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Quaresma
O jejum, a esmola e a oração vividos todo o ano
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Falar de Quaresma é lembrar o jejum, a esmola e a oração, que os cristãos procuram cumprir, de forma particular, nestes 40 dias até à Páscoa. Mas há também quem faça destes preceitos uma prática diária na sua vida, ao longo de todo o ano. Uma religiosa, uma mãe de família e uma jovem explicam como. O olhar, nesta caminhada quaresmal, está também na Ucrânia.

 

JEJUM

“O jejum destaca os valores da escuta e da disponibilidade”

Para a irmã Deolinda Rodrigues, das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, “se o jejum é importante para Jesus – e Ele é sempre a nossa referência –, para nós é importantíssimo, também”. “Quando estamos demasiado cheias, por comer muito, não estamos disponíveis, estamos pesadas, não dá para discorrer e escutar o plano de Deus, nem para fazer os nossos projetos. O jejum tem toda esta sabedoria”, assinala a religiosa, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Atual coordenadora da congregação em Portugal, a irmã Deolinda lembra que Jesus Cristo jejuou no início da sua vida pública. “No Domingo passado, ouvimos a passagem de Jesus no deserto e o jejum que Ele fez durante 40 dias. Ele estava em profundo silêncio, em profunda oração e quase não havia tempo para a comida – ou era secundária”, refere. Da mesma forma, assinala a religiosa, Jesus dizia aos discípulos que “há certa casta de demónios que só podem ser expulsos com jejum e oração”. “O jejum é absolutamente necessário para vencer as tentações”, frisa. Neste sentido, a irmã Deolinda sublinha que “o mais importante é a Palavra de Deus”. “Nós não vivemos só de pão. Sabemos isso perfeitamente”, aponta, referindo depois que “Jesus, por vezes, é um pouco exagerado quando quer afirmar muito uma ideia”. “Nestes 40 dias e 40 noites, não comer e não beber, como fala o Evangelho, é uma forma exagerada, mas muito bonita, de falar da importância do jejum para destacar os valores da escuta, da disponibilidade, de descobrir o plano de Deus e quais os pilares desse plano”, recorda.

A irmã Deolinda Rodrigues tem cumprido a sua missão no antigo Bairro 6 de Maio, na Amadora, cuja demolição terminou no ano passado, residindo atualmente na Damaia de Baixo, com mais duas religiosas, para estarem “próximas desta população”. “Continuamos a servir a população”, garante a religiosa, natural de Monte Redondo, em Leiria, e que professou há 64 anos. “Na missão, temos outra dimensão do jejum que é o amor aos outros. A verdade é que quando jejuamos – e custa um pouco, porque sofremos, sentimos falta e mexe connosco – percebemos que nos estamos a queixar quando há milhões, milhões de pessoas, que fazem isto não por opção, não para descobrir o valor do jejum, mas porque não têm, porque não podem, porque realmente a fome é um drama. Graças ao jejum, graças à experiência que nós vivemos do jejum, sentimo-nos solidários e a pensar nessas pessoas. E se vivemos isso, resulta necessariamente a partilha, a solidariedade. O espírito verdadeiro do jejum tem muita razão de ser. O jejum é, de facto, um valor”, garante.

O Centro Social 6 de Maio, da responsabilidade das Irmãs Missionárias Dominicanas do Rosário, lançou recentemente o desafio aos funcionários, colaboradores e utentes para uma campanha de angariação para o povo da Ucrânia. “Queremos muito que as crianças, as famílias, as pessoas possam participar”, deseja a irmã Deolinda. “Quem não chora perante as imagens que vê? Saber que outros estão naqueles esconderijos, há quanto tempo não terão comido… Enfim, é um drama, um drama. De facto, custa-me muito. Mas vemos, nestes dias, quanta partilha, quanta solidariedade, quanta oferta! E o jejum ajuda, não tenho dúvida nenhuma”, assegura.

 

ESMOLA

“Doação constante e não apenas neste tempo”

A esmola é muitas vezes vista como simplesmente dar dinheiro, mas é também uma forma de caridade, de doação de si mesmo pelo bem dos outros. Michela Vaz Patto é voluntária do grupo Amigos à Mão, da paróquia de Cascais, e aponta a importância da esmola na sua vida. “O Evangelho está repleto de frases que nos remetem para essa doação. Aprendi na família, e com o grupo de jovens de que fiz parte, a gratidão por tudo o que Deus nos deu. O Evangelho de São Mateus diz: ‘De graça recebestes, de graça deveis dar’. Vejo que é mesmo isso. Ficamos mais felizes quando damos do que quando recebemos. Isto verifica-se continuamente na vida. Quanto mais damos, mais recebemos”, garante esta leiga, de 60 anos, ao Jornal VOZ DA VERDADE.

