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Diretório para a Catequese
As linguagens da fé
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Por linguagens da fé entende-se o conjunto de meios e diferentes formas através das quais se expressa a fé. Se a linguagem constitui o modo através do qual os seres humanos comunicam entre si e se compreendem a si próprios e à realidade que os circunda, sabemos, por experiência, que subjaz a toda e qualquer linguagem o esforço da sua interpretação. A linguagem tem de ser compreensível e decifrável num conjunto humano determinado. Por isso, um dos exercícios sempre necessários na vida da Igreja prende-se com o significado da sua própria linguagem, herdada da Revelação bíblica e tradição num sentido duplamente inverso. Dar a conhecer os conceitos essenciais do cristianismo, particularmente daqueles que não pode abdicar, dado o seu sentido revelatório e semântico. Por outro lado, o esforço de traduzir essa linguagem herdada em formulações que sejam compreensíveis aos homens de cada tempo.

 

Um aspeto não menos relevante prende-se com a atenção que a filosofia da linguagem, particularmente desde Wittgenstein, confere não apenas ao significado das palavras, mas ao uso que se faz delas num determinado contexto. O que significa, em última análise, que a linguagem se torna configuradora de um certo modo de viver e de estabelecer relação com os outros.

É, por isso, que quando falamos de linguagens da fé não nos limitamos a definir uma linguagem através da qual a fé deva ser dita – ainda que isso não viole o princípio da correta formulação correta da fé –, mas a um conjunto de dimensões existenciais que atestam e comprovam a verdade da fé. O Diretório para a Catequese dá conta de uma diversidade de linguagens da fé que são complementares entre si: linguagem bíblica (Palavra de Deus), linguagem simbólico-litúrgica (símbolos e ritos litúrgicos), linguagem doutrinal (escritos dos Padres, Símbolos da fé, formulações do Magistério) e linguagem performativa (testemunho dos Santos e dos Mártires) (cf. DC 205). Enquanto serviço eclesial ao serviço da palavra de Deus, a catequese recorre às linguagens da fé, não apenas no sentido que as utiliza como meio de transmissão, mas, em virtude da ação profética do Espírito Santo, as vê acontecer e realizar-se. Sob este ponto de vista, a catequese tem por missão levar os que se iniciam na fé cristã não só a tomar contacto com as linguagens da fé, mas a apropriar-se delas existencialmente. Esta apropriação exige uma propedêutica às linguagens próprias da fé que consiste, como parte substancial da vida cristã, enxertar a existência no conjunto de códigos linguísticos herdados da tradição cristã, com os quais a comunidade cristã se compreende e acede ao mistério de Deus. Como sustenta o Catecismo da Igreja Católica, a linguagem específica e característica da fé cristã, expressa em fórmulas, aponta para as realidades que essas fórmulas exprimem permitindo que nos aproximemos delas (cf. CCE 170-171).

Interpretar as linguagens da fé para a dizer de novo, num contexto globalizado como o nosso, corresponde ao desafio de inculturação da linguagem da fé que caracteriza o próprio cristianismo. Basta pensar, por exemplo, no esforço imenso de tradução da fé cristã no encontro do mundo bíblico com o pensamento grego. Todavia, atualmente, a questão das linguagens da fé não se reduz a um esforço de tradução sempre necessário, mas vai mais fundo. Enzo Biemmi, um reconhecido catequeta italiano, considera que a crise da linguagem da fé esconde a crise da experiência de Deus. Enfrentar o problema da comunicação da fé implica perguntar se temos alguma coisa para comunicar, isto é, se existe realmente uma experiência de Deus que possa ser comunicada? De facto, tão importante como a ortodoxia – formulação correta da fé – é a ortopraxia, ou seja, a prática correta da fé. Para favorecer esta articulação entre a fé professada e vivida, o Diretório para a Catequese alarga a polifonia das linguagens da fé à dimensão biográfico-narrativa, à arte e às linguagens digitais. Este alargamento relaciona-se com aspetos antropologicamente significativos nos dias de hoje, através das quais o ser humano faz experiência. Ou seja, dimensões a que a experiência cristã deve estar atenta, potenciando-as e valorizando-as. Numa atenção ao humano e ao vivenciado, estes novos aspetos através dos quais a fé deve dizer-se correspondem a dimensões humanas atualmente apreciáveis. Neste artigo iremos centrar-nos apenas na linguagem narrativa e na linguagem da arte.

