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Guerra na Ucrânia: cristãos de Lisboa ajudam refugiados
Ajudar o povo ucraniano a encontrar a Paz
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Gonçalo Mendes Barata levou a própria carrinha de nove lugares até à Polónia, na fronteira com a Ucrânia, para ir buscar refugiados. Rita Roquette Carvalho Neto ia fazer o mesmo, mas os muitos donativos angariados permitiram alugar um autocarro e assim trazer mais pessoas. Duas histórias de dois cristãos de Lisboa, para quem a guerra na Ucrânia não foi indiferente e que quiseram “ajudar o povo ucraniano” e “tocar o coração de quem mais precisa”.

 

Gonçalo Mendes Barata, de 45 anos, pegou na sua carrinha de nove lugares e fez mais de 7.000 quilómetros para ir à Polónia, na fronteira com a Ucrânia, buscar refugiados. “Esta missão começou com uma inquietação minha, de que tinha de fazer qualquer coisa. Quando comecei a ver muita gente na fronteira, como tenho uma carrinha de nove lugares por ter cinco filhos, disse que tinha de a pôr à disposição”, começa por partilhar Gonçalo, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Após “uns dias a marinar o ‘vou, não vou’”, Gonçalo, com o apoio da sua mulher, Teresa, assumiu que a missão tinha de avançar. “Meti no WhatsApp da minha família e automaticamente o meu irmão mais velho e a minha cunhada se ofereceram. Arranjei, logo ali, os condutores!”, graceja.

Gonçalo confessa que, “inicialmente”, queria “fazer uma coisa muito discreta, quase sem ninguém saber”, porque “o objetivo era ajudar”. “Mas as pessoas foram sabendo e isso gerou um certo entusiasmo”, assinala. Houve, entretanto, outras pessoas a quererem participar na missão – “um irmão da minha mulher e mais dois amigos” – e acabaram por ir dois grupos, em duas carrinhas de nove lugares: a de Gonçalo e uma alugada. “A segunda carrinha, só a conseguimos alugar na véspera! Tivemos vários donativos e, com esse dinheiro, fomos buscar mais pessoas”, refere, satisfeito.

 

Apoio ucraniano

A missão foi concertada com uma instituição ucraniana, Anjos de Misericórdia, na Venda do Pinheiro, que “ia indicar os refugiados a trazer para Portugal”. “Queríamos sair daqui com as pessoas perfeitamente sinalizadas, mas percebemos que isso não iria acontecer. Então, arriscámos”, confessa. “Dois dias antes da partida, como estava tudo muito por telefone, fomos conhecer a instituição e buscar bens para levar”, refere. “Como tinham acabado de enviar dois camiões e um avião, não tinham nada para doar, mas indicaram a Igreja Greco-Católica Ucraniana de Arroios”, acrescenta Gonçalo. Ali, após a “desconfiança inicial” com a missão – “em especial, devido aos custos da viagem” – deram os bens para levar e indicaram o destino final.

A saída de Gonçalo e dos cinco companheiros de viagem de Lisboa aconteceu às 23h00 de quarta-feira 9 de março. E foram diretos à Polónia. “Íamo-nos revezando na condução e na conversa, enquanto o terceiro elemento descansava. Só parávamos para comer o que tínhamos preparado em Portugal e para meter gasóleo”, conta. De Portugal, rumaram direto a um armazém em Tryńcza, perto de Lublin, junto à fronteira. Além dos bens, deixaram também várias Imagens da Mãe três vezes admirável de Schoenstatt, movimento a que Gonçalo pertence. Depois, conduziram mais quatro horas até Varsóvia. “Chegámos a um hotel de sexta para sábado, às três da manhã, para descansarmos um pouco, e saímos às 11 da manhã”, refere este leigo.

 

Treze refugiados

O primeiro contacto com os refugiados aconteceu no sábado 12 de março, após o almoço. Sempre em comunicação “com uma responsável dos Anjos de Misericórdia” e com “alguns dos familiares ucranianos que estavam em Portugal”, Gonçalo e os cinco companheiros de missão foram ter “a um ponto marcado por eles, junto a um hipermercado”. Trouxeram 13 pessoas, todas familiares de ucranianos que já estão em Portugal há uns anos: “Dois bebés de 6 e 7 meses, um miúdo de 4 anos, uma rapariga de 18 anos que vinha sozinha, sem os pais, outra jovem na casa dos 20, seis adultos e duas idosas. Era uma questão humanitária, portanto ninguém ia ficar para trás”, garante Gonçalo Mendes Barata.

