Entrevistas |
D. Odilo Scherer: ?A carta do Papa é realista e muito forte?
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O arcebispo de São Paulo considera que na carta à Irlanda “o Papa toma sobre si a dor das vítimas” e chama os responsáveis por tais crimes “à conversão, ao arrependimento, à penitência e a buscar o perdão de Deus”. Em entrevista ao jornal ‘O São Paulo’, Semanário da Arquidiocese de São Paulo, o cardeal Odilo Scherer garante ainda que a carta do Papa “é realista e muito forte”, mas é também “um alerta à vigilância”.

De que forma deve ser acolhida a carta do Papa aos católicos da Irlanda [a propósito dos abusos sobre menores cometidos por padres]?

A carta do Papa é realista e muito forte; deve ser lida com atenção e acolhida como uma palavra clara sobre a posição da Igreja em relação ao abuso sexual de crianças e adolescentes por pessoas da Igreja, mas também por pessoas não pertencentes a ela. A Igreja não ensina, não incentiva e não aprova isso, mas reprova e condena firmemente tais tristes factos. E quem os comete dever assumir as consequências perante Deus e perante os homens. Os abusos causaram sérios danos às pessoas e também à Igreja.

 

A carta é marcada pelo espanto, pela dor, pela indignação diante dos abusos e pelo desejo de reparar o mal cometido. Como tem visto as reacções a esta carta?

Fiquei impressionado com a clareza e a firmeza com que o Papa abordou as questões e lembrei-me das palavras do Evangelho: ‘A verdade vos libertará’. O Papa quis transmitir a todos os responsáveis pela Igreja – bispos, padres e superiores religiosos – essa mesma firmeza na busca de estabelecer a verdade sobre os factos; e também deixou claro que a Igreja, de forma alguma, está de acordo com tais crimes. O 6° mandamento da lei de Deus [Guardar castidade nas palavras e nas obras] tem de ser novamente levado a sério.

 

Bento XVI não poupa palavras na condenação dos crimes nem no reconhecimento dos erros cometidos. Estas são palavras duras, dolorosas mas, ao mesmo tempo, honestas e necessárias?

Sim, e não poderia ser diferente. Não podemos ser coniventes com crimes dessa natureza. Mas é preciso acrescentar algo mais: o Papa também toma sobre si a dor das vítimas e chama os responsáveis por tais crimes à conversão, ao arrependimento, à penitência e a buscar o perdão de Deus.

 

A Igreja sofre com esses escândalos. Com a descoberta de novos casos espalhados pelo mundo, a carta do Papa poderá ter múltiplos destinatários, além dos sacerdotes, das vítimas dos abusos, dos pais e de todos os católicos irlandeses?

A carta do Papa é dirigida especialmente aos católicos da Irlanda, mas é válida para os católicos de todo o mundo. Os factos, infelizmente, não acontecem apenas na Irlanda; e nem somente nos ambientes da Igreja. A tentação e a fragilidade da ‘carne’ está por toda parte... Os abusos sexuais sobre crianças são muito mais abundantes do que se possa imaginar e em todos os ambientes do convívio social. Acontecem em maior número debaixo dos tectos familiares. Apesar disso não diminuir em nada a gravidade de crimes cometidos por representantes da Igreja, faz pensar que ninguém deveria ficar com a alma lavada porque foram denunciados e admitidos casos na Igreja. O mal é bem mais amplo e profundo e requer uma revisão de posturas culturais do nosso tempo. O relaxamento e o desprezo pelos valores e conceitos ético-morais é uma das causas principais e a vítima é sempre a pessoa mais frágil e desprotegida.

 

Bento XVI oferece o ‘remédio’ para a cura do problema do abuso de crianças e adolescentes e das feridas causadas na vítimas, nas famílias e na própria Igreja. Em que consiste este ‘remédio’?

O Papa indica na carta uma série de medidas a serem adoptadas para a superação do problema na Irlanda; tais ‘remédios’ vão desde a chamada à penitência e à conversão, à responsabilização perante a justiça civil e canónica; mas também fala da ajuda às vítimas e das suas famílias e a uma grande acção missionária no país – da qual ele próprio quer participar, indo à Irlanda.

Interessante é que o Papa chama o povo da Irlanda, que foi tradicionalmente muito católico, a retomar forças da sua própria história religiosa, dos seus mártires e santos, a começar por São Patrício, um dos seus missionários, que contribuíram muito para a evangelização em várias partes do mundo ao longo da história.