Italiana de origem, mas a viver em Portugal desde bebé, Michela é mãe de quatro filhos – uma rapariga, a mais velha, e três rapazes –, entre os 27 e os 22 anos, e procura também educar as novas gerações para a importância da esmola. “Quando o meu filho mais novo era pequeno e a escola fazia campanhas para ajudar África, ele agarrava no dinheiro do mealheiro e esvaziava-o todo. A professora chegou a perguntar-me se eu sabia e eu respondia que era da liberdade dele, que era bom que ele desse, para ajudar quem passa necessidades. É tudo uma questão de educação, mas também é a nossa fé que nos move a isto”, considera. Casada, há 28 anos, com Pedro Vaz Patto, Michela lembra a necessidade de se dar valor ao que se tem. “Temos que ser gratos pela saúde, pela casa que temos, por poder estudar. Tanta coisa que noutros lado do mundo não há. Até a Paz! Muitas vezes esquecemos que temos tudo por aquisição e não damos valor àquilo que temos, que já é uma dádiva de Deus. Por isso, temos realmente de responder a este amor que Ele nos dá através da nossa vida, desta doação constante que não é apenas neste período do ano, em que por vezes tentamos ‘pôr tudo’ na Quaresma, mas é na vida inteira”, realça.

Voluntária dos Amigos à Mão há cinco anos, Michela sublinha que esta obra social procura ter “um olhar de atenção ao próximo”, vendo “as situações que emergem à nossa volta” e tentando “dar uma resposta concreta”. O drama dos refugiados da Ucrânia não foi esquecido e, “em conjugação com a Câmara Municipal de Cascais”, saíram nesta quarta-feira, dia 9 de março, “quatro autocarros para ir buscar 200 pessoas à fronteira com a Polónia”. “Estamos a articular para podermos receber estas famílias nas nossas casas. Vamos ter uma nova reunião com a Câmara, para perceber como isto pode ser articulado, mas não é fácil. Como se tratam de jovens mães, a maioria com filhos pequenos, o meu grande receio é haver algum aproveitamento dessas pessoas. Gostaria que a Igreja se pronunciasse, a nível da Conferência Episcopal, porque têm que ser as famílias católicas as primeiras a abrir as suas portas para receber estas famílias ucranianas”, deseja Michela. “É esse o meu sonho”, partilha.

 

ORAÇÃO

“O que está nas nossas mãos é mesmo a oração”

Laura Freire Chegadinho, estudante de Farmácia na Universidade de Lisboa, faz da oração uma prática diária, mesmo assumindo que tem “muitos altos e baixos”. “Tal como a relação com Jesus”, reconhece. “Mas quando a relação com Jesus está ótima – e também devemos procurar essa relação e esse aproximar de Jesus – é um apoio, é um saber que não estou sozinha”, salienta esta jovem, de 21 anos, ao Jornal VOZ DA VERDADE. A Quaresma deste ano tem sido marcada pela guerra na Ucrânia. Laura lembra palavras do Papa Francisco, de que a melhor ‘arma’ é a oração. “O Papa também disse que nós temos de ser jovens de agir e sair do sofá e ir ao encontro. Mas sinto-me um bocadinho de mãos atadas e acho que é mesmo isso: a melhor ‘arma’, neste momento, é a oração. Temos de fazer a nossa parte e rezarmos por aquele povo que está a sofrer tanto. Neste momento, o que está nas nossas mãos é mesmo a oração”, frisa Laura Freire Chegadinho.

Esta jovem natural de Évora, que está há quatro anos em Lisboa a estudar, é a coordenadora do NEC (Núcleo de Estudantes Católicos) da sua faculdade e explica também a forma como os universitários estão a viver este tempo de preparação para a Páscoa. “Temos uma atividade, que é a ‘Caminhada da Quaresma 2022’, e dividimo-nos em grupos de partilha. Começámos esta semana e fazemos guiões de reflexão sobre o Evangelho de Domingo, que partilhamos, em grupos de cinco. São encontros em que reunimos durante uma hora e caminhamos juntos, neste percurso até à Pascoa”, conta Laura.