Do grupo, uma das senhoras mais velhas “vinha muito nervosa, cheia de medo por vir sozinha e não falar Inglês”. “Mas, ao longo do tempo, tivemos muito cuidado com ela, dando-lhe abraços, e a minha cunhada, sendo mulher, tomou a liderança, o que torna as coisas mais confortáveis nestas situações”, explica. Gonçalo diz que sentiu os refugiados “cansados e um pouco desorientados”. “Eram todos de classe média, portanto pessoas que até há duas, três semanas tinham uma vida perfeitamente normal, que nunca foram ajudadas e não sabiam lidar bem com isso, porque não estavam habituadas. Tentámos passar uma mensagem de que estávamos lá para os ajudar, que todos os custos e refeições eram por nossa conta, e que íamos fazer a viagem ao ritmo deles, parando as vezes que fosse preciso. Achámos que isso poderia dar um pouco mais de confiança”, resume, referindo que o diálogo era feito “num Inglês muito básico” e “com a ajuda do tradutor do Google”.

No caminho para Portugal, duas das refugiadas ficaram em Burgos, Espanha, “porque tinham familiares em Madrid”, e a rapariga que vinha sozinha ficou na Guarda, “porque tinha lá a avó”. Os restantes, “tinham os familiares em Lisboa”, exceto “a senhora mais velha”, que foi depois “levada para Santiago do Cacém”.

 

União de corações

A chegada a Lisboa aconteceu a meio da manhã desta segunda-feira, 14 de março. “Chegámos à porta de minha casa, no centro de Lisboa, e a minha mulher pôs uma mesa no hall de entrada com o pequeno-almoço para todos as famílias, num momento também muito bonito”, aponta Gonçalo. Para os ucranianos que os aguardavam, “foi um alívio ver os seus familiares em segurança”.

Em Portugal, os familiares e amigos de Gonçalo e dos companheiros de missão ficaram a rezar. “No movimento de Schoenstatt, houve uma grande corrente de oração. Uma tia que vive connosco pertence ao movimento dos Focolares e também difundiu. De repente, havia pessoas a rezar por nós que nós não conhecíamos – aliás, isso também aconteceu nos donativos. Tudo isso tornou a missão mais bonita, porque as pessoas ajudaram com um coração enorme”, assegura.

Desta viagem, há dois momentos em que Gonçalo sentiu a ‘mão’ de Maria. “Foram dois momentos muito claros. Na Alemanha, um dos pneus da carrinha alugada começou a perder ar e percebemos que o pneu estava com as lonas à vista. Estavam 9 graus negativos, o sol estava quase a nascer, e decidimos andar mais um pouco e quando parámos para o trocar, o pneu já tinha os arames todos à vista. Foi uma graça, porque podia ter sido complicado… Já em Lisboa, entregámos a carrinha alugada e quando eu ia estacionar a minha carrinha, que estava em segunda fila, ela já não pegou e teve de ir de reboque. Graças a Deus não era nada de especial, foi a bateria que morreu devido às baixas temperaturas, mas foi uma graça porque se tivesse sido durante a viagem, com os refugiados, era muito mais difícil, porque eles tinham muitos dias de caminho e estavam muito cansados”, conta.

No coração, Gonçalo Mendes Barata levou até à fronteira com a Ucrânia “a vontade de ajudar os outros”. “Queríamos tocar o coração do outro e dar-lhe conforto nestas situações tão difíceis”, frisa. Embora a missão tenha terminado, Gonçalo e os companheiros de viagem ofereceram-se “para continuar a ajudar no que os refugiados precisem”. “Ficámos com uma união de corações para sempre”, garante o leigo de Lisboa, que se fez à estrada na sua carrinha para ir à Polónia buscar refugiados ucranianos.

 

Donativos para… um autocarro!

A dimensão da solidariedade de familiares e amigos fez com que Rita Roquette Carvalho Neto deixasse de lado a ideia de ir à Polónia buscar refugiados ucranianos numa carrinha de nove lugares, para ir de autocarro. “Vamos trazer esta semana para Portugal 48 pessoas!”, refere, satisfeita, esta leiga, ao Jornal VOZ DA VERDADE. Rita, de 36 anos, foi desafiada por uma amiga, Joana de Almeida Vicente, para esta missão. “Aos poucos e poucos, fomos montando a iniciativa”, frisa. “Inicialmente, tínhamos pensado numa carrinha de nove lugares, mas, entretanto, começámos a angariar fundos e a perceber que, se calhar, conseguíamos chegar até ao financiamento de um autocarro”, aponta, reforçando ter sido “um apoio espetacular dos familiares e amigos”, mas também “de empresas que, de alguma forma, quiseram ajudar”. E assim foi. “Conseguimos mais de 23 mil euros, em menos de 10 dias, e começámos a montar toda a missão para fazer a viagem até à Polónia”, conta.

