Por uma Igreja sinodal |
– Caminhos de mútua aprendizagem e conversão
Sinodalidade e ecumenismo
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O Documento preparatório do Sínodo propõe, entre os núcleos temáticos a aprofundar, “o diálogo entre cristãos de confissões diferentes”. Num contexto eclesial em que o ecumenismo continua a interessar apenas a um número restrito de católicos, importa explicitar porquê a tarefa ecuménica tem que ver com a sinodalidade e de que modo o caminho sinodal pode ajudar a crescer a sensibilidade ecuménica e, assim, impulsionar também a renovação eclesial.

 

1. Desde logo, a busca da unidade da Igreja é, estrutural e metodologicamente, um “caminho sinodal”, um esforço de caminhar em conjunto na preocupação de fidelidade ao Evangelho, em ordem a uma mais consciente responsabilidade cristã pela e perante a humanidade. Este esforço de caminhar juntos em busca da “unidade numa diversidade reconciliada” é já, de algum modo, uma afirmação da unidade da Igreja que a fé proclama e exige. E, nas circunstâncias atuais, será até a única forma possível de empenho ecuménico efetivo para a maior parte dos cristãos:  encontros diversos, tomadas de posição conjuntas, ações assumidas em comum, etc., etc.

Deste modo, introduzindo a sinodalidade nos processos ecuménicos, dão-se passos em frente na própria visão da unidade da Igreja que se procura como dom de Deus e tarefa humana. Na verdade, a unidade da Igreja não é um voltar ao passado (um simples regresso a Roma), mas um caminhar em frente, na abertura de coração ao que Deus nos for pedindo.

 

2. Nas últimas décadas tem crescido a convergência ecuménica no reconhecimento da Igreja como mistério de comunhão, acolhido e vivido pela participação dos crentes a partir do batismo. Trata-se – como se exprime um documento da Comissão Fé e Constituição do Conselho Ecuménico das Igrejas (2013) – da visão da Igreja como koinonia (comunidade/comunhão), que se realiza em cada Igreja local e na sua relação com as outras Igrejas, através de estruturas e processos sinodais específicos. Sublinha-se aí que, “sob a condução do Espírito Santo toda a Igreja é sinodal/conciliar, a todos os níveis da vida eclesial: local, regional e universal. A sinodalidade ou conciliaridade reflete o mistério da vida trinitária de Deus, e as estruturas da Igreja exprimem-na para realizar a vida da comunidade como comunhão” (nº 53).

 

3. Já na Assembleia Geral do mesmo Conselho, realizada em Nairobi em 1975, tinha sido proposta a visão da “Igreja una” como “uma comunidade conciliar de Igrejas locais, que por sua vez estão de facto unidas entre si”, e dão expressão ao seu relacionamento mútuo e à comunhão existente através de “encontros conciliares”. E, poucos anos depois, foi sugerida a realização de um “concílio universal” como forma de as Igrejas darem passos decisivos no caminho da unidade, passando das palavras aos atos, das promessas e dos propósitos a gestos concretos e transformadores da realidade.

A sinodalidade/conciliaridade de que aqui se fala é uma via que merece ser considerada pelas possibilidades que abre, mas também pelo efeito simbólico que tem. Em Roma, na sessão que precedeu a abertura do próximo Sínodo, na presença do Papa Francisco, o irmão Aloïs, prior de Taizé, apresentou como “sonho” a proposta-pergunta se não seria possível realizar um grande encontro ecuménico com a participação de crentes de diferentes Igrejas cristãs, um encontro animado por jovens e com o objetivo primeiro de promover a paz.

 

4. Todas as Igrejas e Comunidades Eclesiais reconhecem a sinodalidade como essencial na vida da Igreja e praticam formas sinodais que podem constituir motivo de interpelação e enriquecimento mútuos. Persistem, é certo, pressupostos teológico-eclesiais e práticas da sinodalidade divergentes em relação ao que a Igreja católica pensa e pratica, particularmente quanto ao papel do ministério ordenado e ao significado do ministério universal do bispo de Roma (relação primado/sinodalidade).

Após a separação do Ocidente (séc. XI), as Igrejas Ortodoxas continuaram a práxis sinodal dos primeiros séculos, designadamente realizando Sínodos Patriarcais e Metropolitanos. Por sua vez, as Igrejas e Comunidades Eclesiais provenientes da Reforma promoveram e realizam hoje formas específicas de sinodalidade com a acentuação do sacerdócio comum dos fiéis:  os batizados participam de diversos modos no governo sinodal da comunidade, na eleição dos ministros, na responsabilidade pela fidelidade doutrinal e pela ordem eclesiástica. Nas Igrejas da Comunhão Anglicana, embora se reconheça o papel específico dos bispos, a capacidade legislativa eclesial passa por instâncias sinodais com a participação de leigos.

Sem perder o sentido crítico face à realidade que se verifica nas outras Confissões, a consciência católica tem de escutar as interpelações que daqui resultam, particularmente no que respeita à participação de todos os crentes na vida eclesial. E, desse modo, a Igreja católica poderá também mostrar de forma mais credível o sentido de uma autoridade própria do ministério ordenado (exercida sempre em sinodalidade!) e a riqueza eclesial que constitui o ministério de Pedro ao serviço da unidade da fé e da comunhão das Igrejas.

 

5. O Decreto sobre o Ecumenismo (nºs 6-8) lembrou que não há ecumenismo sem conversão interior e que a Igreja, em fidelidade à sua vocação, é chamada a uma “reforma perene”. O caminho sinodal pode ajudar-nos a perceber melhor que a busca da unidade da Igreja – em fidelidade às interpelações de Deus no seu Espírito Santo, e não simplesmente de acordo com as nossas ideias e pretensões de verdade! – nos pede profundas transformações de mentalidade e de atitudes. E desse modo ressaltará também o que está aqui em causa e verdadeiramente importa: a autenticidade e a pertinência de um anúncio coerente e crível do Evangelho de Jesus ao serviço da humanização do mundo.

José Eduardo Borges de Pinho
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