 

Que sinais de esperança podem ser identificados neste momento de dor, que não atinge apenas a Igreja da Irlanda mas a toda a Igreja?

Antes de tudo, fica uma grande chamada de atenção: não podemos perder a noção da seriedade e gravidade dos factos. O relaxamento dos costumes e da moral é o chão no qual nascem e se desenvolvem, na maior ‘normalidade’,  todos os vícios... Por outro lado, a carta é um alerta à vigilância: os pais estejam atentos à educação dos seus filhos e às companhias que frequentam. Antigamente as companhias eram apenas os amigos ou as pessoas próximas; hoje, a ‘companhia’ mais perigosa pode estar dentro de casa, na internet... Por outro lado, na Igreja, a dolorosa verificação dos factos é o caminho necessário para a purificação e a retomada do seu autêntico serviço prestado à humanidade. O poder da graça de Deus é maior que as insídias do Maligno, que semeia a erva daninha no campo da Igreja... Foi Jesus quem falou e isso dá-nos esperança.

 

Perfil

Nascido a 21 de Setembro de 1949, D. Odilo Pedro Scherer é arcebispo de São Paulo, a terceira maior arquidiocese católica do mundo, desde Março de 2007. Poucos meses depois, a 24 de Novembro de 2007, foi criado cardeal pelo Papa Bento XVI, sendo um dos mais jovens membros do Colégio Cardinalício.

 

Carta Pastoral do Santo Padre Bento XVI aos Católicos na Irlanda

 

“Fiquei profundamente perturbado com as notícias dadas sobre o abuso de crianças e jovens vulneráveis da parte de membros da Igreja na Irlanda, sobretudo de sacerdotes e religiosos. Não posso deixar de partilhar o pavor e a sensação de traição”

 

“O problema do abuso dos menores não é específico nem da Irlanda nem da Igreja. Contudo a tarefa que agora tendes à vossa frente é enfrentar o problema dos abusos que se verificaram no âmbito da comunidade católica irlandesa e de o fazer com coragem e determinação.”

 

“Devemos procurar compreender o desconcertante problema do abuso sexual dos jovens, que contribuiu em grande medida para o enfraquecimento da fé e para a perda do respeito pela Igreja e pelos seus ensinamentos.”

 

“É preciso agir com urgência para enfrentar estes factores, que tiveram consequências tão trágicas para as vidas das vítimas e das suas famílias e obscureceram a luz do Evangelho a tal ponto, ao qual nem sequer séculos de perseguição não tinham chegado.”

 

“Em diversas ocasiões desde a minha eleição para a Sé de Pedro, encontrei vítimas de abusos sexuais, assim como estou disponível a fazê-lo no futuro. Detive-me com elas, ouvi as suas vicissitudes, tomei nota do seu sofrimento, rezei com e por elas.”

 

“[Às vítimas de abuso e às suas famílias] Sofrestes tremendamente e por isto sinto profundo desgosto. Sei que nada pode cancelar o mal que suportastes. Foi traída a vossa confiança e violada a vossa dignidade. (…) É compreensível que vos seja difícil perdoar ou reconciliar-vos com a Igreja. Em seu nome expresso abertamente a vergonha e o remorso que todos sentimos. Ao mesmo tempo peço-vos que não percais a esperança.”

 

“[Às vítimas de abuso e às suas famílias] É na comunhão da Igreja que encontramos a pessoa de Jesus Cristo, ele mesmo vítima de injustiça e de pecado. Como vós, ele ainda tem as feridas do seu injusto padecer.”

 

“[Aos sacerdotes e aos religiosos abusadores] Exorto-vos a examinar a vossa consciência, a assumir a vossa responsabilidade dos pecados que cometestes e a expressar com humildade o vosso pesar. O arrependimento sincero abre a porta ao perdão de Deus e à graça do verdadeiro emendamento.”

 

“[Aos meninos e aos jovens da Irlanda] Cristo ama-vos e ofereceu-se a si próprio na Cruz por vós. Procurai uma relação pessoal com Ele na comunhão da sua Igreja, porque nunca trairá a vossa confiança!”

 

“Desejo propor-vos algumas iniciativas concretas para enfrentar a situação. (…) Convido todos vós a dedicar as vossas penitências da sexta-feira, durante todo o ano, de agora até à Páscoa de 2011, por esta finalidade [oração para uma efusão da misericórdia de Deus e dos dons de santidade e de força do Espírito Santo sobre a Igreja no vosso país].”

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