O autocarro ‘de’ Rita e Joana saiu de Lisboa na manhã desta quarta-feira, 16 de março, rumo a Hala Kijowska, na fronteira da Polónia com a Ucrânia – neste mesmo dia, três voluntários desta missão partiram de avião rumo a terras polacas, para “agilizar” todo o processo no terreno. Rita vai de autocarro e, na bagagem, além da esperança em poder “ajudar o povo ucraniano”, leva também “alguns bens, sobretudo medicamentos”. “Através da Associação EntreMundos, pediram-nos ajuda para levar uma remessa grande de medicamentos”, aponta. Serão mais de 3.500 quilómetros de estrada, num percurso que, após percorrer meia Europa, está previsto terminar em Cracóvia cerca da 1h00 da manhã desta sexta-feira, dia 18. O regresso do autocarro ao nosso País, desta vez cheio de ucranianos à procura de Paz, deverá acontecer pelas 18h00 desse mesmo dia. “Se Deus quiser, devemos chegar a Lisboa pelas 18h00 deste Domingo!”, refere, esperançosa, Rita Carvalho Neto.

 

Ajudar pessoas

Antes da partida, esta católica esteve em contacto com o JRS - Serviço Jesuíta aos Refugiados e com a Associação EntreMundos. “Entendemos que faz sentido ir apoiados por alguma organização, para depois fazer toda a parte do acolhimento e alojamento de refugiados”, explica Rita, que é responsável de Comunicação e Angariação de Fundos da Associação Mais Proximidade, que dá apoio a mais de 120 pessoas idosas em situação de isolamento e solidão em Lisboa, e que também já trabalhou na Comunidade Vida e Paz e na Equipa d’África e fez missões em Moçambique. Rita assume que não sabe ainda quem serão os refugiados que vai ajudar. “As listagens são sempre voláteis e todos os dias vão mudando”, esclarece. A prioridade da missão era conseguir trazer pessoas com família em Portugal, “para facilitar a integração”.

Mãe de dois filhos pequenos, o Francisco, de seis anos, e Teresa, com cinco, Rita confessa que só falou com as crianças na véspera da partida, “para não as preocupar”. “Acho que já se fala muito sobre a guerra e basicamente o que lhes disse foi que ia ajudar pessoas e ia trazer para Portugal pessoas que estão a precisar da nossa ajuda”, partilha. A menos de 24 horas de partir nesta missão, Rita Carvalho Neto confidenciava ao Jornal VOZ DA VERDADE o que levava no coração: “Levo a minha família comigo e todas as pessoas que, de alguma forma, nos ajudaram – cada um ajudou à sua maneira e da maneira que podia. Levo muita vontade de ajudar naquilo que for preciso e estar ao serviço daquelas pessoas que neste momento estão muito vulneráveis e que precisam de todo o apoio e mais alguma coisa. E, obviamente, levo também Deus comigo”.

 

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Cáritas de Lisboa respondeu “imediatamente”

Desde o início da guerra na Ucrânia, a Cáritas Diocesana de Lisboa (CDL) tem procurado uma resposta imediata. “Assim que as primeiras notícias e imagens da invasão da Ucrânia pelo exército russo chegaram até nós, a Rede Cáritas do Patriarcado de Lisboa mobilizou-se imediatamente para responder aos primeiros pedidos de ajuda que se fizeram ouvir através, sobretudo, da Igreja e da Comunidade Ucraniana em Lisboa”, salienta, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o responsável da Comunicação da CDL, Henrique Pinto. Durante a primeira semana do conflito, a Cáritas de Lisboa “angariou medicamentos, cobertores, roupa quente, resguardos, fraldas de criança e adulto, óleo, azeite, barras energéticas, enlatados, comida para bebé e criança, toalhitas, chocolates, bolachas e outros bens”, numa “ação concertada com os municípios, juntas de freguesia, bombeiros voluntários, outras entidades e tantos voluntários”. Estes bens foram depois transportados para os países que fazem fronteira com a Ucrânia, nomeadamente a Polónia. O olhar, agora, começa a estar também no acolhimento. “À medida que os primeiros refugiados ucranianos começaram a chegar a Portugal, não só se tornou necessário reforçar uma habitual angariação de bens de primeira necessidade, como se começou a trabalhar em articulação com os poderes centrais e locais o seu acolhimento e alojamento”, revela Henrique Pinto.

texto por Diogo Paiva Brandão
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