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A caminhada sinodal no Patriarcado de Lisboa
“Lançar o desafio e desinstalar”
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Duas leigas e dois leigos, de quatro paróquias de diferentes zonas do Patriarcado de Lisboa, partilham a experiência de participação no caminho sinodal convocado pelo Papa Francisco. Não escondendo que “a pandemia tem dificultado muito os trabalhos”, todos são unânimes em considerar o Sínodo sobre a Sinodalidade 2021-2023 uma “oportunidade de missão e evangelização”.

 

Uma oportunidade

Na cidade de Lisboa, mais concretamente na paróquia de São Francisco Xavier, no Restelo, a caminhada sinodal tem sido entendida como “uma oportunidade grande”. “Não é por acaso que o caminho sinodal surge no contexto pandémico. Fecharam-se as portas, os canais da graça e tudo isto está com muita fragmentação – palavra utilizada pelo Papa Francisco –, mas este caminho sinodal é uma reabertura, até com mais promessa, porque as pessoas querem viver o seu cristianismo de uma forma mais pura, mais direta, com os toques da graça que sentiram ao longo da vida. Temos aqui uma oportunidade grande”, salienta, ao Jornal VOZ DA VERDADE, a coordenadora paroquial do Sínodo, Dina Matos Ferreira. Quando foi convidada pelo pároco, cónego José Manuel Ferreira, em novembro passado, esta leiga de 54 anos procurou “interpretar o pensamento do Papa Francisco” e “o que ele pretendia desta caminhada sinodal”. “Uma das coisas que me chamou à atenção é que um dos frutos da caminhada sinodal sejam os próprios encontros. Mais do que as sínteses, o importante é pôr as pessoas a caminhar, pôr as pessoas em contacto umas com as outras. Promover os encontros já é, por si, um fruto da caminhada sinodal”, garante. Considerando que no Restelo “as pessoas são muito qualificadas”, a responsável destaca “os convites” para os encontros sinodais, feitos “através dos meios da paróquia” e “de cartazes” que foram produzidos. “Cada uma das pessoas que vai aos encontros é convidada a replicar os encontros sinodais com outras realidades, com as suas próprias realidades de trabalho, de família, de amigos, etc. Estas replicações é que têm sido muito curiosas, porque têm-nos chegado terceiras linhas de encontro, numa dispersão muito saudável, muito na lógica dos primeiros cristãos, com muita frescura, que nos mostra, na nossa realidade paroquial, quais são os pontos onde somos chamados a crescer como comunidade, o que é muito bonito”, manifesta, sublinhando que “no último encontro havia pessoas com uma diferença de 50 anos”. “Tínhamos uma pessoa com 74 anos e uma rapariga com 24 anos, o que dá um fresco muitíssimo interessante”, garante Dina, que está casada há 22 anos e tem três filhos.

No caminho sinodal, a paróquia de São Francisco Xavier tem procurado “valorizar públicos de fronteira”, como “as crianças, os idosos e as pessoas que não estão na Igreja, que são ou não batizadas, mas não praticam”. “Para os de fora, como não se sentem tão à vontade para aparecer nos encontros, criámos um Google Forms, com perguntas, que todos podem responder e têm respondido. Claro que preferíamos encontros presenciais – e ainda vou tentar convocar algum –, porque é a eles que somos chamados, mas estes testemunhos já implicam um pôr-se a caminho e um abrir-se ao outro. Isso já é muito bonito e já traduz uma caminhada”, enaltece Dina, desejando que “todos os paroquianos e todos os batizados fossem impactados e acabassem este caminho sinodal com uma responsabilidade dentro da paróquia”. “É a isso que somos chamados, é esse o caminho transformador”, ambiciona.

 

Sair da área de conforto

Na paróquia de Rio de Mouro, na Vigararia de Sintra, o caminho sinodal tem levado a comunidade cristã a “sair da área de conforto”. Mesmo sendo “uma experiência que as pessoas ainda estão a assimilar”, segundo explica a coordenadora paroquial do Sínodo, Ana Cristina Silva, ao Jornal VOZ DA VERDADE. “A comunidade sente que este caminho sinodal é algo diferente em relação ao Sínodo Diocesano, e que envolve um pouco mais o sair da área de conforto. Estamos habituados a fazer, entre grupos, as partilhas e houve esta sugestão de fazer uma coisa diferente que é ouvir a partilha de outros grupos, de outros movimentos, de outros lugares, nesta caminhada. Por isso, o caminho sinodal é algo diferente, de desinstalar, e está a ser uma experiência a ser assimilada”, refere.