A linguagem narrativa diz respeito à redescoberta da dimensão biográfico-narrativa na compreensão do homem enquanto tal. O Diretório realça que «nos últimos anos, nota-se em vários âmbitos culturais a redescoberta da narração não apenas como instrumento linguístico, mas sobretudo como caminho através do qual o homem se compreende a si mesmo e à realidade que o circunda e dá significado àquilo que está a viver.» (DC 207). Esta redescoberta da narrativa destaca o caráter narrativo da própria fé, bem como a importância que a narrativa sempre teve no contexto das comunidades cristãs. A Igreja pode, a esta luz, caracterizar-se como uma comunidade narrativa que sempre contou histórias desde as suas origens, não só a histórias fundadoras, mas, também, as histórias de todos e de cada um em todos os tempos. O poder educativo das histórias é atestado pela tradição pedagógica da Igreja tanto no que diz respeito à arte de contar as narrativas bíblicas e da tradição, como as narrativas da própria biografia. As histórias bíblicas são, sobretudo, histórias de pessoas concretas que fazem uma experiência de Deus. As histórias da vida das pessoas de ontem e de hoje podem e devem ser narradas como lugares de decifração da presença de Deus entrelaçada no seu quotidiano. Do ponto de vista catequético, «a linguagem narrativa é particularmente oportuna para a transmissão da mensagem da fé numa cultura cada vez mais pobre de modelos profundos e eficazes de comunicação» (DC 208).

O Diretório aponta para a relevância da arte cristã na evangelização e na transmissão da fé. As imagens constituem um ambiente propício para se fazer «experiência do encontro com Deus através da contemplação da sua beleza» (DC 209). Retomando as indicações do Papa Francisco referentes à necessidade de que a «formação na via pulchritudinis esteja inserida na transmissão da fé» (EG 167), o Diretório aponta para a tripla necessidade de se valorizarem tanto as expressões artísticas do passado, como as expressões artísticas contemporâneas e encontrar novos sinais e símbolos para a transmissão da fé (cf. EG 167).

Na catequese, as imagens recordam e relatam episódios bíblicos, apontam para alguns aspetos doutrinais e da vida cristã, etc. Grande parte das nossas Igrejas estão repletas de obras de arte com imenso potencial catequético. Desenvolver itinerários de iniciação à simbologia da arte cristã pode «contribuir para mostrar imediatamente os múltiplos aspetos das verdades da fé, tocando o coração e ajudando à interiorização da mensagem» (DC 210). A arte constitui uma importante dimensão da catequese litúrgica e a sua valorização na liturgia favorece o desenvolvimento do aspeto mistagógica da vida cristã. Neste âmbito se enquadra um conjunto de dimensões artísticas, tais como a pintura, a escultura, a arquitetura e a música.

A interação com o mundo das artes que a Igreja sempre procurou desenvolver não se restringe, todavia, ao património litúrgico, mas estende-se a um conjunto vasto de outras dimensões artísticas tais como a literatura, o teatro, o cinema, a dança etc. Num esforço por procurar as dimensões de verdade e de beleza presentes nestas linguagens, a Igreja deve não apenas criar novas formas e expressões artísticas para comunicar a fé, como valorizar aquelas expressões da arte contemporânea que são «atravessadas por uma forte procura de sentido e de espiritualidade» (DC 212).

texto pelo P. Tiago Neto, diretor do Setor da Catequese de Lisboa
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