Recentemente, de 12 a 20 de fevereiro, o NEC da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa esteve na Missão País, em Grândola. “Correu muito bem”, diz Laura Freire Chegadinho, que foi a responsável pela oração, durante a semana de missão por terras alentejanas. “Para missionar, a base é sempre a oração! Só é possível missionar numa terra se tivermos sempre a ajuda de Nossa Senhora e de Jesus. Os momentos de oração foram muito o alimento e o combustível para que a nossa função em Grândola fosse feita e conseguíssemos levar Jesus àquela terra”, garante Laura que, em Évora, faz parte das Equipas de Jovens de Nossa Senhora.

 

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Papa Francisco @Pontifex_pt

“Oração, caridade e jejum não são remédios só para nós, mas para todos: podem, de facto, mudar a história, porque são os meios principais que permitem a Deus intervir na vida nossa e do mundo. São as armas do espírito. #Quaresma”

4 de março

 

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“Proximidade a todos os que sofrem os efeitos da guerra”

Na Mensagem para a Quaresma, o Cardeal-Patriarca de Lisboa lembrou todos os que sofrem com a guerra. “Iniciamos esta Quaresma com grande proximidade a todos os que sofrem os efeitos da guerra e muito especialmente na Ucrânia. A nossa proximidade traduz-se na disposição para socorrer e acolher quanto e como for preciso”, garantiu D. Manuel Clemente, na Mensagem da Quaresma e homilia de Quarta-feira de Cinzas. Na Sé Patriarcal de Lisboa, no passado dia 2 de março, o Cardeal-Patriarca assumiu que “são tempos difíceis, os desta Quaresma”. “Com a pandemia ainda por extinguir, com a guerra na Ucrânia que urge terminar, com a Igreja a renovar, com tanta pobreza a pedir resposta”, enumerou D. Manuel Clemente, recordando que “também não eram fáceis os [tempos] que tocaram ao próprio Jesus, dois milénios atrás”. “Ensinou-nos a enfrentá-los com um coração filial, correspondendo assim ao coração de Deus Pai, que no segredo nos vê e recompensa, fazendo-nos inteiramente seus e de Si para todos. Assim mesmo, no mais íntimo e determinante de cada um, para o futuro que importa. Não para darmos nas vistas alheias, mas para nos refazermos sob o olhar de Deus. Para refletirmos aos outros o olhar divino, amando e servindo como Jesus o fez. É o que nos pede o tempo que vivemos, é o exercício quaresmal perfeito. Não adiemos a resposta”, convidou.

Nesta celebração, que marcou o início do tempo litúrgico da Quaresma, o Cardeal-Patriarca sublinhou ainda a importância da oração e do jejum na preparação da Páscoa. “Como crentes, acreditamos no poder da oração e do jejum que a intensifica, pois rezar é querer com Deus e ‘quem quer o que Deus quer tem tudo quanto quer’. Querer com Deus significa acolher a sua paternidade, solícita do bem de todos os filhos e geradora da nossa fraternidade, começando pelos que mais a requeiram”, apontou, reforçando que a oração de Jesus “foi inteiramente filial, o seu jejum foi alimentar-se da vontade do Pai e a esmola que nos deu foi a sua própria vida, plenamente entregue”. “Nós acreditamos que há sempre futuro a partir do coração divino e de quem se mantém filialmente nele e fraternalmente com todos. A Quaresma que iniciamos leva-nos à Páscoa de Cristo, mas exatamente na medida em que para lá caminharmos com Ele e a seu modo”, apontou D. Manuel Clemente.

Mensagem na íntegra em: https://bit.ly/MsgQuaresma22

 

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Renúncia quaresmal ajuda hospital na Índia e a Ucrânia

Na Mensagem para a Quaresma 2022, o Cardeal-Patriarca de Lisboa anunciou que a renúncia quaresmal deste ano vai ser “destinada em parte à Diocese de Palai (Índia) a favor do seu hospital, que atende especialmente a população mais pobre”, e “em parte à Cáritas Diocesana de Lisboa, para apoiar as necessidades do povo ucraniano, duramente atingido pela guerra”.

Sobre a renúncia quaresmal de 2021, D. Manuel Clemente revelou que “juntou 117.614,32E”, que foram “destinados à Cáritas Diocesana de Lisboa, para continuar a responder a necessidades geradas pela pandemia”.

texto por Diogo Paiva Brandão
A OPINIÃO DE
Pe. Alexandre Palma
A ecologia parece um assunto novo. Ampliado pelo actual sobressalto ambiental, o termo e o tema determinam hoje muito da nossa agenda pública.
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