O Papa Francisco tem pedido, com insistência, que não apenas a comunidade cristã participe no Sínodo, mas todas as pessoas. Esta leiga, de 46 anos, assume que “a pandemia não facilitou”, mas que têm procurado ir às periferias. “Conhecendo Rio de Mouro, que é uma zona com alta densidade populacional, o conselho pastoral paroquial propôs diversos ramos de atividade que podiam ser envolvidos neste caminho sinodal. Ficou dividido e algumas pessoas abordaram, por exemplo, a estrutura da PSP, outros o centro de saúde, outros ainda uma associação de reformados… temos procurado conhecer a perspetiva desta parte da sociedade e de estruturas, para que possam dar o seu contributo neste caminho”, conta. Também os jovens não foram esquecidos na caminhada sinodal em Rio de Mouro, garante Ana Cristina. “Os jovens têm também os seus moderadores e estão envolvidos no sentido de serem eles a moderar e a participarem nos grupos”, frisa, sublinhando que na reunião que vão organizar no próximo mês de março vai ter feedback “não só das experiências”, mas também “de todo este processo, se foi positivo ou negativo”. “Esperamos receber propostas, escutarmos todos e tirarmos sumo e sugestões para caminharmos em conjunto”, deseja. Este poderá ser, por isso, na opinião desta leiga, um novo caminho de missão e de evangelização. “Lançar o desafio e desinstalar já é uma proposta que o nosso Papa nos colocou e que é importante, também. O acomodar é mais fácil, e fazer o que já fazíamos, também. Só Ele e a graça do Espírito Santo poderão tirar, depois, as sementes e o sumo de todo este trabalho”, considera esta coordenadora paroquial do Sínodo.

 

Caminho de missão

A zona Oeste do Patriarcado de Lisboa está também a procurar viver o caminho sinodal convocado pelo Papa Francisco. Na paróquia de Torres Vedras, “os grupos têm reunido, ligados a movimentos e grupos paroquiais”, segundo refere Eduardo Frutuoso, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Este leigo, de 57 anos, lembra que, aquando do Sínodo Diocesano, em 2016, o “volume de trabalho foi muito maior”, porque, entretanto, houve “uma pandemia” que tem “dificultado” o trabalho em comunidade. “A pandemia veio trazer algumas mudanças. Aliás, no grupo onde estive, com as Equipas de Nossa Senhora, a primeira pergunta falava sobre o hoje; e o hoje tem a ver com o hoje da pandemia. Um dos diagnósticos que fizemos, é que a pandemia veio trazer uma abordagem diferente, veio trazer uma forma diferente de as pessoas estarem perante a Igreja, perante a fé e perante quase tudo. Isso tem dificultado, de certa maneira, o trabalho em comunidade”, lamenta, reforçando que “a pandemia está a perturbar ao nível das dinâmicas, da presença nas atividades, ao nível das relações e ao nível da própria fé”. “E isso preocupa-nos muito”, frisa.

As aldeias vizinhas da cidade de Torres Vedras, e que também pertencem à comunidade paroquial, têm também participado no caminho sinodal. “Houve a tentativa de fazer chegar este trabalho às aldeias vizinhas, através de uma equipa de leigos que o nosso pároco [o cónego Álvaro Bizarro] criou. Tivemos participação e a equipa recebeu contributos de grupos paroquiais. Penso que não foram muitos, mas foram alguns e importantes, e agora vamos tentar que mais gente entre nesse trabalho”, deseja.

Casado com Fátima há 29 anos e com um filho, o jovem Daniel – que participou no musical dos 300 anos do Patriarcado, ‘Partimos. Vamos. Somos.’ –, Eduardo Frutuoso vê o caminho sinodal convocado pelo Papa como uma oportunidade para chegar fora da Igreja. “Este tem de ser um caminho de missão e de evangelização, senão não vale a pena. Não sei se conseguimos ir muito longe ou não, mas este apelo do Papa temos que o agarrar com unhas e dentes. É um trabalho da Igreja, é um trabalho de todos. Espero que este voltar às relações após a pandemia possa voltar a colocar as pessoas neste caminho de missão. A indiferença corta a chegada às periferias. Nós temos que estar completamente envolvidos para chegar às periferias. Isso é fundamental na Igreja. Não podemos arrear este caminho e temos de seguir aquilo que o Papa nos propõe. Se não for assim, não estamos no caminho certo”, manifesta este leigo da paróquia de Torres Vedras.

