da misericórdia de Deus. O Pe. Eduardo não tem tempo para pensar no perigo. O pior talvez já tenha passado. Mas nunca se sabe. Há muito a fazer por ali, junto das populações locais, junto do povo de Mahate que se transformou na verdadeira família deste sacerdote de 53 anos de idade… “É preciso dar testemunho da presença de Cristo no meio de todos…”

texto por Paulo Aido, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre
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