 

Envolver os mais jovens

Os escuteiros estão também a viver a caminhada sinodal. No Agrupamento 1246 - São Pedro e São João do Estoril do CNE (Corpo Nacional de Escutas), foi “dinamizada uma sessão” e o desejo agora é “envolver os mais jovens”, segundo conta o chefe de unidade Luís Pape, ao Jornal VOZ DA VERDADE. “Fomos desafiados pelo nosso pároco [o padre Paulo Figueira] a dinamizar uma sessão para que o próprio agrupamento pudesse também fazer a sua contribuição para este caminho sinodal. Foi aquilo que fizemos: no passado mês de janeiro, dinamizámos um encontro, em conjunto com o chefe do agrupamento, e tivemos a oportunidade, com os Caminheiros e com os dirigentes de agrupamento, de responder a uma pergunta”, conta. Escuteiro desde os 11 anos, Pape, hoje com 35 anos, sublinha o desejo de “envolver os escuteiros mais jovens” no caminho proposto pelo Papa. “Vamos ainda ter a oportunidade, no acampamento de agrupamento, de adaptar uma dinâmica que estava no site do Patriarcado, de um jogo para a catequese, para os Pioneiros e os Caminheiros, ou seja, jovens dos 14 aos 22 anos, para que eles também se sintam envolvidos e façam parte deste caminho sinodal”, explica este dirigente, que já foi chefe de agrupamento e integra atualmente a Junta Regional de Lisboa do CNE.

Segundo este escuteiro, na paróquia de São Pedro e São João do Estoril, na Vigararia de Cascais, a caminhada sinodal teve “um primeiro momento na altura do Natal”. “Fomos convidados pelo nosso pároco a responder a algumas perguntas, nas Missas de cada sábado. As perguntas eram projetadas no final das celebrações, sobre o Advento, e uma relacionada com o Sínodo, que levávamos para casa e na semana a seguir trazíamos a resposta e colocávamos numa bota – porque toda a dinâmica paroquial do Advento estava relacionada com um caminho que íamos fazendo até à chegada do Natal”, conta Luís Pape, que é também o coordenador do COP (Comité Organizador Paroquial) da JMJ Lisboa 2023. Esta dinâmica de levar a pergunta para casa procurou também chegar aos que estão mais afastados da Igreja. “O apelo, na altura do Natal, foi que as perguntas fossem levadas para as nossas famílias, para as pessoas que não estão connosco em comunidade”, frisa.

Neste tempo que resta para participar na fase diocesana do processo sinodal, há também a possibilidade de responder online. “Em termos de agrupamento, aquilo que fizemos para os animadores que não puderam estar na sessão foi um pequeno formulário Google, para dar a hipótese de responderem, de uma forma alargada. Vamos partilhar este formulário com os pais, no sentido de alargar o âmbito do caminho sinodal”, garante este escuteiro.

 

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Rezar o terço no caminho sinodal

A Comissão Diocesana do Sínodo dos Bispos 2021-2023 preparou uma proposta de oração do terço, “pensada especialmente para este caminho sinodal”. “Será uma forma de envolver as nossas comunidades num ambiente de oração, para que o protagonista deste caminho seja o Espírito Santo”, deseja a mensagem, enviada recentemente a todas as paróquias e realidades eclesiais na diocese.

As meditações do terço podem ser encontradas no site https://sinodo.patriarcado-lisboa.pt.

 

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Jornal VOZ DA VERDADE ajuda

Quer participar no Sínodo sobre a Sinodalidade e não sabe como o fazer? O Papa Francisco quer escutar todos nesta caminhada sinodal e o semanário do Patriarcado de Lisboa quer dar a oportunidade aos leitores que não possam participar de outra forma, disponibilizando-se para receber as partilhas de todos. Com base nos documentos disponibilizados em https://sinodo.patriarcado-lisboa.pt, faça a sua reflexão, opinião, crítica ou simples olhar, e envie-nos para o email vozverdade@patriarcado-lisboa.pt, que faremos chegar a sua participação no processo sinodal à Comissão Diocesana do Sínodo dos Bispos 2021-2023.

 

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O processo sinodal convocado pelo Papa Francisco para toda a Igreja, com o tema ‘Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão’, teve início em outubro passado e prolonga-se até outubro de 2023

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